Ela Estava Sozinha no Funeral da Própria Mãe. Quando a Terra Tremeu, Chegaram Os Motociclistas Mais Temidos. O Que Deixaram no Túmulo Vai Comover Você.

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**Capítulo 1: A Menina do Casaco Cor-de-Rosa**

A chuva acabara de parar, deixando para trás um céu cinzento e sufocante que parecia esmagar a relva bem cuidada do Cemitério da Luz, em Lisboa. Era uma terça-feira, um dia comum, do tipo que o mundo esquece facilmente, alheio ao facto de um universo inteiro ter acabado de se despedaçar.

No canto mais afastado do cemitério, perto do muro que abafava o barulho da autoestrada, um único funeral chegava ao fim. Foi rápido, quase cruel. Não havia filas de familiares a soluçar nem amigos partilhando memórias. Nenhum coro cantava hinos sobre anjos ou céu.

Havia apenas um caixão simples, de pinho, o mais barato que a câmara municipal podia oferecer, e uma pequena figura ajoelhada na lama.

O nome dela era Mariana Silva. Tinha seis anos.

Vestia um casaco cor-de-rosa um pouco pequeno, com as mangas curtas a deixar os pulsos à vista, e agarrava uma mochila com um desenho de um unicórnio. As cores vivas do seu equipamento chocavam com a terra escura e húmida da sepultura fresca.

Mariana era a única pessoa ali a chorar.

O cheiro no ar era de asfalto molhado e das flores baratas que a funerária deixara por pena—lírios artificiais, com um odor doce e enjoativo. Mariana detestava aquele cheiro. Cheirava a hospital. Cheirava ao fim.

Sara Silva, a mãe de Mariana, fora uma lutadora. Trabalhava como empregada de mesa no “Café das Flores”, uma tasca modesta junto à estrada, onde serviam bifanas e meia de leite a qualquer hora. Sara fazia turnos duplos, os pés inchados dentro de sapatos ortopédicos, vestida de branco e cheirando a café e a fritos. Tinha um sorriso que desarmava até o camionista mais rabugento, e uma resposta pronta para quem se atrevesse a faltar-lhe ao respeito.

Mas sorrisos e respostas prontas não curam cancro do ovário em fase terminal. E as gorjetas não pagam quimioterapia quando não há seguro de saúde.

Sara lutara. Meu Deus, como lutara. Não por ela—há muito que desistira dos próprios sonhos—mas por Mariana. Não tinha família. Nem pais para chamar, nem irmãos para a apoiar. Fora uma criança do sistema, que saiu da assistência sozinha, determinada a quebrar o ciclo.

Quando o cancro finalmente venceu, levou tudo consigo. As poupanças esgotaram-se nos medicamentos. O quarto onde viviam foi-lhes retirado quando deixaram de conseguir pagar a renda. E agora, Sara partira.

Mariana ajoelhou-se na lama, sentindo o frio a infiltrar-se pelas calças. Não chorava alto. Era quase pior. Limitava-se a encarar a caixa que guardava a única pessoa no mundo que alguma vez a abraçara.

Lembrava-se das últimas palavras da mãe, no leito do hospital, a pele pálida como papel. “Sê forte, minha rainha. Eu não te estou a deixar. Só estou… a passar para a sala ao lado.”

Mas esta sala era fria. E estava debaixo da terra.

**Capítulo 2: O Barulho na Terra**

O Padre Martins, um homem que já fizera demasiados funerais como este nos últimos tempos, sentiu o nó habitual no estômago. Ajustou os óculos de aros finos, embaciados pela chuva, e olhou para a criança.

Odiara aquela parte mais do que os discursos, mais do que as sepulturas. Odiara o vazio dos que eram deixados sozinhos.

“Mariana?”, chamou suavemente.

A menina não se mexeu. Segurava um papel na mão, encharcado pela chuva, com as cores a escorrerem, mas ainda se distinguia o desenho a lápis de cera. Duas figuras. Uma grande, uma pequena. Um sol amarelo a sorrir.

“Mariana, querida,” tentou novamente, dando um passo em frente, as botas negras a enterrarem-se na lama. “O funeral acabou. Temos de ir. Não podes ficar aqui.”

Mariana ergueu o olhar. Os seus olhos estavam vermelhos, esburacados por uma dor maior do que o seu corpinho podia conter. O rosto, sujo de terra onde limpara as lágrimas.

“Não posso deixá-la,” sussurrou, a voz rouca e partida. “Ela tem medo do escuro, Padre. Disse-me uma vez. Odeia o escuro. Tenho de esperar até ela adormecer.”

O Padre sentiu o coração partir-se-lhe no peito. Olhou para o diretor da funerária, um homem alto e magro, que consultava o relógio ao lado do carro fúnebre. O homem abanou a cabeça, triste. Apoiou o dedo no pulso. Era hora de ir.

Depois, fez o gesto. A mão junto ao ouvido. *Faz a chamada.*

O Padre sabia o que aquilo significava. Não havia familiares. Nenhum padrinho. Sara não deixara contactos de emergência nos papéis do hospital. O senhorio já mudara a fechadura do quarto delas.

O próximo passo era obrigatório. Era burocrático. Era cruel.

Tinha de ligar à Segurança Social.

Tinha de entregar aquela menina de seis anos ao sistema. Conhecia o processo. Uma assistente social chegaria num carro bege. Tirariam-lhe a mochila cor-de-rosa. Colocá-la-iam numa casa de acolhimento, provavelmente sobrelotada, provavelmente temporária. Ela seria um número num processo, perdida no mesmo sistema que falhara com a sua mãe.

“Mariana,” disse o Padre, a voz a tremer ligeiramente. Puxou o telemóvel do bolso. “Preciso de ligar a umas pessoas que vão ajudar-te. Está bem? Têm um sítio quentinho para dormires.”

“Não,” Mariana disse. Levantou-se, o pânico a iluminar-lhe os olhos. Recuou para junto da lápide, colocando-se entre o Padre e a sepultura da mãe. “A mãe disse que vinham amigos. Prometeu. Disse que tinha amigos.”

O Padre suspirou, esfregando a mão no rosto. “Querida, ninguém está a vir. Já passou uma hora. Só estamos nós.”

Pressionou o botão para desbloquear o telemóvel. Marcou o número. 800…

Estava prestes a ligar quando o sentiu.

Primeiro, pensou que fosse um camião a passar demasiado perto, na autoestrada atrás do muro. Uma vibração baixa, ritmada, nas solas dos sapatos.

*Tum-tum. Tum-tum.*

Mas depois, a água numa poça suja, perto da sepultura, começou a ondular. Círculos a espalharem-se.

A vibração cresceu. Não era o ruído caótico de um motor. Era um rugido gutural, sincronizado. Estava a ficar mais alto. Muito mais alto.

O diretor da funerária deixou de olhar para o relógio. Ergueu o olhar, os olhos arregalados, esquadrinhando o horizonte cinzento em direção ao portão do cemitério.

“Isso é… um trovão?”, perguntou, a voz tensa.

“Não,” murmurou o Padre, baixando o telemóvel, o ecrã ainda aceso com a chamada por fazer. “Isso não é um trovão.”

O som explodiu no cemitério. Era o rugido de motores. Motores grandes, potentes. Não um ou dois. Dezenas.

O chão tremeu. Os vitrais da capela do cemitério estremeceram nas molduras. Os pássaros nas árvores levantaram voo em pânico.

ApareceramE então, surgiram pelo portão, motociclos negros e reluzentes, uma legião de homens com coletes de couro gravados a ouro, e naquele instante, Mariana soube que a sua mãe, afinal, nunca a tinha abandonado.

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