O som de malas a rolar e anúncios automáticos de voos era a única coisa que Duarte Cardoso realmente ouvia. Era a banda sonora da sua vida, um ritmo constante de movimento incessante.
O Aeroporto da Portela estava cheio de rostos stressados, uma cidade inteira espremida num espaço de cimento. Pessoas de casacos inchados discutiam com assistentes de bordo. Crianças arrastavam peluches por poças de água suja. Um homem de negócios resmungava ao telemóvel perto da fila da segurança.
Duarte, de quarenta e dois anos, caminhava por ali como se fosse a única pessoa no local.
Movia-se com passos largos e decididos, alto e imponente no seu casaco de lã cinzenta que provavelmente custava mais que a renda de muita gente. As pessoas abriam-lhe caminho, como se estivessem habituadas—e estavam. Viram o relógio caro no pulso, a mala de cabedal na mão, a confiança inabalável na postura.
Ele não reparava.
Nunca reparava em ninguém.
Era um homem esculpido em eficiência fria, o fundador da Cardoso Capital, um milionário que se tornou bilionário, dependendo do humor dos mercados. A sua vida eram números e negócios, folhas de cálculo e contratos, aviões e salas de reuniões.
Não tinha tempo para atrasos.
“Senhor Engenheiro, a equipa de Londres já está na videochamada, querem saber se já embarcou,” disse o assistente, um jovem nervoso chamado Rui, ofegante atrás dele.
Rui equilibrava três telemóveis, uma pilha de pastas e um galão de café que ameaçava derramar-se a cada passo apressado. A gravata estava torcida. O cabelo despenteado. Parecia ter dormido com a mesma roupa.
Duarte não abrandou.
“Diz-lhes para esperarem,” respondeu, sem parar.
A voz era tão fria como o ar de dezembro que entrava sempre que as portas deslizantes se abriam. Estava focado numa só coisa: a fusão.
Este negócio com Londres coroaria o seu ano mais lucrativo—uma aquisição de mil milhões de euros que solidificaria o seu legado. Os diretores chamavam-lhe “transformador.” A imprensa financeira dizia que era “agressivo.”
Para Duarte, era só mais uma terça-feira.
Olhou para a entrada envidraçada do terminal VIP adiante. Ali havia poltronas de couro, salas silenciosas e um raio-X privado onde ninguém lhe pediria para tirar os sapatos.
Odetestava o caos dos terminais públicos. Um mar de mediocridade. De voos atrasados, crianças a chorar, gente que se movia devagar, que parava no meio dos corredores sem pressa. Pessoas que tinham tempo para perder em lojas _duty-free_ como se estivessem num centro comercial.
Ajustou a mala ao ombro e franziu o sobrolho para uma família que bloqueava a passagem. Um carrinho de bebé, malas a abarrotar e um pai com cara de desistir da vida.
Duarte preparou-se para passar por eles sem pedir desculpa.
E então ouviu.
Uma voz pequena, fininha, que cortou o barulho do aeroporto como uma faca.
“Mamã, tenho fome.”
Não devia tê-la ouvido.
Não devia ter-se importado.
Mas Duarte, por razões que nunca entenderia, virou-se.
Ele nunca se virava.
Os seus passos abrandaram, depois pararam. As pessoas desviavam-se à sua volta, resmungando. Rui quase esbarrou nele.
Foi então que a viu.
Perto de um dos bancos de plástico arranhados, encostada à parede, estava uma mulher jovem. Encolhida, ombros curvados, segurando as mãos de duas crianças pequenas—gémeos, um rapaz e uma rapariga, talvez cinco ou seis anos.
O primeiro pensamento foi automático.
Pobreza.
O cabelo dela estava preso num rabo-de-cavalo desalinhado, mechas soltas a caírem no rosto. O casaco era fino, azul desbotado, daqueles comprados em lojas de segunda mão, completamente inadequado para o inverno. Pendia-lhe do corpo como se tivesse pertencido a outra pessoa.
As crianças estavam pálidas, as bochechas gretadas de frio. Os casacos deles eram tão finos como o da mãe. O fecho da rapariga estava partido; alguém o tinha pregado com um alfinete. Os sapatos do rapaz estavam molhados na ponta.
Estavam a partilhar um pacote amachucado de batatas fritas. Um pegava num pedaço, com cuidado, quase solene, e passava-o ao outro. Nenhum comia mais que o outro.
O segundo pensamento não foi um pensamento.
Foi um choque.
Como se uma corrente elétrica lhe tivesse atravessado o peito.
Ele conhecia aquele rosto.
Não da maneira casual como “conhecia” pessoas de galas ou reuniões. Não como reconhecia banqueiros, advogados, rivais.
Tinha visto aquele rosto refletido nas janelas do seu apartamento enquanto ela as limpava.
Tinha-o visto no mármore brilhante da cozinha enquanto ela o esfregava de joelhos.
Tinha-o visto erguer-se para ele uma noite, olhos arregalados, a noite em que tudo correra mal.
Não o via há seis anos.
O coração deu um salto estranho. A boca secou.
Os pés pararam. O ruído do aeroporto esmoreceu à sua volta, como se alguém baixasse o volume.
Rui, que tentava ao mesmo tempo mexer no telemóvel, andar e não derramar o café, quase esbarrou nele.
“Senhor Engenheiro, está bem?” a voz de Rui era aguda, ofegante.
Duarte não respondeu.
Nem o ouviu.
O mundo tinha inclinado, só uns graus, mas o suficiente para que nada lhe parecesse nivelado. Os sons do aeroporto—as malas a rolar, os anúncios, os carrinhos a apitar, o telemóvel a vibrar—desvaneceram-se num rugido distante.
“Inês?” disse.
O nome saiu como um sopro. Um fantasma a escapar-lhe por entre os dentes.
A cabeça da mulher ergueu-se como se alguém lhe tivesse puxado um fio invisível.
Os olhos—castanhos claros, doces e assustados ao mesmo tempo—fixaram-se nos dele. Aqueles olhos. Meu Deus, lembrava-se daqueles olhos.
Por um instante, talvez dois, o choque pairou no rosto dela.
Depois, rapidamente, desapareceu.
Substituído pelo pânico.
“Senhor Engenheiro?” sussurrou.
Todo o corpo ficou rígido, como um veado que ouvisse o estalar de um ramo na floresta. As mãos apertaram as das crianças. Um pequeno tremor percorreu-lhe os ombros.
Já se tinham passado seis anos.
Inês.
A sua antiga empregada doméstica.
A rapariga quieta que trabalhara para ele no seu apartamento em Lisboa durante dois anos. Aquela que polia os seus troféus, alinhava as suas ligas, engomava as suas camisas até parecerem armaduras.
A rapariga que sempre baixava os olhos a menos que ele lhe falasse.
A rapariga que, um dia, simplesmente desaparecera.
Sem aviso. Sem justificação. Sem papelada.
Apenás desaparecera.
Ele ficara irritado. Incomodado. Uma perturbação na sua rotina. Mandara o assistente ligar à agência, exigir um substituto.
Aparecera alguém novo na manhã seguinte.
E pronto.
Pelo menos, era o que dizia a si mesmo.
“SenhorE, naquela noite, enquanto os gémeos dormiam abraçados no sofá e Inês lhe entregava uma chávena de café como nos velhos tempos, Duarte percebeu que o verdadeiro sucesso não estava nos números, mas no calor daquela casa, nos sorrisos que já não tinham medo, e no simples milagre de ter encontrado o caminho de volta.