Coma Isso e Fique Curado… O Pai Ficou Furioso, Mas Um Minuto Depois…

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**”Com isto e ficarás curado.”** O pai irritou-se, mas um minuto depois, Rodrigo Silva caminhava de um lado para o outro do corredor, as mãos tremiam enquanto segurava o telemóvel que não parava de tocar. Outro especialista saíra do quarto sem respostas, deixando para trás apenas olhares preocupados e palavras vagas sobre exames adicionais.

O seu filho, Tomás, estava a definhar há três semanas, recusando qualquer alimento, e ninguém sabia explicar porquê. Foi então que um rapaz apareceu no corredor. Não devia estar ali. Isso ficou claro pela forma como a enfermeira de serviço olhou para ele, surpresa. O miúdo usava um boné gasto e roupa simples, limpa, mas desgastada pelo tempo.

“O senhor é o pai do menino do quarto 412?” perguntou o rapaz com voz baixa mas firme. Rodrigo voltou-se bruscamente, pronto para expulsar o intruso. “Como sabias que quarto era o do Tomás? Quem és tu? O que queres aqui?” A voz de Rodrigo saiu mais áspera do que pretendia.

“Chamo-me Daniel, senhor. Eu… eu sei como fazer o seu filho comer.”

A ousadia da afirmação deixou Rodrigo sem palavras por um momento. Depois, a raiva chegou, quente e rápida. Mais um oportunista a querer tirar partido do desespero de um pai. Já lidara com curandeiros, vendedores de tratamentos milagrosos, pessoas a oferecer orações e remédios.

“Segurança!” chamou Rodrigo, alto o suficiente para os dois homens uniformizados no fim do corredor o ouvirem.

“Senhor, por favor, deixe-me explicar,” Daniel deu um passo em frente, com as mãos levantadas em sinal de paz. “Não quero dinheiro, só quero ajudar.”

**Ajudar.** Rodrigo quase riu da ironia. “És um miúdo, mal deves ter 13 anos. Como é que pensas ajudar quando os melhores médicos de Lisboa não conseguem?”

“Doze,” corrigiu Daniel. “Tenho 12 anos. Aprendi a cuidar do meu avô. Ele teve um problema parecido.”

Os seguranças estavam já a poucos metros quando algo inesperado aconteceu. A porta do quarto 412 abriu-se e a enfermeira Conceição apareceu, segurando a mão de Tomás. O menino, pálido e frágil na cadeira de rodas, fitava Daniel intensamente. Era a primeira vez em duas semanas que Tomás mostrava interesse por algo que não fosse a janela do quarto.

“Esperem.” Rodrigo ergueu a mão, parando os seguranças. Ajoelhou-se ao lado do filho. “Tomás, o que se passa, filho?”

Mas Tomás não olhou para o pai. Os seus olhos azuis, fundos e cansados, permaneciam fixos no rapaz do boné.

“O seu filho reconhece algo em mim,” disse Daniel suavemente. “As crianças sentem quando alguém entende pelo que estão a passar.”

“Isso é absurdo.” Rodrigo levantou-se. “Não sabes nada sobre o meu filho.”

“Sei que ele não come porque lhe dói,” Daniel continuou, ignorando a aspereza de Rodrigo. “Não lhe dói a barriga… dói aqui.” Tocou o peito. “E quanto mais as pessoas insistem, mais ele aperta aqui dentro, até que parece impossível engolir seja o que for.”

Rodrigo sentiu um nó na garganta. Como podia aquele miúdo de rua descrever tão perfeitamente o que os médicos demoraram duas semanas a começar a suspeitar?

“O meu avô ficou assim depois da minha avó partir,” continuou Daniel, a voz carregada de uma tristeza antiga. “Os médicos chamavam-lhe disfagia psicogénica, mas eu chamava-lhe coração partido. Tive de aprender a alimentá-lo de maneira diferente.”

“E como é que fizeste isso, exatamente?” A voz de outra pessoa interrompeu. Era a Dra. Martins, a nutricionista que acompanhava Tomás. Tinha saído de outro quarto e ouvira parte da conversa.

“Não é só a comida, doutora,” explicou Daniel. “É a forma de a oferecer, o ambiente, a pessoa que a dá. Tudo importa quando o problema não está no estômago, mas no coração.”

“Pseudociência,” murmurou a Dra. Martins. Mas havia curiosidade nos seus olhos.

“Dê-me cinco minutos,” pediu Daniel, olhando diretamente para Rodrigo. “Se não funcionar, eu vou-me embora e nunca mais volto. Mas se funcionar, o seu filho vai comer.”

Rodrigo olhou para Tomás. O menino ainda observava Daniel com uma intensidade rara. Nos últimos dias, Tomás tornara-se uma sombra, apático, distante. Ver qualquer reação já era um pequeno milagro.

“Três minutos,” concedeu Rodrigo, a voz dura. “E fico aqui o tempo todo. Se houver algo estranho, sais.”

“Sim, senhor.”

Daniel entrou no quarto atrás da cadeira de rodas de Tomás. Rodrigo e a Dra. Martins seguiram-no. A enfermeira Conceição trouxe a papa que tinha sido preparada para o almoço de Tomás, a mesma que ele recusara havia três dias seguidos.

“Pode ser?” perguntou Daniel, apontando para a cadeira ao lado da cama.

Rodrigo assentiu, tenso.

Daniel puxou a cadeira e sentou-se, ficando à altura dos olhos de Tomás. Não pegou logo na colher. Em vez disso, começou a falar.

“Sabes? Eu também não conseguia comer,” disse Daniel com um tom diferente, mais leve, quase musical. “Foi quando a minha mãe adoeceu. Doía-me a barriga sempre que tentava. Tu também sentes isso?”

Tomás não respondeu, mas os seus olhos abriram-se ligeiramente.

“O meu avô ensinou-me um truque,” continuou Daniel, pegando devagar na colher. “Dizia que tínhamos de enganar a tristeza, fazer com que ela se esqueça de apertar a garganta só por um minutinho.”

Enfiou a colher na papa, mas não a levou imediatamente à boca de Tomás. Em vez disso, começou a fazer um som rítmico com a língua, um toque suave e repetitivo. Depois, moveu a colher em pequenos círculos no ar.

“Olha,” disse Daniel, sorrindo. “A comida está a dançar. Está feliz porque te quer conhecer melhor.”

Rodrigo estava prestes a interromper, a dizer que era ridículo, quando viu Tomás inclinar a cabeça, seguindo o movimento da colher com os olhos.

Daniel aproximou a colher, ainda a fazer os sons rítmicos. Não forçou, não tentou empurrar—apenas deixou a colher dançar perto dos lábios de Tomás.

“Agora está envergonhada,” sussurrou Daniel num tom de cumplicidade. “Acho que quer que lhe peça sozinha.”

E então, para o espanto absoluto de todos no quarto, Tomás abriu a boca.

Daniel deslizou a colher suavemente, sem pressa. Tomás fechou os lábios à volta dela e engoliu.

Rodrigo sentiu as pernas fraquejarem. Teve de se segurar na borda da cama.

“Muito bem,” celebrou Daniel em voz baixa. “Agora a comida está superfeliz. Quer trazer as amigas também.”

Enfiou a colher de novo. Repetiu o ritual.

Tomás abriu a boca outra vez.

Outra colherada. Mais outra.

Três colheradas em menos de dois minutos—mais do que Tomás comera nos últimos cinco dias juntos.

A Dra. Martins tinha a mão sobre a boca. A enfermeira Conceição enxugava lágrimas discretamente. Rodrigo não conseguia processar o que estava a ver.

“Como?” começou, com a voz quebrada.

“Como é que tu—”

“Senhor Silva,” a Dra. Martins interrompeu, recuperando rapidamente o tom profissional. “Precisamos de falarDaniel olhou para Rodrigo e disse, com uma voz calma que ecoava no quarto silencioso: “Às vezes, a cura está na simplicidade de um gesto que vem do coração.”

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