Chamo-me Eduardo Mendes. Aos quarenta e dois anos, parecia ter tudo na vida… até que uma noite tudo ficou em silêncio. A minha esposa, Beatriz, uma violoncelista de fama mundial, morreu quatro dias depois de dar à luz aos nossos gémeos, Lucas e Tiago. Os médicos chamaram-lhe “complicação pós-parto”, uma daquelas explicações que não explicam nada. Fiquei sozinho numa mansão de vidro avaliada em quarenta milhões de euros, no Porto, com dois recém-nascidos e uma dor tão densa que respirar parecia um sufoco.
Tiago era forte e tranquilo. Lucas não. O seu choro era agudo, ritmado, desesperado, como um alarme que nunca se calava. O seu pequeno corpo ficava tenso, os olhos reviravam de um modo que me gelava o sangue.
O especialista, o doutor Rodrigo Neves, diagnosticou apenas “cólica”.
A minha cunhada, Inês, tinha outra teoria. Dizia que a culpa era minha, que eu era emocionalmente distante, e que as crianças precisavam de um “ambiente familiar adequado”. Na verdade, o que ela queria era o controlo do Fundo Mendes e a guarda dos meus filhos.
E então chegou a Mariana.
A rapariga que ninguém reparou
Mariana tinha vinte e quatro anos, estudava enfermagem e tinha três empregos ao mesmo tempo. Falava baixinho, passava despercebida e nunca pediu um aumento. Só pediu uma coisa: permissão para dormir no quarto dos gémeos.
Inês desprezava-a.
—É uma preguiçosa —murmurou uma noite durante o jantar—. Vi-a sentada no escuro durante horas sem fazer nada. E quem sabe… talvez esteja a roubar as joias da Beatriz quando não estás. Devias vigiá-la.
Impulsionado pela dor e pela desconfiança, gastei oitenta mil euros em câmaras de infravermelhos de última geração por toda a casa. Não contei à Mariana. Queria provas.
Durante duas semanas evitei ver as gravações, refugiando-me no trabalho. Mas numa terça-feira chuvosa, às três da manhã, incapaz de dormir, abri a transmissão no meu tablet.
Esperava vê-la a dormir.
Esperava encontrá-la a revistar as minhas coisas.
O que vi tirou-me o fôlego.
As imagens noturnas mostravam Mariana sentada no chão entre os dois berços. Não estava a descansar. Segurava Lucas, o gémeo frágil, pele com pele contra o peito, como a Beatriz costumava fazer para acalmar a respiração do bebé. Mas isso não foi o mais impressionante.
A câmara captou um movimento suave e constante. Mariana balançava-se lentamente enquanto cantarolava uma melodia: a mesma canção de embalar que a Beatriz compusera para os gémeos antes de morrer. Nunca fora publicada. Mais ninguém no mundo a deveria conhecer.
Depois, a porta do quarto abriu-se.
Inês entrou com um pequeno conta-gotas prateado na mão. Dirigiu-se direita ao berço de Tiago —o gémeo saudável— e começou a deitar um líquido transparente no biberão.
Mariana levantou-se, abraçando Lucas. A sua voz, baixa mas firme, atravessou o áudio.
—Para, Inês. Já troquei os biberões. Agora só lhe dás água. O sedativo que tens posto no leite do Lucas para ele parecer doente? Encontrei o frasco no teu toucador ontem.
O tablet tremia-me nas mãos.
—Não passas de uma empregada —cusp—Não sou apenas uma empregada —respondeu Mariana, erguendo um colar desgastado—, fui a última pessoa a quem a Beatriz confiou os seus filhos.