**Diário Pessoal**
Quando o carro da polícia estacou à porta da comunidade fechada nos arredores de Lisboa, o raptor já estava de bruços no chão, entre as agulhas de pinheiro, com as mãos amarradas atrás das costas por um cinto de couro gasto e um velho guarda-florestal furioso a olhar para ele, com um pau na mão.
O nome do raptor era Nuno.
E três anos antes, ele tinha-se casado com a mulher cujo bebé acabara de tentar roubar.
Nuno não casara com Joana por amor.
Claro que disse a toda a gente que sim. Disse-lhe que era a sua alma gémea, que o próprio Deus os tinha unido sob os lustres de cristal na festa de lançamento do pai dela em Lisboa. Disse-lhe que era a única pessoa que o entendia.
Mas o que Nuno realmente via eram os zeros da herança dela.
Joana Mendes era a única filha de Carlos Mendes, um magnata do setor tecnológico e logístico, nascido no Algarve, que mudara a sede da empresa para Lisboa para estar mais perto do dinheiro e do prestígio da capital. Carlos tinha pouco mais de cinquenta anos, corria cinco quilómetros por dia, bebia sumos verdes e parecia o tipo de homem que chegaria aos noventa ainda a responder a e-mails.
Por isso, quando morreu subitamente de um acidente vascular na sua mansão à beira do Tejo, o choque abalou as páginas de negócios de norte a sul do país.
Quase destruiu Joana.
E também lhe deu, da noite para o dia, o controlo da Mendes Logística, três armazéns, uma carteira de propriedades no centro de Lisboa e uma conta de investimentos que podia comprar metade de um quarteirão em cash.
Nuno leu tudo isso num artigo no telemóvel, deitado no sofá do apartamento da namorada de então, no Algarve, uma mão a rolar o ecrã, a outra a mexer no rótulo de uma garrafa de cerveja.
«Deve estar devastada», suspirou a namorada, a ver as notícias.
Nuno só ouviu: *única filha, única herdeira*.
Nuno era bonito de um jeito desleixado que ficava bem em selfies no Instagram: alto, corpo de ginásio, cabelo escuro sempre com aquele caos calculado para parecer «natural». Durante a maior parte da vida adulta, tinha saltado de mulher rica em mulher rica: uma dentista solitária no Porto a pagar-lhe os cartões, uma corretora divorciada em Braga a comprar-lhe relógios, uma gerente de hotel no Estoril a pagar-lhe a renda «só até ele se endireitar».
Ele nunca se endireitou.
Não precisava. Em Portugal, aprendera que sempre havia outra mulher assim. Dinheiro, solidão e a necessidade de ser adorado eram uma combinação que lhe rendera uma carreira.
Mas Joana estava noutra liga.
A morte de Carlos transformou-a numa princesa milionária que, de repente, estava muito sozinha numa mansão enorme e fria com vista para o rio.
Nuno comprou um bilhete só de ida para Lisboa no dia seguinte.
Não a conheceu num evento de gala, mas sim num leilão de caridade no centro da cidade, onde ela apareceu de preto, com os olhos vermelhos e um sorriso tenso, cumprindo um compromisso que o pai tinha assumido com um hospital pediátrico no Porto.
Nuno fizera o trabalho de casa. Sabia quais os eventos que ela frequentava. Sabia o café que ela pedia. Sabia que estivera ao lado do pai quando ele morreu, que não saíra de casa durante uma semana depois.
Foi cuidadoso. Não demasiado insistente. Um pouco desajeitado, como quem não está habituado a salas chiques. A história era que crescera numa família humilde em Coimbra, trabalhara para chegar a Lisboa, fazia «consultoria», ajudava «pequenas empresas a crescer». O suficiente de verdade nas mentiras para as fazer parecer sólidas.
Ouviu mais do que falou. Só isso fez metade do trabalho.
Em dois meses, já passava noites em casa dela. Em seis meses, já lá vivia. Em um ano, propôs casamento, o anel a brilhar sob a chuva fina de Lisboa, na varanda com vista para o Tejo.
A única coisa que não contara era com o Sr. Carneiro.
Manuel Carneiro tinha sido o braço direito de Carlos Mendes durante vinte e cinco anos, o seu diretor operacional, o seu advogado e o padrinho que Joana chamava «Tio Manel» antes de saber dizer o apelido.
Estava na casa dos sessenta, afiado de um jeito tranquilo, o tipo de homem que conseguia ficar sentado numa reunião de três horas de braços cruzados e, no último minuto, fazer uma pergunta que desmontava tudo.
Amara Carlos como a um irmão. Amava Joana como a uma filha.
E cheirou Nuno no primeiro aperto de mão.
Joana, ainda frágil pela dor, entrou um dia no escritório do Tio Manel com um sorriso tímido e um anel no dedo.
«O Nuno pediu-me em casamento», disse, a voz a tremer de felicidade. «Eu disse que sim. Vamos esperar que o luto passe, mas… quis que o senhor soubesse primeiro.»
Manel sorriu, congratulou-a, deixou-a falar.
Depois, com suavidade: «E já falaram sobre um acordo pré-nupcial?»
A luz desvaneceu-se no rosto dela.
«O Nuno diz que é humilhante», admitiu Joana. «Ele disse: “Achas mesmo que preciso do teu dinheiro?”»
«E o que é que tu achas?», perguntou Manel.
Joana torceu o anel.
«Acho que o senhor sempre protegeu a empresa do pai», disse baixinho. «E a mim. Por isso… se acha que precisamos de um pré-nupcial, teremos um pré-nupcial.»
Quando Joana contou a Nuno, ele explodiu.
«Isto é um insulto», rosnou. «O teu padrinho não confia em mim? Acha que sou algum caça-fortunas?»
Joana encolheu-se. «Ele só quer proteger o negócio. É… é pelo bem da empresa. Pelos funcionários. Nuno, por favor. É só uma formalidade. Nunca vamos precisar dele. A não ser que… nos divorciássemos.»
Disse a última palavra como se fosse uma maldição.
Nuno viu que estava encurralado.
Pensara que casar com ela lhe daria acesso direto à empresa, um lugar no conselho, parte de tudo. A ideia de poder ser legalmente excluído fez-lhe o estômago embrulhar.
Mas se recusasse, Joana podia começar a fazer perguntas que ele não queria responder.
Fingiu magoado. Manteve a voz baixa.
«Se te faz sentir melhor», disse finalmente, «assino o que quiseres. Amo-te. Não à tua conta bancária.»
O pré-nupcial foi brutal — para ele.
Redigido por um escritório de advogados de topo em Lisboa, deixava claro que a empresa, a herança Mendes, a mansão à beira-rio e todos os bens herdados seriam propriedade exclusiva de Joana para sempre. Por mais tempo que estivessem casados, por mais que ele fizesse, nunca seria dono de nada do que Carlos construíra.
Nuno engoliu o orgulho e assinou.
Convencera-se de que não importava. Ainda viveria bem. Usaria contas conjuntas, desviaria dinheiro devagar, criaria uma rede de segurança. Joana era emotiva, não prática. Memorizaria os números dos cartões dela antes do primeiro aniversário.
Foi o seu segundo erro.
Se Carlos tivera um verdadeiro amigo no mundo, era Manuel Carneiro.
Se tivera um último ato de amor pela filha antes de morrer, foi dizer a Manel: «Nunca deixes que ninguém se aproveite dela. Nem um membro do conselhoE anos depois, enquanto o pequeno Rodrigo corria pelo bosque, rodeado pela família que Joana lhe garantira, Nuno, agora um homem amargurado e esquecido, olhava para o rio através das grades da sua cela, percebendo tarde demais que o preço da ganância é a solidão.