Depois de quinze anos no Reino Unido a expandir a minha empresa de logística, regressei finalmente a casa, a Lisboa. Queria surpreender a minha filha, Beatriz. Tinha apenas dez anos quando parti. Curiosa, inteligente, cheia de vida. Antes de me mudar, comprei uma mansão de três milhões de euros em nome dela, para que ela e a minha irmã, Isabel, vivessem confortavelmente enquanto eu crescia a empresa no estrangeiro. Enviei dinheiro todos os meses, sem falhar. Confiei na minha família para cuidar dela.
Tudo parecia normal quando cheguei ao portão. O jardim impecável, a varanda brilhante, as janelas limpas. Mas no momento em que entrei, algo me pareceu profundamente errado. Uma rapariga, de uniforme cinzento e gasto, estava de joelhos, a esfregar o mármore. Os ombros curvados, o cabelo amarrado sem cuidado, os dedos a tremer de cansaço. Quase passei por ela, até que ergueu o olhar.
Era a minha filha.
Parecia ter o dobro da idade. Olheiras fundas, faces magras, pequenos hematomas mal escondidos nos braços. Ficou parada, como se não soubesse se devia falar ou pedir desculpa.
“Beatriz,” disse, sem fôlego.
Ela ficou a olhar por um longo momento. “Pai… és mesmo tu?”
Antes que pudesse perguntar o que se passava, Isabel entrou, vestindo um pijama caro e segurando uma taça de vinho. A expressão irritada transformou-se num sorriso falso. “Oh, chegaste mais cedo,” disse. “A Beatriz ainda tem tarefas por fazer. Mas podemos falar sobre tudo.”
“Tarefas,” repeti devagar. “Na casa dela.”
O sorriso de Isabel vacilou. “Há muita coisa que não sabes. Ela—”
Não a deixei terminar. Peguei no telemóvel, liguei ao meu advogado e disse as quatro palavras que fizeram o quarto gelar.
“Inicie a auditoria completa.”
O rosto de Isabel perdeu toda a cor. Beatriz recuou, confusa e assustada. O que aquele telefonema pôs em movimento deixou todos estupefactos, revelando uma verdade que nenhum deles esperava.
Tudo se desfez a partir daquele momento.
Estendi a mão para o telemóvel. A voz de Isabel tornou-se afiada. “A quem estás a ligar?”
“Ao meu advogado,” respondi com calma. “É hora de examinar tudo.”
“Estás a ser dramático,” insistiu ela.
Mas a minha mente já estava focada. Há momentos na vida em que a verdade se rompe como uma barragem. Não se escolhe a inundação. Apenas se fica no seu caminho.
Demorou horas até que o meu advogado, Rui Carvalho, chegasse da cidade. Trazia uma pasta cheia de documentos acabados de compilar. Extratos bancários. Levantamentos. Registos de propriedade. Tinha revirado cada ficheiro, cada anotação.
Enquanto esperávamos, Beatriz começou a falar, devagar. A voz tremia por vezes, mas tornou-se mais firme enquanto contava o passado.
“Quando fiz quinze anos,” disse, “a tia Isabel disse-me que tinhas assinado a casa para mim apenas por culpa. Disse que seria irresponsável alguém da minha idade geri-la. Disse que ela trataria de tudo.”
Isabel interrompeu. “Não foi isso que eu disse. Estás a distorcer as coisas.”
Ignorei-a. “Alguma vez viste a conta onde a tua mesada era depositada?” perguntei à Beatriz.
Ela abanou a cabeça. “Ela disse-me que paraste de enviar dinheiro suficiente. Disse que as despesas estavam a aumentar. Eu acreditei nela. Pensei que talvez a empresa precisasse dos fundos.”
Senti algo dentro de mim partir-se.
“Nunca reduzi um único transferência,” disse.
Isabel desviou o olhar. Quando o Rui finalmente chegou, colocou a pasta na mesa de café. “Temos um problema,” disse. “Um problema grave.”