A Verdade Chocante que Descobri ao Cuidar da Enteada

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**Diário Pessoal**

Acabámos numa bomba de gasolina abandonada a uma hora da cidade. A Carolina conduziu. Rápido. Como se sempre tivesse feito aquilo. Eu estive no lugar do passageiro, atordoado, ainda a tentar entender o que acabara de presenciar.

Ela atirou-me uma garrafa de água do banco de trás. “Pareces prestes a desmaiar.”

“Estiveste a fingir este tempo todo?” perguntei, finalmente.

Ela soltou uma risada. “Não. Fui obrigada a fingir.”

Arqueei uma sobrancelha.

“Aos quinze anos tive mononucleose. Fiquei de cama durante meses—fraca, exausta, sem conseguir comer. Eles entraram em pânico. Levaram-me a todos os médicos que podiam pagar. Um deles sugeriu a possibilidade de uma doença muscular degenerativa. O meu pai—o Rui—agarrou-se a isso como um troféu.”

“Mas porque continuar depois de teres melhorado?”

Ela estacionou o carro atrás do edifício, longe das câmaras de segurança. O rosto endureceu.

“Porque, quando voltei a andar, eles não quiseram acreditar. Disseram que eu estava ‘em negação’. Que só queria chamar a atenção.”

Os dedos dela apertaram o volante.

“Adoravam a ideia de ter uma filha doente. A simpatia. As doações. Os amigos a chamá-los de inspiradores.”

Olhei para ela, chocado. “Então forçaram-te a ficar na cadeira de rodas?”

A Carolina encarou-me com uma raiva que nunca tinha visto numa adolescente. “Precisavam que eu continuasse doente. Sabes quantas vezes tive de treinar a voz para parecer mais fraca? Há dois anos que não uso a minha voz normal.”

Recuei, sem palavras.

“Tentei, no início. Implorei para voltar à escola. Para andar na frente de um médico. Mas ameaçavam-me. Diziam que me internariam por ‘regressão psicológica’. Que contariam a todos que eu ‘alucinava’. Até que… desisti de lutar.”

“E agora?” perguntei.

Ela olhou-me, com um brilho nos olhos. “Agora eles foram-se embora. E tenho sete dias. Tenho um plano.”

As horas seguintes foram irreais. A Carolina vestiu roupa que não reconheci—calças rasgadas, botas militares, um casaco com capuz. Tinha dinheiro escondido numa caixa de cereais no armário. Tinha tudo planeado. Lugares para visitar. Pessoas para reencontrar. Não estava a fugir.

Estava a recuperar uma vida que tinha ficado em pausa.

Naquela noite, entrámos num beco sossegado. Ela encarou uma casa com as mãos a tremer.

“A minha mãe vive aqui. A mãe verdadeira,” acrescentou. “Aquela com quem o Rui não me deixava falar.”

“Ela sabe que vens?”

“Nem sabe que eu posso vir.”

Fiquei em silêncio ao lado dela.

Depois, a Carolina disse: “Não te peço para seres minha amiga. Mas preciso que alguém me veja—porque passaram anos a apagar-me.”

E, naquele momento, entendi-a melhor do que alguma vez entendi o Rui.

A mulher que abriu a porta parecia não dormir há anos. Trinta e poucos anos, olhos fundos, tatuagens mal escondidas por um casaco gasto. Pestanejou ao ver a Carolina.

Depois, suspirou.

“Carolina?” A voz dela quebrou.

“Olá, Mãe,” disse a Carolina, suavemente.

“Meu Deus.” A mãe deixou cair o que segurava e abraçou-a com tanta força que a Carolina fez uma careta. “Estás… a andar.”

A Carolina não respondeu. Lágrimas escorreram-lhe pelo rosto.

Fiquei na varanda, sem saber se devia testemunhar aquele momento. Mas ela acenou para eu entrar.

Dentro, era o caos—roupa amontoada, uma TV antiga, dois cães a ladrar aos meus pés. Mas estava cheio de vida. Autêntico.

Enquanto tomávamos café, entre longos silêncios, a Carolina contou a história. Toda.

A mãe, a Sónia, parecia partir-se a cada palavra.

“Tentei lutar por ti,” sussurrou a Sónia. “O tribunal disse que o Rui tinha recursos. Estabilidade. Ele disse-lhes que precisavas de cuidados que eu não podia pagar.”

“Disse-te que eu não andava.”

A Sónia engasgou-se num soluço. “Disse-me que me odiavE, no fim, a Carolina sorriu, livre, como se finalmente respirasse depois de anos submersa.

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