Capítulo 1: A Máscara
Sabes como cheira três dias dentro de uma carrinha de vigilância? Cheira a café velho, pizza fria e ansiedade.
Chamo-me Diogo. Para o mundo, ou pelo menos para a parte da cidade onde me metera, era “Dias”, um gajo qualquer que distribuía produtos duvidosos pela zona de Lisboa. Não me barbeava há uma semana. Tinha uma tatuagem falsa no pescoço que me arranhava o colarinho. Os nós dos dedos estavam esfolados e cheirava a tabaco barato, apesar de não fumar.
Mas para uma pessoa, eu era apenas Pai.
O telemóvel vibrou-me na perna. Aquele zumbido era um salva-vidas no silêncio da carrinha. Olhei para o ecrã, tapando a luz com a mão.
Era a escola. Escola Básica do Vale Encantado.
“Senhor Carvalho? Fala a secretária da diretora Silva. Precisamos que venha à escola imediatamente. É acerca da sua filha, Inês.”
O coração parou. No meu trabalho, uma chamada significa que alguém morreu ou foi preso. “Ela está bem?” A voz saiu rouca, sem uso há horas.
“Fisicamente, sim,” disse a secretária, com aquele tom de julgamento suburbano. “Mas houve um incidente relacionado com… fraude académica.”
Fraude académica? A Inês?
A miúda chora se se esquece de devolver um livro da biblioteca. Passa os fins de semana a organizar os marcadores por cor. Não copia. Esforça-se mais do que qualquer miúdo que eu conheça porque sabe que o pai nem sempre está lá para a ajudar.
“Já vou a caminho,” grunhi.
Não tinha tempo para mudar de roupa. Nem para tomar um duche. Não podia apagar o “Dias” da minha pele. Tinha que ir como estava.
Estacionei o meu carro velho de serviço — um Renault a cair aos bocados — em frente à escola impecável. Vi os pais nos seus SUVs reluzentes a olharem. Viram um tipo de hoodie manchado, calças rasgadas e botas militares a sair de um carro que parecia um trator. Viram uma ameaça.
Ignorei-os. Entrei na secretaria, e o silêncio foi imediato. O ar condicionado zumbia. A secretária ajustou os óculos, os olhos a percorrerem-me das botas sujas à gordura no cabelo.
“Senhor… Carvalho?” disse, com uma voz fina.
“Onde ela está?” perguntei. Não tinha tempo para rodeios.
“Sala 302. Turma da professora Almeida. Estão a… discutir o assunto agora.”
Virei-me e percorri o corredor. O chão de linóleo rangia sob as minhas botas. As cacifos alinhavam-se como sentinelas silenciosas. Senti o peso do distintivo escondido no cinto, pressionando-me as costas. Era a única coisa limpa em mim. A única coisa que me separava dos criminosos que perseguia.
Cheguei à porta da sala 302. Estava entreaberta.
Não entrei a romper. Velhos hábitos não morrem. Primeiro, ouvi.
“Achas mesmo que acredito nisto, Inês?”
A voz era aguda. Professora Almeida. Conhecia o tipo. Aquele professor que vive do esplendor do passado e trata a sala como um reinado. Andava a picar a Inês o ano todo, comentários tortos sobre a roupa, o almoço, a timidez.
“Estudei, professora. Juro,” a voz da Inês era pequena, a tremer. Partiu-me o coração.
“Pessoas como tu não tiram 20 a matemática avançada, Inês,” a Almeida escarneceu. “Vi o teu pai deixar-te aqui na semana passada. Sei que tipo de… ambiente… tens em casa. Todos sabemos.”
O sangue gelou-me. A temperatura no corredor pareceu cair dez graus.
“Ele ajuda-me a estudar,” sussurrou a Inês.
“Aquele homem?” A Almeida riu-se. Um som seco, cruel. “Aquele homem parece mal saber ler um menu de takeaway, quanto mais ajudar com álgebra. Copiaste. Roubaste o cábula. Admite.”
“Não copiei!” A Inês soluçou.
Aproximei-me da porta. Pela fresta, via-as. A Inês estava junto à secretária, as mãos pequenas a agarrar a saia. A Almeida recostava-se, segurando o teste da Inês — o teste com um grande “20” circulado no topo.
“Não tolero mentirosos na minha sala,” disse a Almeida. O rosto dela transformou-se numa máscara de nojo.
Segurou o teste com as duas mãos.
“E não corrijo lixo.”
Capítulo 2: O Som do Rasgar
RRRRASGAR.
O som foi mais alto que um tiro naquela sala silenciosa.
Fiquei parado, congelado por um instante, enquanto a professora Almeida rasgava o teste ao meio.
A Inês gemiA Inês pegou no teste rasgado, sorriu para a professora e disse: “Obrigada, agora posso mostrar ao meu pai que até os rasgos não apagam a verdade,” e saiu da sala de cabeça erguida, sabendo que a sua força vinha do amor que eu lhe dei, e não das notas num papel.