A Luz Fria que Invadia Nossa Casa

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A luz que entrava pelas janelas do chão ao teto da nossa casa em Cascais não era quente nem acolhedura.

Era uma luz pálida e incômoda, iluminando cada partícula de poeira no ar e, com mais intensidade, as sombras de cansaço cravadas no meu rosto ao me ver no espelho.

Parecia uma estranha, uma versão esgotada da mulher que eu havia sido apenas alguns meses atrás.

Meu nome é Inês Vasconcelos, e tinha vinte e oito anos, embora me sentisse décadas mais velha. Derá luz exatamente seis semanas antes, a trigémeos lindos e frágeis chamados Martim, Tomás e Francisco.

Meu corpo era um território desconhecido, transformado de maneiras que ainda tentava entender: mais macio onde antes era firme, marcado por cicatrizes prateadas que narravam minha jornada para a maternidade, resultado da cesariana de emergência que nos salvou. A privação de sono era tão profunda que o mundo parecia inclinar-se se eu virasse a cabeça rápido demais.

Vivia em um estado de calma precária, navegando a logística exaustiva de cuidar de três bebês ao mesmo tempo: horários de amamentação que se sobrepunham, a rotina interminável de fraldas, mamadeiras e choro, a sucessão de babás que desistiam a cada duas semanas—afinal, trigémeos eram demais até para profissionais.

Nossa casa, apesar dos quatrocentos metros quadrados de luxo, parecia claustrofóbica, abarrotada de equipamentos para três pequenos humanos.

Era essa a cena—eu de pijama manchado de leite, olheiras escuras, cabelo amarrado de qualquer jeito, tentando acalmar um bebê enquanto balançava os outros dois—quando Rodrigo, meu marido e CEO da TechNova, um dos maiores conglomerados tecnológicos do país, entrou para dar seu veredito sobre nosso casamento.

Ele usava um terno impecável de Hugo Boss, que provavelmente custava mais que o salário mensal de um trabalhador comum, cheirava a um perfume caro e a algo que só podia ser desprezo.

Não olhou para o carrinho dos trigémeos. Não perguntou como eu estava. Apenas me encarou com um olhar calculista, como se eu fosse um ativo desvalorizado.

Sem cerimônia, jogou uma pasta grossa sobre a cama. O som foi seco, como um martelo batendo em um tribunal. Nem precisei abrir—via “PETIÇÃO DE DIVÓRCIO” estampado na capa.

Rodrigo não usou as desculpas clássicas como “diferenças irreconciliáveis”. Optou por algo mais cruel.

Olhou-me de cima a baixo, fixando-se em cada detalhe: as olheiras roxas, a mancha de leite no meu ombro, o corpo ainda inchado da gravidez.

“Olha para ti, Inês”, disse, com nojo. “Pareces uma assombração. Estás acabada, descuidada, repulsiva. Estás a arruinar a minha imagem. Um CEO no meu nível precisa de uma mulher que reflita sucesso, não… isto.”

Pisquei devagar, exausta demais para processar tanta crueldade. “Rodrigo, eu tive os teus filhos há seis semanas”, murmurei, a voz rouca de cansaço.

“Isso foi escolha tua”, respondeu, ajustando os punhos de camisa. “Não é problema meu.”

Então, teatralmente, anunciou: “Tenho estado com outra pessoa. Alguém que entende as minhas necessidades.”

Como por combinação—claro que tudo fora planejado—, Sofia apareceu na porta. Era a sua assistente executiva de vinte e dois anos, contratada há oito meses, apesar dos meus alertas.

Estava impecável, com um vestido de marca que custara mais que o meu primeiro carro, o cabelo ondulado, um sorriso triunfante ao me ver—a esposa abandonada, de pijama manchado.

“Vamos para o escritório”, disse Rodrigo, como se eu fosse uma empregada. “Os advogados cuidarão de tudo. Fica com a casa. Combina contigo.”

Aproximou-se de Sofia, pondo-lhe a mão na cintura, transformando a traição em espetáculo.

Saíram. Os saltos de Sofia ecoaram no mármore. A porta fechou-se com um clique definitivo.

Rodrigo achou que eu estava demasiado fraca para reagir. Errou.

Antes dele, eu era escritora. Dois contos publicados em revistas literárias. Mas ele chamara isso de “passatempo fofo” e sugerira que eu organizasse os seus eventos em vez de escrever.

Quando a porta se fechou, algo dentro de mim acordou. A humilhação transformou-se em fúria fria.

Nos raros momentos em que os bebês dormiam, eu escrevia. Às vezes entre lágrimas, às vezes com a precisão de um cirurgião. Não era um desabafo. Era um livro: *O Espantalho do CEO*.

Na ficção, Rodrigo virou “Vítor Mendes”, a TechNova virou “NexusCorp”, e Sofia, “Soraia”. Mas os detalhes eram idênticos—a nossa casa em Cascais, o hábito dele de se admirar em cada superfície, a traição.

Incluí também as confissões que ele soltara em noites de whisky: esquemas financeiros, funcionários descartados. Tudo virou material literário.

Publiquei discretamente. As primeiras críticas foram brilhantes. Três semanas depois, uma jornalista do *Expresso* percebeu as semelhanças.

O artigo explodiu: *Ficção ou Denúncia? O CEO, os Trigémeos e a Esposa que Virou Espantalho*.

O livro tornou-se um escândalo nacional. Rodrigo foi retratado como o epítome da arrogância corporativa. Hashtags como #EsposaEspantalho e #ForaCEO inundaram as redes.

Ações da TechNova despencaram. A direção demitiu-o por danos à imagem. Sofia foi despedida por violar políticas internas.

Enquanto isso, o divórcio virou vitória. Ganhei custódia total dos meninos, metade dos bens, pensão.

Rodrigo, investigado pela CMVM, perdeu tudo. Enviei-lhe um exemplar autografado do livro com uma dedicatória:

*Obrigada pela inspiração. O espantalho venceu.*

Anos depois, revelei-me como autora numa entrevista à *Caras*. O livro vendeu milhões, virou filme.

E os meus filhos cresceram sabendo que a mãe transformara dor em poder.

Rodrigo? Virou uma lição de moral.

E eu, Inês Vasconcelos, voltei a ser escritora—não um passatempo, mas uma carreira.

A melhor vingança foi escrever o final feliz que ele nunca me deixou ter.

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