A Humilde Serva Acusada de Roubar um Tesouro Inestimável

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Joana Lopes tinha pó nos pulmões e cheiro a limão nas mãos na maioria dos dias da sua vida, mas nunca se importou.

A Quinta Mendes ficava no alto de uma colina em Sintra, a quarenta minutos de Lisboa, um mundo à parte. Sebes altas, portões de ferro, colunas brancas. O tipo de lugar que as pessoas admiravam ao passar de carro.

Joana percorria aquele caminho há onze anos.

Conhecia cada rangido no chão, cada mancha nas portas de vidro, cada nódoa difícil de tirar no mármore branco da entrada. Sabia quais lâmpadas piscavam e quais torneiras pingavam. Sabia que, se não mexesse na maçaneta da casa de banho dos convidados no rés do chão, a água continuaria a correr a noite inteira.

Mas, sobretudo, conhecia as pessoas.

Miguel Mendes, quarenta e três anos, investidor em tecnologia e um sorriso que valia milhões quando se lembrava de usá-lo. Viúvo há três anos, ainda usava a aliança por hábito.

O filho, Tomás, sete anos, mais dinossauro do que criança na maioria dos dias, tudo cotoveladas, perguntas e abraços repentinos.

E Margarida.

A mãe de Miguel.

A matriarca.

Rainha da casa, embora tecnicamente não morasse lá (tinha um apartamento de luxo na cidade), mas estava na propriedade tantas vezes que Joana às vezes se esquecia de qual era a sua morada oficial.

Margarida Mendes era o tipo de mulher que percebia quando alguém movia um vaso três centímetros para a esquerda.

Usava pérolas na cozinha e bebia o café como se este a tivesse ofendido.

Joana respeitava-a.

Mas também tinha medo.

Foi numa terça-feira de manhã que tudo mudou.

Joana chegou às 7:30, como sempre, o ar de setembro fresco o suficiente para que ela se enrolasse mais no seu cardigã enquanto caminhava da paragem do autocarro até ao longo caminho da entrada.

Dentro, a quinta estava silenciosa. A entrada da equipa dava para o hall e depois para a cozinha: um espaço enorme e reluzente, com bancadas de mármore e eletrodomésticos de aço inoxidável que Joana limpava quatro vezes por dia.

Pendurou o casaco no pequeno armário da equipa, calçou os seus sapatos de interior, apertou o cabelo e verificou a lista escrita à mão no balcão.

A lista de Margarida.

Todos os dias, uma nova.

TERÇA-FEIRA:

Prata polida na sala de jantar

Trocar a roupa de cama do quarto de hóspedes (suite azul)

Limpeza profunda da casa de banho do corredor superior.

Peq. almoço às 8:00 – aveia, fruta, café (sem açúcar)

Joana sorriu.

Ela gostava de listas.

Tornavam as coisas mais fáceis de gerir.

Pôs uma chaleira ao lume (café forte, sem açúcar, sempre duas chávenas preparadas para Margarida às 8:05 em ponto) e começou a preparar o pequeno-almoço.

Às 7:50, ouviu passos nas escadas. A voz de Tomás ecoou lá de cima.

“Joanaaaaa, há panquecas?”

—Hoje não —respondeu ela, abrindo o tacho da aveia—. Aveia com fruta. Muito saudável.

Ele apareceu à porta, de pijama de dinossauro, o cabelo despenteado e a esfregar os olhos.

—Coisas saudáveis são aborrecidas —queixou-se, subindo para um banco—. Ao menos há mirtilos?

—Há sim —disse ela, colocando-lhe uma tigela à frente—. E se os comeres, vais ficar forte como um tiranossauro rex.

Ele apertou os olhos. “O T-Rex não comia fruta.”

—Então forte como um… estegossauro —disse ela.

—Ele comia plantas —concordou, pegando na colher—. Está bem. Gosto do estegossauro.

Ela serviu-lhe sumo de laranja e colocou uma chávena de café perto da ponta do balcão, exatamente onde Margarida gostava.

Na hora certa, ouviu-se o clique de saltos altos no corredor.

—Bom dia —cumprimentou Joana.

Margarida entrou na cozinha com uma blusa cor de creme e calças bem cortadas, maquilhagem impecável e o cabelo apanhado num coque suave. Deu uma olhadela ao balcão, pegou no café sem olhar para Joana e deu um gole.

—Está demasiado quente —disse, colocando-o de volta.

—Desculpe, senhora Mendes —disse Joana rapidamente—. Da próxima vez deixo arrefecer mais um pouco.

Margarida resmungou, sem se comprometer.

Os seus olhos percorreram a cozinha, fazendo inventário, e depois pousaram brevemente no neto.

—Estás a derramar aveia —disse.

Tomás congelou a meio da colherada e inspecionou a camisa.

Não estava.

—Avó —disse com paciência—. Não há aveia.

—Bem, vai haver —disse ela—. Senta-te direito.

Bebeu outro gole de café e virou-se para a porta.

—Miguel está a trabalhar de casa hoje —disse a Joana por cima do ombro—. Vêm pessoas esta tarde. Investidores —o tom sugeria que não estava impressionada—. A casa tem de estar perfeita. Como sempre.

—Sim, senhora —disse Joana.

Foi só no meio da manhã que Joana reparou que a porta do quarto das joias estava aberta.

A maioria das pessoas não sabia da existência de um quarto assim na casa Mendes. Não fazia parte do “tour” oficial que Margarida oferecia aos convidados. Estava escondido atrás do escritório no andar de cima, um espaço pequeno com um armário climatizado e um cofre embutido na parede.

As relíquias dos Mendes viviam ali.

Dinheiro antigo, diamantes antigos, ouro antigo.

Joana só limpava o pó.

Hoje estava anotado na sua lista: apenas uma pequena camada, nada de importante.

Quando passou pelo escritório a caminho da lavandaria, viu a porta entreaberta.

Que estranho, pensou.

Margarida mantinha-a sempre fechada.

Joana hesitou e depois abriu-a um pouco mais.

O cofre estava fechado, a porta do armário no seu lugar, tudo parecia estar como devia estar. Mesmo assim, os pelos da sua nuca arrepiaram-se.

Entrou, passou um pano macio pelos estantes de vidro, com cuidado para não tocar em nada, depois saiu, fechando a porta atrás de si.

Nunca viu a peça que faltava.

Não naquele momento.

Por volta das 14:00 começaram os gritos.

Joana estava no corredor de cima, a aspirar.

Ouviu primeiro a voz de Margarida.

Alta. Afiada.

—Impossível! Estava aqui! Mesmo aqui!

Depois Miguel, mais calmo, tentando acalmá-la. “Mãe, podes…?”

—Não te atrevas a dizer-me para me acalmar —rosnou Margarida—. O teu pai deu-mo. É a única coisa que me resta.

Joana desligou o aspirador.

Ouviram-se passos a aproximarem-se do quarto das joias.

Ela recuou até à parede quando Margarida quase esbarrou nela.

—Joana —ladrou Margarida—. Tocaste no cofre hoje?

Joana engoliu em seco.

—Limpei as prateleiras, sim —disse—. Como faço todas as terças. Não abri nada. Porquê? HáEle olhou para o desenho de Tomás no frigorífico, sentindo que, no fim das contas, a verdade sempre encontrava um jeito de vencer.

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