O empresário viúvo, desolado e com dois bebés, foi encontrado pela sua empregada doméstica no quintal da casa, encostado ao muro de tijolos, sem forças para continuar. Já lá estava há horas com a Ana Clara e o Ravi ao colo, os dois enrolados em mantas claras, a chorar baixinho de fome e cansaço. O fato azul estava sujo de pó, a gravata desapertada, o rosto marcado pelo desespero de quem já não sabia como seguir em frente.
A Gabriela surgiu à entrada do quintal, ainda com o uniforme preto de detalhes brancos, o avental atado à cintura, os olhos arregalados ao deparar-se com o seu patrão naquele estado. O silêncio pesado só era quebrado pelo choro fraco dos bebés e pelo vento seco que passava entre os vasos de barro espalhados pelo chão de terra batida.
Ficou imóvel por um instante, a tentar processar a cena. O homem mais poderoso que conhecia estava ali sentado no chão como um náufrago, a segurar os filhos recém-nascidos como se fossem a única coisa real que lhe restava no mundo. O Jairo nem sequer levantou os olhos quando a ouviu chegar. Já não tinha energia para explicações ou desculpas.
Apenas apertou os bebés contra o peito, sentindo o calor dos pequenos corpos, enquanto a Gabriela dava um passo hesitante na sua direção. O ar estava quente e abafado, e naquele recanto esquecido do quintal, longe da mansão e dos negócios, algo estava prestes a mudar para sempre na vida dos três. A Gabriela deu mais dois passos firmes em direção ao Jairo, sentindo o coração acelerar, não só pela urgência da situação, mas pela dor crua que via estampada no rosto daquele homem que sempre conhecera como forte e decidido.
Ela baixou-se devagar, dobrando os joelhos até ficar à altura dele, e estendeu os braços com uma firmeza que não admitia recusa. “Dê-mos cá, senhor Jairo, agora.” Não era um pedido, era uma ordem amável, mas determinada, dita com a autoridade de quem sabia exatamente o que precisava de ser feito naquele momento crítico.
O Jairo olhou para ela com os olhos vermelhos e fundos, cheios de uma exaustão que ia muito além do cansaço físico. Era a exaustão de uma alma que perdera tudo o que importava e agora lutava para manter vivos os únicos pedaços que restavam da sua vida anterior. Ele hesitou por alguns segundos, apertando a Ana Clara e o Ravi contra o peito, como se fossem âncoras que o impediam de se afundar por completo, mas as mãos tremiam tanto que os bebés se agitavam inquietos, sentindo a tensão que irradiava do corpo do pai. A Gabriela tocou suavemente no braço da Ana Clara, sentindo o calor da pele delicada através do tecido da manta. E a bebé mexeu-se, soltando um suspiro baixinho que soou como uma pergunta sem resposta. “Eles estão a sentir tudo o que o senhor está a sentir?”, disse ela com voz firme, mas compreensiva. “O bebé é como uma esponja, absorve toda a energia à sua volta. Se o senhor está desesperado, eles ficam desesperados também.”
A muito custo, o Jairo afrouxou o abraço e permitiu que a Gabriela pegasse primeiro na Ana Clara, que estava com o rostinho muito vermelho de tanto chorar. A empregada acomodou a menina com uma impressionante habilidade na curva do braço esquerdo, fazendo movimentos suaves e naturais que pareciam vir de anos de prática, enquanto com a mão direita puxava o Ravi para perto, acalmando-o com a respiração tranquila.
O Jairo sentiu um vazio gelado no peito assim que o peso dos bebés saiu do seu colo, mas ao mesmo tempo experimentou um alívio vergonhoso por poder finalmente relaxar os músculos das costas, que doíam como se estivessem a ser esmagados por uma prensa invisível. “Pronto, meus amores,” sussurrou a Gabriela para os bebés, embalando-os contra o corpo, com movimentos ritmados que fizeram com que o choro diminuísse quase instantaneamente. “Agora estão seguros. A titia Gabi está aqui.” Ela levantou-se com os dois nos braços, demonstrando uma força física que o Jairo não sabia que ela possuía. E olhou para o patrão, ainda sentado no chão de terra batida.
“O senhor precisa de sair deste sol agora, antes que desmaie de vez. Vamos para debaixo daquela cobertura ali.” Ela indicou com o queixo uma área coberta do quintal, onde existia uma antiga pia de pedra e uma bancada de madeira rústica que oferecia sombra e um pouco mais de estrutura.
O Jairo tentou levantar-se, mas as pernas falharam, a tremer como gelatina, e teve de se apoiar na parede de tijolos. Respirou fundo várias vezes até conseguir manter-se de pé. O mundo girou à sua volta por alguns segundos, pequenos pontos negros dançaram na sua visão, e ele precisou de fechar os olhos e contar até dez. Antes de conseguir caminhar, a Gabriela já se tinha dirigido para a área coberta, colocando os bebés sobre a bancada de madeira forrada com um pano limpo que tirou do bolso do avental, sempre atenta para que não rolassem ou se magoassem. O Jairo seguiu-a, arrastando os sapatos de couro italiano na terra, sentindo-se ridículo naquele fato caro e sujo, completamente fora de lugar naquele cenário abandonado.
“Eles estão com muito calor,” constatou a Gabriela, começando a desenrolar as mantas grossas com movimentos rápidos e precisos. “Num dia de trinta graus, o senhor enrolou-os como se fosse Inverno. E a fralda do Ravi está encharcada. Ele deve estar assado e com dores.” Ela verificou a temperatura da pele dos bebés com as costas da mão, um gesto automático que revelava experiência. O Jairo encostou-se à pilastra de madeira, a observar a cena com os olhos marejados, sentindo-se completamente inútil.
“Eu pensei que eles estavam com frio porque as mãozinhas estavam geladas,” murmurou, a voz carregada de culpa. “Depois enrolei mais panos neles.” A Gabriela abanou a cabeça enquanto tirava as roupinhas suadas dos bebés. “As mãos e os pés de recém-nascido são sempre mais frios, senhor Jairo. Isso é normal. Mas o tronco deles estava a ferver. Se o senhor os tivesse deixado aqui ao sol durante mais vinte minutos, poderiam ter tido uma convulsão febril.”
A informação atingiu o Jairo como um murro no estômago. Tapou o rosto com as mãos, sentindo a culpa a corroer cada pedaço da sua consciência. Poderia ter matado os próprios filhos por ignorância, por desespero, por não saber o básico sobre cuidar de bebés. A responsabilidade era demasiado esmagadora para os seus ombros, já vergados pelo luto.
“Respire, senhor Jairo,” disse a Gabriela, sem parar de trabalhar, apanhando um pouco de água fresca na torneira da pia de pedra para passar no rosto dos bebés. “O que importa é que agora estão bem, mas nós precisamos de resolver isto direito.” Ela pegou nos biberões que estavam na bolsa que o Jairo tinha largado num canto e fez uma careta ao cheirar o conteúdo. “Este leite azedou por causa do calor. Se eu der isto para eles, vão ter uma infeção intestinal grave.”
O Jairo arregalou os olhos em pânico total. “É tudo o que eu tenho aqui. Fugi da casa principal porque já não aguentava ouvir o telefone tocar, as pessoas a perguntar como eu estava, a oferecer ajuda que não sabiam dar. Esqueci-me de pegar na lata de leite em póSorte a sua que eu sou prevenida, respondeu a Gabriela, tirando duas saquetas prateadas do bolso do avental.