O Dono do Restaurante Humilhou um Cliente e Eu Não Fiz NadaAgora, cada vez que passo por aquele restaurante, lembro da minha covardia e envergo-me de vergonha.

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O dono do restaurante fez um motociclista comer lá fora, como um cão, na quinta-feira passada à noite. Éramos vinte e três pessoas naquele salão. Ninguém disse uma palavra. E eu tenho de viver com isso.

Estava sentado na mesa quatro do “A Tasca do Manuel”. Lugar do canto. Vou lá todas as quintas com a minha mulher. Vamos há seis anos. Boa comida, preços decentes e o Manuel conhece-nos pelo nome.

O motociclista entrou por volta das 19h30. Sozinho. Homem grande, talvez sessenta anos. Colete de cabedal com *patches*. Lenço na cabeça. Barba grisalha até ao peito. Pó da estrada nas botas.

Sentou-se a uma mesa perto da janela. Pegou numa ementa. Não incomodou ninguém.

O Manuel saiu da cozinha. Viu o motociclista. Parou de repente.

Aproximou-se da mesa. Não trouxe água. Não trouxe talheres.
“Temos um código de vestuário aqui,” disse o Manuel. Alto o suficiente para toda a gente ouvir.
O motociclista olhou para cima. “Desculpe?”
“Cód de vestuário. Sem cabedal. Sem equipamento de motociclista. Terá de sair.”

Não existe nenhum código de vestuário na Tasca do Manuel. Já lá comi de calções de ginástica. O Manuel inventou na hora.

O motociclista manteve a calma. “Só quero uma refeição, meu. Andei na estrada o dia todo.”
“Então pode comer no terraço.”
“Estão cinco graus lá fora.”
“Então tente noutro sítio.”

O restaurante ficou em silêncio. Todas as garfadas pararam. Vinte e três pessoas a ver isto a acontecer.

O motociclista olhou à volta da sala. Fez contacto visual comigo. Eu baixei os olhos para o meu prato.

Ele observou cada mesa. Cada pessoa ou baixou o olhar ou virou a cara.

Nem uma única pessoa interveio.

O motociclista acenou lentamente com a cabeça. Como se estivesse habituado àquilo.

Levantou-se. Empurrou a cadeia para a mesa. Saiu.

E sentou-se à mesa do terraço. Sozinho. No frio. Porque o Manuel decidiu que ele não merecia comer connosco.

A minha mulher agarrou-me no braço. “Isso não está certo,” sussurrou.
“Eu sei,” disse eu.

Mas não me levantei. Fiquei sentado a comer a minha francesinha enquanto um homem ficou lá fora, com cinco graus, por causa daquilo que vestia.

A empregada levou-lhe a comida pela porta do terraço. Ele comeu sozinho, o hálito a fazer vapor no ar frio, enquanto o resto de nós fingia que ele não existia.

Pensei naquele momento todos os dias desde então. Na forma como ele me olhou. Na forma como eu desviei o olhar.

Porque três dias depois, descobri quem aquele motociclista era.

E o que descobri deixou-me enojado.

O nome dele era Diogo Matos.

O meu vizinho João contou-me no domingo de manhã. Estávamos nas nossas garagens, na conversa de fim-de-semana habitual. Mencionei o que tinha acontecido na Tasca do Manuel. Disse que me andava a incomodar.

A expressão do João mudou.
“Homem grande? Barba grisalha? *Patches* no colete?”
“Sim. Conheces-o?”
“Esse é o Diogo Matos. É dos Motardes da Guarda.”

O nome não me dizia nada. O João percebeu.
“São um grupo de motociclistas voluntários,” disse o João. “Escoltam crianças maltratadas até ao tribunal. Sentam-se com elas durante o depoimento. Ficam à porta da sala para as crianças se sentirem seguras. Fazem isso há anos.”

O meu café de repente não sabia a nada.
“Ele estava na cidade por causa do caso da Sofia,” continuou o João. “Ouviste falar disso? A menina de sete anos cujo padrasto foi acusado de abuso? O Diogo foi designado para a acompanhar há três meses. Faz duzentos quilómetros cada vez que vem para estar com ela quando ela precisa.”

Eu tinha ouvido falar do caso da Sofia. Toda a cidade tinha ouvido. Uma menina chamada Sofia que tinha passado um inferno. A data do tribunal dela era a sexta-feira depois de eu ter visto o Diogo a comer no frio.
“Ele veus de mota na quinta-feira à noite,” disse o João. “Para estar cá de manhãzinha para a Sofia. Provavelmente só queria jantar antes de arranjar um sítio para dormir.”

Deitei o café no capô da minha carrinha.
“Estás bem?” perguntou o João.
“Não. Nem por isso.”

Entrei em casa e sentei-me à mesa da cozinha durante muito tempo.

Depois abri o meu portátil e pesquisei por Diogo Matos.

O que encontrei piorou tudo.

Diogo Matos tinha 62 anos. Veterano dos Fuzileiros. Duas comissões no Afeganistão. Recebeu a Medalha de Mérito Militar. Reformou-se depois de vinte anos de serviço.

Depois das Forças Armadas, tornou-se motorista de pesados de longo curso. Fez isso durante uma década. Depois a mulher adoeceu. Cancro. Ele deixou o trabalho de camionista para cuidar dela. Ela morreu catorze meses depois.

Isso foi há quatro anos.

Depois dela morrer, o Diogo não soube o que fazer. Ficou sozinho. Os dois filhos tinham saído de casa. Ele tinha uma casa, uma mota e nada mais.

Depois encontrou os Motardes da Guarda.

Um amigo falou-lhe do grupo. Motociclistas voluntários que apoiam crianças maltratadas e negligenciadas. Aparecem nas audiências do tribunal. Fazem guarda fora das casas das crianças quando o agressor é libertado sob fiança. Fazem as crianças saberem que alguém grande e forte está do seu lado.

O Diogo começou a ser voluntário. Depois começou a organizar. Em dois anos, estava a liderar o capítulo nacional inteiro.

A sua página de Facebook era maioritariamente privada, mas a página dos Motardes da Guarda era pública. Havia fotos. O Diogo em tribunais. O Diogo em eventos de angariação de fundos. O Diogo rodeado de crianças que sorriam porque, pela primeira vez na vida, se sentiam seguras.

Uma foto fez-me parar a frio.

O Diogo sentado na sua mota com uma menina pequena no colo. Ela vestia um pequeno colete de cabedal que o grupo lhe tinha feito. Ela sorria. Os dentes da frente estavam por nascer.

A legenda dizia: “O primeiro sorriso da Sofia em meses. É por isto que nós andamos.”

Era a mesma Sofia. O caso da Sofia. A menina pela qual ele tinha vindo de duzentos quilómetros para proteger.

E na noite antes de ter de estar ao lado dela no tribunal, tinha entrado na Tasca do Manuel para uma refeição quente. E nós fizemo-lo comer no frio como se fosse menos do que humano.

Fechei o portátil. Fui à casa de banho. Lavei a cara com água.

O homem no espelho parecia um cobarde. Porque era um.

Não consegui deixar o assunto. Quanto mais descobria, pior me sentia.

Encontrei um artigo num jornal regional de há dois anos. A manchete era “Grupo de Motociclistas Locais Protege Crianças Vulneráveis.”

O Diogo era citado. “Estas crianças foram magoadas por adultos em quem confiavam. Têm medo de tudo. Nós aparecemos para que elas saibam que nem toda a pessoa grande as vai magoar. Somos a sua muralha.”

A sua muralha. Ele usou essa palavra. Muralha.

E nós fizemo-lo sentar lá fora.

Encontrei outro artigo. A mãe de uma criança maltratada escreveu uma carta ao editor sobre o Diogo especificamente.

“A minha filha não saiu de casa durante três meses depois do que o pai dela lhe fez. Estava aterrorizada de homens. Todos os homens. Depois o Diogo apareceu na sua mota. Sentou-se na nossa varanda e falou com ela através do mosquiteiro durante uma hora. Não pressionou. Não forçou nada. Apenas conversou. No final da semana, ela estava sentada ao lado dele nos degraus da varanda. No final do mês, já se ria. O Diogo Matos devolveu-me a minha filha.

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