Capítulo 1 — Três da Manhã
A cidade estava em absoluto silêncio, exceto pelo barulho da ambulância que ainda se afastava do local, e eu entrei às pressas pelas portas da emergência, com o coração batendo forte contra as costelas.
Minha sogra, Rosa Mendes, agarrou minha mão assim que me viu, a voz tremendo.
“Cláudia — O Gethin está em estado crítico.
O médico diz que ele precisa de cirurgia agora.
Assine os papéis.”
Um formulário de consentimento cirúrgico foi empurrado para minhas mãos.
Olhei para a nota preliminar presa à frente do documento.
Aqui está o que quinze anos na medicina de emergência fazem com alguém: separamos-nos, em uma crise, em duas pessoas que ocupam o mesmo corpo.
Há a pessoa à qual a situação está acontecendo — neste caso, uma esposa, acordada às três da manhã, informada de que seu marido está à beira da morte, com as mãos tremendo e o coração acelerando.
E há o clínico, que nunca realmente sai de serviço, que já está avaliando a situação enquanto a esposa ainda tenta entender o que está acontecendo.
As mãos da esposa estavam trêmulas.
Mas o clínico já havia notado que a nota presa ao formulário de consentimento era preliminar, não confirmada; já havia registrado que um formulário de consentimento estava sendo apresentado a um membro da família antes da diagnose ser estabelecida, o que não é como a medicina cuidadosa deve ser praticada; e já começara, sob o medo, a se sentir levemente, profissionalmente inquieto.
Não entendia ainda por que eu estava inquieta.
Só sabia, como se conhece a própria profissão, que havia algo na coreografia daquela emergência que estava errado — tudo rápido demais, certo demais, ansioso demais por uma assinatura.
E assim, antes que eu pudesse fazer algo com a caneta que alguém já colocara entre meus dedos, ambas as partes de mim — a esposa assustada e o clínico cauteloso — olharam ao mesmo tempo, além da cama, para a pessoa que estava atrás dela.
Capítulo 2 — O Casaco Elegante
Uma jovem mulher em um casaco elegante. Inês Almeida.
A nova gerente de projetos do meu marido.
A mulher cujo apartamento Gethin Mendes havia estado, às três da manhã, quando ele desmaiou.
Eu sabia quem ela era, é claro.
Havia sabido por semanas — o nome que aparecia com frequência nas conversas de Gethin, o rosto na foto da empresa, a mulher com o moletom combinando.
Não o confrontei sobre isso, e as pessoas vão me julgar por isso, mas eu tinha minhas razões, e ao estar naquele corredor às três da manhã, compreendi-as plenamente pela primeira vez. Não o confrontei porque parte de mim estava esperando para ter certeza — certeza do que ele era, certeza do que eu faria a respeito — e porque outra parte de mim, a parte que seis anos de negação desgastaram, ainda não encontrou a força para destruir uma vida, mesmo uma vida que estava me machucando.
Mas ver Inês Almeida parada atrás da cama do meu marido, em seu casaco de grife, presente no momento do colapso dele, fez com que tudo em que eu estava incerta se tornasse subitamente certo.
E mais do que isso: a parte clínica de mim, aquela que nunca dorme, olhou para ela e sentiu a segunda onda de inquietação, mais aguda que a primeira.
Porque uma amante geralmente não acompanha o homem ao hospital e não fica ao seu lado na frente da esposa e dos pais.
Isso exige uma imprudência nascida do pânico, ou uma necessidade específica de estar presente — de ver como aquilo se desenrolava, de gerenciá-lo.
O fato de ela estar naquele corredor era, em si, uma informação, e não era a informação de uma mulher inocente. Registrei isso, como faço com tudo, e olhei de novo para o formulário de consentimento, começando, muito silenciosamente, a pensar.
“Cláudia.” Meu sogro, João, disparou como se fosse uma ordem.
“Isto é uma questão de vida ou morte.
O que você está esperando?”
Olhei para a caneta em minha mão.
Todos naquele corredor pensavam que eu havia congelado porque estava assustada, ou sobrecarregada, ou simplesmente era uma mulher simples demais para lidar com uma crise.