Hoje à noite, escrevo sobre Eli Marques, que apesar de seus sete anos aparentava ser ainda menor. Ele segurava um prato branco contra o peito enquanto observava a imensa mesa da sala de jantar. Havia frango assado, purê de batatas, legumes com manteiga e pão fresco, e o vapor subia em direção aos outros dois filhos, Miguel e Ana, que comiam sem desviar o olhar.
Eli não havia comido nada o dia todo.
Lorena Almeida estava encostada na bancada de pedra, olhando o celular. Vestia um elegante vestido preto de um ombro só. Seu cabelo impecavelmente preso e sua maquiagem perfeita a faziam parecer pronta para um gala, e não para um jantar em família.
Eli respirou fundo e avançou.
Seus passos mal faziam barulho no piso brilhante.
Parou na extremidade da mesa.
“Lorena, também tem comida para mim?”
Miguel parou de mover o garfo por um instante, mas Lorena não respondeu de imediato.
Ela levantou lentamente o olhar. Primeiro, observou o prato vazio. Depois, analisou a camisa cinza de Eli, seus sapatos desgastados e seu rosto pálido.
“Quantas vezes tenho que te dizer isso?”
Eli apertou os dedos ao redor do prato.
Lorena cruzou os braços.
“Não me chame para te alimentar. Eu cozinho para meus filhos, não para cachorros de rua.”
Ana baixou a cabeça.
Miguel continuou a comer, embora suas mãos começassem a tremer levemente.
Eli sentiu seu estômago se contorcer. Não apenas por causa da fome, mas da vergonha. Olhou para o prato como se esperasse que algo surgisse nele.
“Só queria um pouco de pão”, sussurrou.
Lorena caminhou até a mesa e pousou uma mão sobre o encosto de uma cadeira.
“Se você está com fome, espere pelo seu pai. Você não é minha responsabilidade.”
Eli ergueu os olhos.
“Papai disse que chegaria tarde.”
“Então você terá que esperar até mais tarde.”
“Mas eu não tomei café da manhã.”
Lorena inclinou-se para ele.
“Isso não é meu problema.”
Nesse momento, Rosa, a funcionária que trabalhava há anos para a família, apareceu pelo corredor, carregando uma cesta com roupas limpas. Ao ouvir as palavras de Lorena, ficou paralisada.
Eli a olhou com esperança.
Rosa fez um passo em direção à cozinha.
“Senhora Lorena, posso preparar algo para a criança.”
Lorena virou a cabeça.
“Você fará exatamente o que eu pago para você fazer.”
“Mas o pequeno está muito pálido.”
“Rosa, volte para a lavanderia.”
A mulher olhou para Eli e depois para a comida que sobrou na mesa.
Havia o suficiente para alimentar dez pessoas.
No entanto, Rosa sabia que confrontar Lorena publicamente poderia piorar a situação. Nas últimas vezes que tentou ajudar Eli, Lorena a ameaçou de demissão e acusou de roubo.
Rosa retrocedeu lentamente.
Eli sentiu sua última esperança se esvaindo.
Colocou o prato vazio sobre a mesa.
“Desculpe por incomodar.”
Virou-se para sair, mas a porta da frente se abriu bruscamente.
O som fez os vidros tremerem.
David Almeida apareceu no limiar.
Vestia uma camisa azul amarrotada e segurava um envelope marrom grosso. Seu rosto estava tenso. Passou as últimas horas em uma clínica particular, depois no escritório de seu advogado e, por fim, no banco.
Descobriu três segredos que poderiam destruir seu casamento.
Mas nada o preparou para a cena que encontrou ao chegar.
Miguel e Ana estavam com os pratos cheios.
Eli permanecia ao lado deles com as mãos vazias.
David observou o rosto avermelhado do menino.
Em seguida, olhou para Lorena.
“Por que Eli não está comendo?”
Lorena mudou de expressão imediatamente.
Seu rosto frio transformou-se em uma máscara de falsa preocupação.
“Você chegou bem a tempo. O menino estava fazendo mais um escândalo.”
Eli olhou para seu pai.
“Não estava fazendo escândalo.”
Lorena bateu levemente com os dedos na mesa.
“Eli, os adultos estão conversando.”
David deixou o envelope sobre a bancada.
“Perguntei por que ele não tem comida.”
Lorena soltou uma risadinha.
“Porque não sou a empregada dele. Já tenho dois filhos para cuidar.”
“Há comida de sobra.”
“É comida que preparei para meus filhos.”
David permaneceu completamente imóvel.
Rosa observava do corredor. Podia ver como a respiração do homem se tornava mais lenta, como se estivesse tentando domar algo perigoso dentro de si.
Lorena ergueu o queixo.
“Se Eli tem fome, que seu verdadeiro pai se vire com isso.”
Um silêncio pesado caiu sobre a cozinha.
Eli retrocedeu confuso.
David cerrou os dentes.
“Sou o pai dele.”
“Então alimente-o você.”
David olhou para Miguel e Ana. Nenhuma das crianças ousava levantar o olhar.
Depois, voltou a fitar Lorena.
“Então seus filhos também não deveriam comer.”
Lorena franziu a testa.
David colocou uma mão sobre o envelope marrom.
“Porque acabei de descobrir que nenhum deles é meu.”
O garfo de Ana caiu ao chão.
Miguel parou de mastigar.
Lorena perdeu a cor do rosto.
Durante alguns segundos, ninguém se moveu.
Depois, ela começou a rir.
Era uma risada nervosa, rápida demais e exagerada.
“Não sei que tipo de brincadeira está fazendo.”
David abriu o envelope.
Retirou dois laudos médicos.
“Não é uma brincadeira.”
Lorena olhou os documentos, mas não quis tocá-los.
“Esses resultados devem estar errados.”
“Os exames foram feitos em dois laboratórios diferentes.”
“Alguém os manipulou.”
“Eu mesmo entreguei as amostras.”
Lorena engoliu em seco.
Eli observava os adultos sem compreender totalmente o que estava acontecendo.
David se aproximou da mesa.
“Eu não ia dizer isso na frente das crianças. Queria falar com você em particular. Mas depois de ouvir como você tratava meu filho, você não mereceu proteção alguma.”
“Cale-se”, sussurrou Lorena.
David não desviou o olhar.
“Miguel e Ana não compartilham meu sangue.”
Lorena bateu nos documentos e os lançou ao chão.
“Isso não muda nada!”
David inclinou a cabeça.
“O que você acabou de dizer?”
Lorena percebeu seu erro tarde demais.
Miguel levantou a vista.
“Mãe, o que isso significa?”
Ela olhou para o menino, mas não conseguiu responder.
David pegou um dos documentos.
“Significa que sua mãe sabia a verdade.”
Lorena recuou.
“David, podemos conversar sobre isso.”
“Quem é o pai?”
“Não aqui.”
“Quem é?”
Lorena olhou para o corredor, como se procurasse uma saída.
Então Eli soltou um gemido suave.
O prato escorregou de suas mãos e se partiu no chão.
O menino levou a mão ao estômago.
Seus joelhos cederam.
David o agarrou antes que sua cabeça batesse nos azulejos.
“Eli!”
O rosto do menino estava pálido.
Rosa correu para eles.
“Ele não come desde ontem à noite.”
David levantou os olhos para Lorena.
“Desde ontem?”
Rosa começou a chorar.
“A senhora trancou a despensa.”
Lorena deu um passo em direção a ela.
“Mentira!”
Rosa se colocou atrás de David.
“Não posso continuar calada.”
David segurou Eli em seus braços.
“Há quanto tempo isso vem acontecendo?”
Rosa respirou com dificuldade.
“Desde que você começou a viajar a trabalho.”
O olhar de David mudou.
Ele não continha apenas raiva.
Continha medo.
“O que mais ele fez com você?”
Rosa abriu a boca para responder.
Mas antes que pudesse, Lorena pegou seu telefone e correu em direção à porta dos fundos.
David a viu.
“Para onde você vai?”
Lorena parou com a mão na maçaneta.
Através do vidro, surgiu a silhueta de um homem.
O desconhecido esperava do lado de fora da casa há alguns minutos.
Quando a luz iluminou seu rosto, David sentiu que algo se quebrava dentro dele.