O Homem Que Todos Mal Julgam
O motociclista corpulento conseguiu segurar a bicicleta azul da minha filha de oito anos, antes que ela pudesse tombar para o lado na grama.
Ele a colocou no chão com cuidado, como se fosse algo frágil, e se agachou em frente a ela, apoiando as mãos nos joelhos.
“A parte assustadora não é cair, querida,” disse ele em voz baixa. “A parte assustadora é ouvir você falar como se já tivesse decidido que não pode vencer.”
Eu ouvi a conversa do fim da nossa calçada.
Meu nome é Luciana Pereira, e eu acabara de chegar em casa depois de trabalhar duas longas jornadas em um lar de idosos nos arredores de Lisboa. Minhas pernas doíam, meu uniforme estava amassado e minha mente estava cheia de promessas que fiz à minha filha e não cumpri.
Então, eu a vi.
Pipa estava sentada na grama com lágrimas no rosto. Seu cabelo castanho-escuro havia se soltado do penteado, suas luvas rosa estavam sujas, e ambos os joelhos estavam cobertos com curativos novos.
Ao lado dela estava nosso vizinho, Renato Alves.
A maioria das pessoas na nossa rua o chamava de “Cavalo de Ferro”, embora quase ninguém dissesse isso na sua presença. Ele tinha cinquenta e seis anos, era forte, cheio de tatuagens, e sempre usava um colete de motociclista preto. Sua Harley era barulhenta o suficiente para acordar o quarteirão, e quando seus amigos motociclistas chegavam, vários vizinhos se lembravam repentinamente de fechar as cortinas.
As pessoas o julgavam antes de conhecê-lo.
Eu também o julguei.
Mas naquela tarde, o homem que todos evitavam passou horas correndo atrás da minha menininha.
A Promessa Que Eu Continuava Quebrando
A bicicleta da Pipa ficou parada na nossa garagem por quase um ano.
Era azul brilhante, com guidão branco, um sino prateado e uma cestinha que ela mesma escolheu. Eu a comprei depois de economizar em gorjetas, abrir mão de pequenas comodidades, e me convencer de que toda criança merece uma lembrança de verão simples e feliz.
Naquele dia em que a trouxe para casa, Pipa me abraçou e sussurrou: “Mãe, você vai me ensinar?”
Eu disse que sim.
Eu realmente quis dizer isso.
Mas a vida não se importou com o que eu queria.
No sábado seguinte, meu supervisor me chamou porque alguém não poderia cumprir o turno.
No domingo seguinte, meu carro precisou de um conserto que não podia ignorar.
Uma noite depois da escola, prometi que iríamos praticar antes do jantar, mas cheguei tão cansada que dormi na cadeira enquanto Pipa me cobria com um cobertor em silêncio.
Depois de um tempo, ela parou de perguntar.
As amigas dela aprenderam a andar. Elas rodavam pelo bairro, rindo enquanto os pneus rolavam sobre o asfalto liso. Pipa observava da varanda com uma caixa de giz ao seu lado, fingindo que gostava mais de desenhar.
Mas as mães percebem o que as crianças tentam esconder.
Eu percebi como o sorriso dela desaparecia toda vez que ouvia sinos de bicicletas do lado de fora.
Eu percebi como ela tocava no guidão na garagem e depois se afastava.
Eu percebi tudo isso.
E eu odiei não conseguir fazer tempo.
O Choro Atrás da Cerca
Naquela manhã de sábado, minha prima mais nova, Dana, estava cuidando da Pipa enquanto eu trabalhava.
Renato estava na garagem aberta, consertando algo na sua motocicleta, quando ouviu Pipa chorando perto da cerca.
Ela não chorava alto.
Ela chorava naquele jeito silencioso que as crianças fazem quando acreditam que ninguém está vindo.
“Todo mundo consegue menos eu,” ela disse. “Talvez eu seja apenas ruim em tudo.”
Renato me contou depois que aquelas palavras o fizeram largar a chave inglesa.
Ele não entrou no nosso quintal. Não quis assustá-la. Foi até a porta da frente, bateu e perguntou à Dana se seria aceitável para ele ajudar a Pipa a praticar na rua onde todos pudessem vê-los.
Dana me ligou, mas eu perdi a ligação porque estava ajudando um residente.
Assim, ela disse que sim.
Renato começou verificando a bicicleta. O selim estava alto demais. Os pneus precisavam de ar. Um dos freios estava muito apertado. O guidão estava ligeiramente torto.
“Não é de surpreender que essa coisa fique brigando com você,” disse ele à Pipa.
Ela fungou. “Bicicletas não brigam.”
“Esta briga,” ele disse. “Mas nós vamos ensinar a ter modos.”
Essa foi a primeira vez que ela sorriu.
Trinta Quedas e Mais Uma Tentativa
Renato encontrou um capacete de criança na garagem dele. Era amarelo-claro e parecia quase novo, embora a espuma interna estivesse velha. Ele o limpou com cuidado, ajustou as tiras e colocou na cabeça da Pipa.
Depois, ele retirou os pedais da bicicleta.
Pipa fez uma cara de desapontamento. “Não é assim que as bicicletas funcionam.”
“É assim hoje,” ele respondeu. “Primeiro, você aprende a equilibrar. Velocidade pode esperar.”
Na primeira hora, ela se impulsionou pela rua tranquila com os dois pés. Ela reclamou. Ela balançou. Quase caiu. Renato caminhava ao lado dela a cada movimento.
Na segunda hora, ele colocou os pedais novamente.
Foi então que as quedas começaram.
Uma perto da caixa de correio.
Uma ao lado do meio-fio.
Uma quando ela olhou para os próprios sapatos.
Uma quando um garoto mais velho do outro lado da rua riu.
Renato não chamou a atenção do garoto. Ele apenas se ajoelhou ao lado da Pipa e tirou a grama da manga dela.
“Você sabe por que as pessoas riem quando alguém está aprendendo?”
Pipa secou o nariz. “Porque eu pareço boba.”
“Não,” Renato disse. “Porque tentar lembra a elas os momentos em que também tiveram medo.”
Quando eu cheguei em casa, Pipa havia caído mais vezes do que eu podia contar.
Renato contava cada uma.
Não para envergonhá-la.
Para provar algo.
Quando perguntei quantas vezes ela tinha caído, ele olhou para as marcas de giz no meio-fio.
“Trinta,” disse ele.
Pipa levantou o queixo. “Trinta e uma se você contar o arbusto.”
Renato acenou com a cabeça em sinal de concordância. “O arbusto fez parte. Isso foi um evento em equipe.”
Pipa tentou não rir, mas não conseguiu.
Tente Com Medo
Eu olhei para Renato com mais atenção.
A camisa dele estava encharcada de suor. As mãos estavam arranhadas. Os joelhos sujos de se ajoelhar sobre o asfalto. Uma das botas estava um pouco arrastando, como se o tornozelo estivesse começando a doer.
Naquele instante, percebi que muitas vezes as primeiras impressões nos impedem de enxergar a verdadeira bontade que existe nas pessoas. A ajuda pode vir de onde menos esperamos, e é quando permitimos que os outros se aproximem que podemos aprender a nos levantar e seguir em frente, mesmo com medo.