O Pequeno Ditador Que Só Obedeceu à Mulher da Limpeza.

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O filho do milionário cuspiu em todas as amas. Em todas. Mas quando Inês Mendes, usando o seu uniforme azul de limpeza, subiu as escadas, ele estendeu os braços, beijou-lhe o rosto e adormeceu como se tivesse encontrado, pela primeira vez, um colo verdadeiro. Ela só queria dinheiro para comprar os remédios da mãe, mas naquele instante, sem saber, entrou num mundo onde o afeto era escândalo e amar um bebé podia custar a sua dignidade.

As nossas histórias chegaram longe. De onde nos está a assistir hoje? Partilhe connosco nos comentários. Não, não, não. O grito agudo do Tomás cortou o ar do luxuoso apartamento na Avenida da Boavista. O menino de apenas um ano e meio estava vermelho de tanto chorar, as suas mãozinhas fechadas balançando no ar como se combatesse o mundo inteiro.

Vítor Silva estava paralisado com o fato de cinquenta mil euros, completamente manchado com o puré de pera que o filho cuspiu. O milionário mais temido do Porto parecia um homem derrotado. As suas mãos tremiam ligeiramente enquanto observava o herdeiro que rejeitava tudo e todos. “Senhor Silva, não aguento mais”, gritou Carolina, a ama contratada há apenas uma semana.

Era a oitava em dois meses. Este menino não é normal. Morde-me, arranha-me, cospe em mim. Despeço-me. A mulher de quarenta anos, com licenciatura em pedagogia e quinze anos de experiência, atirou o avental ao chão e saiu batendo a porta. O som dos seus saltos altos ecoou pelo corredor até desaparecer no elevador.

Vítor olhou para o filho, que continuava a chorar desesperadamente no berço italiano importado. O apartamento de quinhentos metros quadrados nunca lhe parecera tão vazio e frio. “Tomás, por favor, o pai está aqui.” Vítor murmurou, estendendo as mãos para pegar no menino. Mas Tomás recuou, atirando o corpo para trás e aumentando ainda mais o volume do choro. Era sempre assim.

Desde que a Sofia morrera, há um ano, o menino não aceitava ninguém, nem o pai, nem as amas qualificadas, nem as enfermeiras particulares. Vítor sentou-se na poltrona de pele ao lado do berço e passou as mãos pelo cabelo grisalho. Tinha cinquenta e dois anos e comandava um império financeiro que movia milhões. Podia comprar empresas inteiras com uma chamada, mas não conseguia acalmar o próprio filho.

“Meu Deus, Sofia, o que é que eu faço?”, sussurrou, olhando para o retrato da esposa na mesinha de cabeceira. Ele não me aceita. Não aceita ninguém. Está a tornar-se uma criança revoltada e não sei como ajudar. O choro do Tomás diminuiu um pouco, como se tivesse ouvido o desespero na voz do pai. Vítor aproveitou para se aproximar novamente.

“Sentes falta da mamã, não é, meu filho?” Vítor tocou delicadamente a mãozinha do bebé. “Eu também sinto. Todos os santos dias sinto falta dela.” Tomás olhou para o pai com os seus olhinhos verdes cheios de lágrimas. Por um momento, Vítor pensou que finalmente tinha conseguido uma ligação, mas então o menino começou a chorar novamente, mais alto que antes.

“Senhor Silva” – a voz da governanta, a Dona Emília, veio da porta. “Desculpe incomodar, mas a empresa de limpeza ligou. Houve um problema com a empregada do turno da manhã. Ela não pode vir hoje.” Vítor suspirou. “E agora? A casa está uma confusão por causa do problema com a ama.” “Vão mandar alguém do turno da noite para substituir, uma rapariga chamada Inês.”

“Ela já trabalha aqui há alguns meses, mas sempre de madrugada, então o senhor nunca a viu.” “Tanto faz” – Vítor respondeu exausto. “Só peça-lhe que não faça barulho. Se por milagre o Tomás conseguir dormir, não quero que nada o acorde.” A Dona Emília saiu e Vítor voltou a sua atenção para o filho. O menino estava a ficar rouco de tanto chorar, mas não parava.

Era como se toda a dor que sentia por ter perdido a mãe saísse sob a forma de grito. “O pai não sabe o que fazer, Tomás.” Vítor admitiu, sentindo os próprios olhos marejarem. “Tentei de tudo. As melhores amas, os melhores médicos, os melhores brinquedos, mas nada resulta. Não queres nada do que eu te ofereço.” Vítor pegou no telemóvel e marcou o número da sua assistente.

“Catarina, preciso que cancele todas as reuniões da próxima semana. Vou ficar em casa até resolver esta situação com o meu filho.” “Mas, senhor, tem reunião com os investidores alemães.” “Cancela tudo” – gritou Vítor, perdendo a paciência. “O meu filho é mais importante que qualquer negócio.” Ele desligou o telefone e voltou para perto do berço.

Tomás estava a começar a cansar-se, mas ainda choramingava baixinho. Vítor tentou mais uma vez pegar no menino ao colo, mas o Tomás encolheu-se e começou a chorar de novo. “Está bem, meu filho. O pai vai ficar aqui ao teu lado até te acalmares.” Vítor disse, sentando-se no chão ao lado do berço. “Não vou sair daqui, prometo.” E ali ficou o homem mais poderoso do Porto, sentado no chão de mármore da cobertura, a ouvir o choro inconsolável do filho e a sentir-se o pai mais fracassado do mundo.

Inês Mendes estava no elevador de serviço, a subir para o último andar do edifício mais luxuoso da Avenida da Boavista. Segurava firmemente o carrinho de limpeza e tentava não pensar em quão cansada estava. Dormira apenas três horas depois de passar a noite no hospital com a mãe. “Dalila, minha filha, precisa de descansar um pouco” – dissera a enfermeira mais cedo. “A sua mãe está estável.”

“Vá para casa.” Mas Inês não tinha casa para onde ir. Tinha trabalho para fazer. Sempre tinha trabalho para fazer. Era assim desde que descobriram a doença rara da mãe, há seis meses. Cada cêntimo extra que conseguia ia para os medicamentos experimentais que o plano de saúde não cobria. O elevador parou no décimo andar e Inês saiu com o seu carrinho.

Conhecia bem aquele corredor de serviço. Trabalhava ali há quatro meses, sempre de madrugada, quando os moradores dormiam. Era um emprego silencioso e solitário, exatamente como ela gostava. Mas hoje algo estava diferente. Havia muito barulho vindo do apartamento do Senhor Silva, gritos de criança e vozes adultas alteradas.

Inês estava a guardar os produtos de limpeza no armário quando ouviu passos apressados pelo corredor principal. Uma mulher bem vestida de saltos altos passou a correr em direção ao elevador social. “Eu avisei que não ia resultar” – a mulher falava ao telefone, claramente irritada. “Aquela criança é impossível. Nenhuma ama consegue aguentar.”

“O menino é um caso perdido.” A mulher entrou no elevador e desapareceu. Inês ficou parada a pensar no que tinha ouvido. Ela sabia que o Sr. Silva era viúvo e tinha um filho pequeno. A Dona Emília, a governanta, já comentara as dificuldades que ele enfrentava para cuidar da criança sozinho. O choro do bebé continuava a vir do apartamento.

Era um som que partia o coração, desesperado e inconsolável. Inês conhecia bem esse tipo de choro. Era o som que ela própria fazia em criança, depois de o pai ter ido embora e as ter deixEla sorriu ao ver o pai e o filho finalmente reconciliados, sabendo que o amor verdadeiro, não a riqueza, é o que realmente cura uma família.

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