O soldado, quase todos os dias, dava comida às crias das cobras por pura brincadeira. Tinha a certeza de que aquilo era um passatempo inofensivo. Mas numa certa manhã, à entrada da tenda, esperava-o um horror para o qual não estava minimamente preparado. 😢😱
As cobras apareceram junto à tenda por acaso. Nesse dia, o soldado cavava uma vala no limite do quartel e reparou que, debaixo das pedras aquecidas pelo sol, duas pequenas cobras rastejaram para fora.
Eram finas, ainda inseguras, erguiam a cabeça e silvavam a cada ruído. Pelo regulamento, deviam ser eliminadas de imediato. O comandante foi claro: “Perigo junto ao pessoal é para abater sem discussão.”
Mas o rapaz não o fez. Achou estranho aquelas crias não fugirem, como se o estivessem a observar. Voltou ao cair da tarde com um pedaço de pão e lançou-o ao chão, ao lado da tenda.
As cobras, primeiro, recuaram e depois aproximaram-se devagar. No dia seguinte, trouxe um pouco de carne. Ficou curioso em saber se se habituariam a ele. Era um entretenimento parvo na monotonia do dia a dia no quartel, um pequeno segredo que mais ninguém podia saber.
Em vez de destruir as vizinhas perigosas, começou a alimentá-las. A princípio, mantinham-se alerta e abriam o capuz a cada movimento dele, mas depressa deixaram de o ver como ameaça. Passou a ir lá quase todos os dias, acocorava-se e atirava a comida, observando como elas se aproximavam, cautelosas.
Levava-lhes pão e carne como se fossem cachorros. Numa semana, as cobras estavam visivelmente maiores e os seus movimentos mais seguros. Passada uma quinzena, outras começaram a rondar. Primeiro mais uma, depois duas. Ele dizia a si próprio que era coincidência, que o ninho era por ali.
Mas certa manhã, ao sair da tenda, à sua espera estava um horror para o qual o soldado não estava minimamente preparado. 😨🫣
Certa manhã, saiu da tenda e estacou. Estava a areia à volta coberta de rastros. Tinha dado de comer a duas. Mas vinham dezenas.
O medo surgiu num instante. Percebeu que a situação lhe fugia ao controlo. Se houvesse conhecimento, teria um castigo à sua espera. Nessa noite, decidiu livrar-se das cobras. Pegou no material preciso, entrou no jipe e foi até ao sítio onde as via mais vezes, por entre a erva.
Quando regressou ao quartel, já madrugada, o silêncio recebeu-o. Nem vozes, nem os passos dos camaradas, nem o ruído habitual da messe.
Saiu da vala e correu para as tendas. Lá dentro esperava-o uma cena terrível: os companheiros jaziam imóveis, havia marcas de luta e sangue por todo o lado. Durante a noite, a unidade fora atacada pelo inimigo. Fora tudo rápido e em silêncio.
Enquanto ele andava por ali entretido com as cobras, os camaradas morreram. Ele era suposto estar naquela tenda. Era suposto ter morrido com eles.
No fim de contas, foram as cobras que, sem querer, lhe salvaram a vida. Impediram-no de estar no quartel naquela noite.
Mais tarde, foi interrogado, acusado de traição, investigaram ligações aos atacantes e esmiuçaram cada pormenor. Não conseguiram provar a culpa, mas a sombra da suspeita ficou. Deram-lhe baixa e ele deixou o Exército para sempre.