O milionário chegou a casa com o coração pesado e não conseguia acreditar no que a empregada doméstica tinha feito com os seus filhos. Ela estava no jardim a lançar água com a mangueira sobre os quatro rapazes, que corriam descalços pela relva, ensopados, a gritar e a rir como nunca antes tinha presenciado. Tiago ficou imóvel, incapaz de dar um passo, pois aquela cena não fazia qualquer sentido na realidade que conhecia.
Os seus filhos não riam daquela forma, não corriam descalços na relva, não gritavam de alegria como se o mundo lhes pertencesse, e muito menos permitiam que alguém se aproximasse sem se queixarem, chorarem ou fugirem para dentro de casa. Desde que Carolina tinha partido, desde que pegou nas malas e desapareceu sem olhar para trás, aquelas quatro crianças tinham-se transformado em fantasmas silenciosos que mal levantavam os olhos quando ele chegava, que comiam em silêncio, que adormeciam demasiado cedo, que pareciam ter esquecido o que era ser verdadeiramente criança.
Tiago tinha tentado de tudo. Contratara três amas diferentes nos últimos cinco meses. Comprou brinquedos caros, jogos, bicicletas novas, qualquer coisa que pudesse arrancar um sorriso àqueles rostinhos cansados. Mas nada resultava, nada mudava.
E no fundo sabia que o problema não eram os brinquedos. O problema era que ele não sabia ser pai sozinho, não sabia como falar com eles, como abraçar, como estar verdadeiramente presente quando a sua cabeça estava sempre noutro lugar, sempre a pensar na empresa, nos contratos, nas reuniões intermináveis que sugavam cada pedaço de energia que lhe restava.
Mas agora, naquele exato momento, enquanto segurava a pasta de cabedal com as mãos suadas e o corpo inteiro a doer de cansaço, os seus quatro filhos corriam em círculos no jardim, completamente encharcados, com as t-shirts coladas ao corpo, o cabelo a pingar, os pés descalços a enterrarem-se na relva molhada, e eles riam-se, riam-se a valer, com aquele som agudo e desprendido que só uma criança feliz consegue produzir.
E a responsável por tudo aquilo era a mulher que contratara há apenas três dias. A empregada que chegara com um currículo simples, sem referências de peso, sem experiência em casas grandes, mas que o tinha encarado com uma estranha firmeza e dissera que sabia cuidar de crianças porque criara os cinco irmãos mais novos sozinha depois de a mãe ter adoecido.
Chamava-se Beatriz e naquele momento estava de costas para Tiago, a segurar a mangueira com ambas as mãos, enquanto dirigia a água para os rapazes, que saltavam e desviavam-se e gritavam: “Mais água, outra vez!” E ela ria com eles. Com uma naturalidade que parecia impossível, como se conhecesse aquelas crianças há anos, como se soubesse exatamente do que precisavam sem ter de perguntar.
Tiago sentiu algo estranho a subir-lhe pelo peito, algo que não conseguia nomear, uma mistura de alívio e culpa e uma tristeza enorme, porque ele nunca conseguira fazer aquilo, nunca conseguira aliviar o peso dos ombros dos próprios filhos, nunca fora capaz de transformar a casa num sítio onde pudessem simplesmente ser crianças.
Largou a pasta no chão devagar, sem fazer barulho, e ficou ali parado, a observar tudo como se assistisse à vida de outra pessoa, como se aquela cena não pertencesse à sua realidade. E foi só quando o mais novo dos quatro, o Duarte, tropeçou e caiu de cu na relva molhada, que Tiago sentiu o ar voltar-lhe aos pulmões.
Porque em vez de chorar, em vez de gritar ou fazer o escândalo que habitualmente fazia ao cair, o Duarte simplesmente levantou a cara, olhou para a Beatriz e começou a rir ainda mais alto, como se cair fosse a coisa mais engraçada do mundo. Beatriz deixou a mangueira na relva e correu para ele de braços abertos, agachou-se à frente do miúdo e perguntou: “Magoa-te, Duarte?” E o Duarte abanou a cabeça molhada, ainda a rir, e ela estendeu a mão para o ajudar a levantar.
Mas em vez de aceitar a mão, o Duarte puxou o braço dela com força e a Beatriz perdeu o equilíbrio e caiu sentada na relva ao lado dele. E os outros três miúdos viram aquilo e começaram a gritar de contentes e correram na direção dos dois e atiraram-se para cima dela como se fosse uma brincadeira combinada. E de repente estava a Beatriz no meio do relvado encharcado, com quatro crianças em cima dela, todas a rir, todas coladas a ela, como se ela fosse a pessoa mais importante do mundo.
E Tiago sentiu os olhos a arder, sentiu aquela coisa apertada na garganta que ele sempre engolia, mas desta vez não conseguiu conter, porque pela primeira vez em meses via os seus filhos verdadeiramente felizes. E ele não tinha nada a ver com aquilo. Não era o responsável por aqueles sorrisos. Não era o pai de que precisavam.
Era uma desconhecida que entrara na vida deles há três dias, que conseguira fazer em minutos o que ele não conseguira em meses inteiros. Deu um passo atrás, querendo desaparecer antes que alguém o visse. Mas era tarde demais, porque o Gonçalo, o segundo mais velho, levantou a cabeça ensopada e viu o pai ali parado com o fato amarrotado e a gravata desalinhada.
E o sorriso dele desapareceu no mesmo instante, como se a presença de Tiago tivesse partido qualquer coisa, como se a alegria só pudesse existir quando o pai não estava por perto. A Beatriz percebeu a mudança, virou a cabeça e viu Tiago ali imóvel. E levantou-se depressa, a limpar as mãos na saia molhada, com o rosto um pouco corado.
E o Tiago viu-lhe nos olhos aquela preocupação de quem acha que fez algo de errado, de quem pensa que vai ser despedida por ter saído da linha, por ter feito algo que não estava combinado. Ela abriu a boca para falar, mas Tiago levantou a mão devagar e abanou a cabeça e disse com a voz mais baixa do que pretendia: “Não pares.”
E a Beatriz calou-se e ficou ali parada, sem perceber bem. E Tiago repetiu, desta vez um pouco mais firme: “Não pares, por favor, continua com eles.” E viu o rosto dela descontrair, viu os ombros dela baixarem e ela anuiu lentamente e voltou a sorrir, e virou-se para as crianças e perguntou: “Quem quer mais água?” E os quatro miúdos gritaram que sim em uníssono, até o Gonçalo, que ficara sério por um instante, e a Beatriz pegou de novo na mangueira e voltou a molhá-los.
E o Tiago ficou ali mais uns segundos a observar, sentindo aquele vazio enorme no peito, aquele peso de saber que falhara como pai, que deixara as suas próprias tristezas engolirem a infância dos filhos, e que agora uma mulher que mal conhecia estava a resolver tudo sozinha, sem sequer se dar conta.
Apanhou a pasta do chão e entrou pela porta lateral da casa, subiu diretamente para o quarto, sem olhar para nada, sem falar com ninguém, trancou a porta e sentou-se na beira da cama com a cabeça entre as mãos e ficou ali em silêncio, a tentar perceber como deixara as coisas chegar àquele ponto, como se tornara tão distante dos próprios filhos que estes só conseguiam ser felizes quando ele não estava por perto.
Pensou na Carolina, pensou em como ela saíra daquela casa aos gritos a dizer que ele nunca estava presente, que só sabia trabalhar, que os filhos nem conheciam o próprio pai. E ele julgara que ela exagerava, que era injusta, porque ele trabalhava precisamente paraEle ergueu-se com uma determinação renovada, decidido a finalmente atravessar o jardim e juntar-se aos seus filhos naquela brincadeira, sabendo que o verdadeiro património não estava no banco, mas ali, na relva molhada, à sua espera.