O tribunal tinha um jeito de transformar o luto comum num mero procedimento.
Lá dentro, cada som se apequenava.
Os sapatos abafavam-se contra o soalho encerado.
Os papéis sussurravam em vez de farfalhar.
Até a respiração parecia pedir licença.
D. Amélia notou tudo isso antes de reparar nas pessoas a observá-la, porque o corpo às vezes estuda os móveis quando o coração tenta não se partir em público.
Ela já entrara naquele edifício antes, mas nunca daquela maneira.
Não com dois rapazes gémeos agarrados às suas mãos.
Não com Juliano Reis sentado do outro lado da sala, ao lado de Fátima Costa.
Não com o casamento reduzido a pastas, assinaturas e uma petição de custódia que a descrevia como instável por não ter a estabilidade financeira que Juliano alegava possuir.
Aquela expressão aparecera três vezes no requerimento dele.
Estabilidade financeira.
Como se ele não tivesse passado anos a garantir que todas as contas visíveis vestissem o seu nome.
Como se aPorque a verdade, quando guardada com paciência, tem o peso de um castelo de papel que nenhum vento consegue derrubar.