12 de Outubro de 1923, Lisboa
Hoje escrevo sobre um acontecimento que ainda me deixa o peito apertado. O chefe da máfia, um homem a quem todos temiam, mandou atirar a rapariga que ousou desafiar-lhe a autoridade para uma jaula com cães enfurecidos, para ser destroçada. Mas o que esses animais fizeram deixou toda a gente em choque.
O cabecilha já tinha posto os olhos na rapariga do bairro vizinho, filha de um simples ferreiro que trabalhava de sol a sol na sua forja, mal conseguindo juntar os tostões para o fim do mês. Mas ela, a Beatriz, parecia não pertencer àquele lugar. Era destemida, mantinha as costas direitas e tinha um olhar claro, e nunca baixava os olhos perante ninguém, nem mesmo perante aqueles que toda a cidade receava.
A sua beleza era comentada em cada esquina, mas ainda mais se falava do seu carácter. Diziam que nem por todo o ouro do mundo ela se tornaria boneca de alguém, muito menos dele.
O chefe, o senhor Valentim, começou por fazer o que sempre fazia. Enviava presentes caros, joias, sedas raras, oferecia somas de dinheiro que poderiam mudar a vida da sua família. O ferreiro mantinha-se em silêncio, mas a rapariga, Beatriz, devolvia tudo. Nunca gritou, nem fez cenas, dizia simplesmente, com uma calma que era mais cortante que um grito, que não estava à venda. Isso irritava-o mais que qualquer insulto.
Foi então que ele decidiu quebrá-la de outra maneira. Através do medo.
Numa noite, os seus homens apanharam-na na rua. Ninguém interveio. As pessoas viraram as caras, fingindo não ver. Levaram-na para as redondezas da cidade, para um velho canil de cimento. Era lá que mantinham os cães, animais sobre os quais corriam histórias terríveis. Treinavam-nos especificamente para a agressão. Mal eram alimentados, só comiam carne crua, e só conheciam um comando: atacar sem parar.
O senhor Valentim estava lá, a observá-la como se tudo já estivesse decidido.
— Ou és minha, ou mando-te para dentro — disse ele, com voz tranquila, acenando com a cabeça na direção do canil.
Ela estava pálida, as mãos tremiam-lhe, mas a voz não falhou.
— Prefiro morrer do que viver ao teu lado.
Foi o suficiente.
O senhor Valentim fez um senequio quase impercetível com a mão e empurraram-na para dentro. A porta pesada fechou-se com um ruído surdo.
À sua volta, já se tinha juntado uma pequena multidão. Tinham vindo como se fosse um espetáculo. Uns olhavam com curiosidade, outros com horror, mas ninguém se foi embora. Todos esperavam.
Os cães mantiveram-se à distância, de início. Três animais enormes avançaram lentamente, com as cabeças baixas. Os seus corpos estavam tensos, os músculos à vista, a baba escorria das bocas. A Beatriz deu um passo atrás, mas encostou-se à parede fria. Não tinha para onde fugir.
Um dos cães rosnou e lançou-se para a frente.
O público conteve a respiração. E no segundo seguinte, aconteceu algo que deixou toda a gente completamente horrorizada.
Mas no último instante, o cão parou. O rosnido transformou-se noutra coisa, incompreensível. Aproximou-se lentamente e… baixou a cabeça.
O segundo cão também se aproximou, rodeou-a, farejou-a e, de repente, pôs-se a ganir baixinho. O terceiro sentou-se, sem a tirar os olhos de cima dela.
A Beatriz manteve-se imóvel, sem compreender. Não gritou, não tentou fugir. As suas mãos desceram lentamente e um dos cães tocou-lhe suavemente a palma da mão com o focinho.
No canil, instalou-se um silêncio estranho.
Passados alguns segundos, os cães já não pareciam animais prestes a despedaçar uma presa. Cercaram-na, mas não para atacar. Um deitou-se aos seus pés, outro colocou-se ao seu lado, como a protegê-la de alguém, e o terceiro olhava para a multidão com uma expressão que sugeria ser ali que estava o perigo.
As pessoas começaram a sussurrar atrás da vedação. Alguém recuou.
O senhor Valentim franziu a testa. Aquilo não fazia parte do seu plano.
— Avante! — gritou ele, ordenando.
Mas os cães nem sequer se mexeram. Um deles virou lentamente a cabeça na sua direção e rosnou. Não para ela. Para ele.
A multidão ficou paralisada.
E naquele momento, ficou claro que os verdadeiros animais desta história não eram os que estavam enjaulados. Aprendi hoje que a coragem pura, mesmo no maior desespero, tem um poder que nem a maior ferocidade consegue tocar. Até as bestas a reconhecem. É uma lição que levo para a vida.