E o arrogante riu até que uma voz aterrorizante respondeu do outro lado da linha.

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A sala de reuniões no 42.º andar da Torre Almeida, situada no coração do distrito financeiro da Baixa, em Lisboa, tinha sido projetada com um único propósito: fazer com que qualquer pessoa que ali entrasse se sentisse insignificante. As janelas do chão ao teto ofereciam uma vista panorâmica do trânsito intenso e da cidade, enquanto lá em cima reinava um silêncio absoluto. O ar estava saturado com o aroma de café especial, couro italiano e loções que custavam mais do que o salário anual de um trabalhador médio. A imensa mesa de mogno refletia a luz fria do teto. À sua volta, estavam sentadas onze pessoas que tinham construído as suas carreiras projetando uma segurança implacável, mesmo quando estavam à beira do abismo.

João Almeida presidia à mesa. Aos 53 anos, com ombros largos, têmpras prateadas e um fato de tons de cinzento-chumbo feito por medida, possuía aquela postura relaxada e arrogante dos herdeiros portugueses. Parecia o tipo de homem que nunca tinha ouvido a palavra “não”. À sua volta, os executivos do Grupo Almeida e os investidores da Capital Atlântico finalizavam os detalhes da compra da Quinta da Serra Verde. O negócio vinha a ser preparado há meses. Relatórios ambientais, estudos de solos em zonas cobiçadas, subornos disfarçados de lobby e papelada suficiente para enterrar qualquer dúvida. Estavam a 48 horas de concluir a aquisição de 1200 hectares de terra fértil, prontos para se transformarem no empreendimento imobiliário e turístico mais exclusivo do país.

Tudo corria na perfeição até que a pesada porta de carvalho se abriu. Não foi uma entrada dramática. Simplesmente apareceu Miguel, um jovem guarda de segurança privada, com o rosto pálido e suado, procurando desesperadamente o olhar de Beatriz, a assistente executiva de João. Beatriz saiu para o corredor. Segundos depois, voltou com uma expressão de incerteza que quebrou a sua impecável fachada profissional. Aproximou-se de João e sussurrou-lhe ao ouvido. Uma senhora idosa tinha entrado da rua a exigir falar com ele. Os guardas tentaram expulsá-la, mas ela agarrou-se às cancelas, avisando que o assunto envolvia as terras da Serra Verde.

João ergueu uma sobrancelha, quase divertido com a insolência. “Que tipo de senhora?”, perguntou em voz alta. Beatriz engoliu em seco. “Uma senhora idosa, sozinha. De aspeto muito humilde, senhor.” Miguel, o banqueiro principal, olhou para o relógio com irritação. Mas João sorriu, mostrando os seus dentes brancos e perfeitos. “Deixem-na entrar”, ordenou. Queria um pouco de entretenimento antes de assinar o cheque da sua vida.

A porta abriu-se novamente. Ela entrou com passos lentos, mas inquebrantáveis. Era uma mulher de cerca de 71 anos, de pele morena, com rugas profundas no rosto que denunciavam décadas de sol e sofrimento. Usava um casaco negro desgastado por inúmeros invernos, sapatos gastos e um xaile tradicional escuro cuidadosamente disposto sobre os ombros. No braço direito, segurava uma velha saca de pano daquelas que se usam para ir ao mercado. Não encaixava naquele santuário de vidro e soberba, e precisamente por isso, todos cravaram os olhos nela.

Ela parou a poucos metros da cabeceira da mesa, fixando o seu olhar diretamente em João.

— Senhor Almeida — disse. A sua voz era baixa, mas ressoou com uma firmeza que cortou o ar condicionado. — Sou Maria Bautista.

— Dona Maria — respondeu João, recostando-se na sua cadeira de pele e cruzando os braços, a desfrutar do teatro. — Em que posso servi-la nesta bela manhã? Veio vender artesanato?

— Venho parar a compra da Quinta da Serra Verde — sentenciou ela, sem pestanejar. — Esses 1200 hectares que está prestes a roubar. Não pode continuar. Essa zona nunca esteve legalmente disponível para venda.

Uma gargalhada coletiva ecoou na sala. Os executivos olharam-se com troça. Leonardo, o diretor legal do grupo, juntou as mãos sobre a mesa e falou-lhe como se ela fosse uma criança. “Senhora, com todo o respeito, todo o historial da propriedade foi validado pelas melhores conservatórias da cidade. Não há erros.”

— Registos corruptos — corrigiu Maria, sem alterar o volume da voz. — A escritura original de 1961 contém uma cláusula de reversão no pacto territorial. As condições nunca foram encerradas. A transferência de 1987 foi uma fraude montada com assinaturas falsificadas e testas-de-ferro.

A sala ficou em silêncio por um instante. Não por acreditarem nela, mas porque a precisão dos seus dados técnicos era arrepiante vinda de alguém com o seu aspeto. João inclinou-se para a frente, perdendo um pouco o sorriso. “Temos um exército de advogados, senhora. Se houvesse algo, eles teriam encontrado.” Abriu as mãos num gesto de falso desamparo. “Ligue para quem quiser, se quiser reclamar. Ligue ao presidente, ao Papa. Garanto-lhe, isso não vai mudar absolutamente nada.”

As risadas educadas e cruéis encheram novamente a sala. Maria permaneceu estoica. Esperou que o eco das trocas se apagasse. Depois, meteu a sua mão calejada na saca de mercado, tirou um telemóvel velho, com teclas gastas, marcou um número de memória e pressionou o botão de chamada.

A sala observava-a com sorna, à espera do remate da piada. Mas ninguém imaginava quem ia atender. Ninguém podia antecipar a tempestade perfeita que tinha acabado de se desencadear. Não vão acreditar no que está prestes a acontecer…

O telefone tocou 1, 2, 3 vezes em alta-voz. A atmosfera na sala tinha relaxado novamente. João virou a sua cadeira, pronto para ordenar à segurança que escoltasse a mulher para fora do edifício, dando por terminado o teatro. Mas no canto mais afastado da mesa, o doutor Antero Silva, um consultor de 74 anos com quatro décadas de experiência em direito imobiliário corporativo, sentiu o sangue gelar-se-lhe nas veias. A sua mão, que segurava uma caneta de ouro, paralisou. O apelido Bautista tinha acabado de detonar uma recordação obscura e profundamente enterrada na sua memória.

Ao quarto toque, alguém atendeu. Maria levou o velho aparelho à orelha. A sua postura manteve-se rígida, mas a sua voz adotou um tom quente, quase maternal, contrastando brutalmente com a frieza dos executivos.

— Filho, é hoje. Estão prestes a assinar — disse Maria em voz baixa. Ouviu a resposta do outro lado da linha, assentiu levemente e acrescentou: — Sim, ele está aqui.

Miguel, o diretor de aquisições, inclinou-se para Leonardo e murmurou uma piada classista que provocou uma nova ronda de risos abafados. João, já a perder a paciência, ergueu a voz o suficiente para impor autoridade. “Quem é, senhora? O governador? O procurador?”

Maria não respondeu imediatamente. Baixou o telefone da orelha, olhou para João nos olhos e, com uma calma que paralisava, estendeu-lhe o dispositivo através da imensa mesa de mogno.

— Atenda — ordenou ela.

João soltou uma risada nasal. Levantou-se com pachorra, ajustou os botões do casaco e caminhou até ela como quem se aproxima para receber um folheto na rua. Pegou no telemóvel com a ponta dos dedos, simulando nojo, e levou-o à orelha.

— Estou — disse João, com oseu característico tom de superioridade.

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