O Sequestro Relâmpago na CalçadaDe repente, o barulho da moto se perdeu na distância, deixando apenas um silêncio ensurdecedor e um vazio imenso.

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Um motociclista arrancou o meu filho de quatro anos do passeio e meteu-o na garupa da mota tão depressa que eu nem cheguei a ver o que aconteceu.

Um segundo, o meu menino estava a dar-me a mão à porta da pastelaria. No seguinte, tinha desaparecido. Ficou só um vazio no lugar onde os dedos dele tinham estado.

Ouvi a Harley antes de a ver. O rugir do motor a afastar-se, com o meu filho agarrado a seu lado como uma pasta.

Eu corri. Corri de sapatos sociais pelo meio da Avenida da Liberdade, a gritar o nome dele. Perdi um sapato. Não parei.

A mota já estava a dois quarteirões de distância quando cheguei ao cruzamento. Vi-a a desaparecer na curva seguinte e senti qualquer coisa a partir-se dentro do meu peito.

Uma senhora à porta da pastelaria estava ao telefone a chamar a polícia. Disse-me para me sentar. Disse-me para respirar. Afastei-a e continuei a correr.

Corri até os pulmões se esgotarem. Corri até não sentir as pernas. Passei a correr por pessoas que apontavam, que tentavam agarrar-me, e pessoas que desviavolhar.

Depois, ouvi sirenes. Três carros da polícia passaram por mim a alta velocidade, na mesma direção. Segui-os até a um parque de estacionamento, a oito quarteirões de distância, onde já se juntava uma multidão.

O motociclista estava sentado no lancil. O meu filho estava no colo dele, a comer um gelado que um paramédico lhe tinha dado, completamente tranquilo.

Caí de joelhos à frente deles. Tentei falar, mas não saiu uma palavra.

O motociclista olhou para mim com algo que não consegui decifrar. Depois, apontou na direção de onde eu tinha vindo.

“Senhor, volte lá para trás até à pastelaria e olhe para o que resta do passeio onde o seu filho estava. O homem no carro cinza que subiu o lancil a cem quilómetros por hora chamava-se Pedro Marques. Bêbado às onze da manhã. Terceira vez a conduzir embriagado. Em liberdade sob fiança da última.”

O motociclista disse isto sem se mexer. O meu filho nem sequer desviou os olhos do gelado.

Sentei-me ao lado deles, ali mesmo no parque de estacionamento. O alcatrão queimava através das minhas calças de fato e eu não quis saber. Puxei o meu filho para o meu colo e abracei-o com tanta força que ele começou a se remexer.

“Pai, estás a magoar-me.”

Soltei-o e beijei-lhe o alto da cabeça, tentando falar de novo. Não saiu nada excepto um som que não reconheci como a minha própria voz.

O motociclista levantou-se. Era mais velho do que eu pensava. Talvez sessenta e cinco anos. Barba grisalha até ao peito. Um colete de couro com emblemas que eu não percebia. Olhos que me olhavam, mas também me atravessavam.

“Vá lá para baixo,” disse ele, acenando com a cabeça na direção da avenida. “Os agentes vão querer a sua declaração. Vão querer a minha também. Depois tratamos do resto.”

Levantei-me com o meu filho ao colo. As minhas pernas não respondiam. O motociclista segurou-me pelo cotovelo e firmou-me, sem dar importância.

Voltámos para trás juntos. Oito quarteirões. Devagar. Eu carreguei o meu filho todo o caminho. O motociclista empurrou a Harley ao nosso lado, com uma mão no guiador.

As pessoas por quem passámos não paravam de olhar. Um pai com uma camisa social rasgada. Um homem descalço a carregar um miúdo de quatro anos. Um motociclista de barba grisalha a empurrar uma Harley. Devíamos parecer o desfile mais estranho da cidade.

A meio do caminho, o meu filho puxou-me o colarinho.

“Pai, o homem do capacete salvou-me do carro barulhento.”

Olhei para o motocilista. Ele não olhou para mim.

“Sim, filho. Salvou.”

“Ele é fixe, pai.”

“Sim, filho. É.”

O motociclista limpou a garganta. Continuou a andar.

Quando chegámos à pastelaria, percebi o que quase tinha acontecido.

O passeio onde o meu filho tinha estado estava destruído. Não danificado. Destruído. O betão estava partido em pedaços do tamanho de pratos. Um poste de iluminação estava dobrado a quarenta e cinco graus. A montra era um buraco. Vidro por todo o lado. Uma montra de amostras de bolos de casamento estava esmagada por aquilo que tinha sido um pneu.

O carro cinza ainda estava lá. Enterrado a meio da pastelaria. O condutor estava a ser levado para um carro-patrulha, com as mãos atrás das costas, a cabeça a abanar como se não soubesse onde estava.

O alcatrão onde os pés do meu filho tinham estado estava marcado com riscos de borracha e óleo.

Um agente aproximou-se e começou a fazer perguntas. Tentei responder. Não conseguia encontrar as palavras.

O meu filho acabou o gelado e mostrou o pauzinho ao motociclista.

“Homem do capacete, onde é que eu pôr isto?”

O motociclista pegou no pauzinho e meteu-o no bolso do colete sem dizer uma palavra.

O agente fez as perguntas de rotina. Que horas, que direção, o que vimos. Disse-lhe o que me conseguia lembrar, que não era muito. O meu filho estava a dar-me a mão. Tínhamos acabado de comprar dois croissants. Estava a ver o email durante dois segundos. Dois segundos. Talvez três. Tinha sentido o ar a mover-se ao meu lado. Tinha ouvido a mota. Tinha visto o meu filho a ser levado.

O agente anotou tudo.

Depois, virou-se para o motociclista.

“Senhor, o seu nome?”

“Henrique Valente.”

“Morada?”

“Tem-na no registo.”

“Agiu muito depressa, Sr. Valente. Onde é que estava quando viu o veículo?”

“Do outro lado da rua. À frente da loja de ferragens. Estava a observar a rua.”

O agente acenou com a cabeça devagar. “A observar a rua, senhor?”

“Pois. Faço isso.”

“Algo em particular que estivesse a observar?”

Henrique Valente olhou para o agente com aqueles olhos cinzentos que atravessavam.

“Condutores bêbados.”

O agente anotou sem comentar.

Quando terminou, entregou ao Henrique um cartão e disse-lhe que iriam contactá-lo para a declaração de testemunha. Disse-me para ligar à minha seguradora, ao pediatra e à minha mulher. Disse-me para levar o meu filho para casa.

O motociclista virou-se para sair.

Agarrei-lhe a manga.

“Espere.”

Ele parou. Não se virou.

“Nem sequer sei como agradecer.”

“Não precisa.”

“Preciso. Tenho de o fazer. Não há nada que eu possa…”

“Senhor.” Virou-se. Olhou para mim. O rosto era amável, mas os olhos estavam cansados. “Não me deve nada. Leve o seu filho para casa. Segure nele. Diga à sua mulher. Isso é tudo o que me deve.”

Libertou a manga.

“Henrique, por favor. Ao menos diga-me onde o posso encontrar. Quero que o meu filho cresça a conhecer o homem que…”

“Oficina do Francisco na Rua Onze. Trabalho lá de terça a sábado. Se me quiser encontrar, procure-me lá.”

Montou na Harley. O motor pegou com um som que eu nunca mais voltaria a ouvir sem pensar no meu filho estar vivo.

Saiu do parque de estacionamento e desapareceu pela avenida abaixo.

Fui para casa. A minha mulher gritou quando nos viu. Caiu de joelhose cresceu sempre a saber que a sua vida, e a minha, devemos a um homem de barba grisalha numa velha Harley, que viu um carro errado na hora errada e agiu sem pensar.

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