Esconder-se no Provador Antes do Grande DiaAli descobri que o vestido era na verdade um presente inesperado.

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Parte 1: O Fato do Pai

Chamo-me Tomás Valente, tenho setenta e dois anos e julguei que já nada me podia partir.

Nasci num quarto de zinco na Amadora, fui pedreiro antes de empresário, carreguei sacos de cimento com as mãos abertas em sangue, e com essas mesmas mãos ergui uma construtora que se tornou uma das maiores empresas imobiliárias de Lisboa.

Mas nada disso importava tanto como a Sofia.

A minha filha.

A minha única filha.

Desde que a mãe morreu, quando a Sofia tinha apenas seis anos, ela tornou-se a minha razão para respirar. Dei-lhe colégios privados, viagens, casa, carro, segurança. Se me pedisse a lua, eu procurava uma escada.

Por isso, quando me disse:

— Pai, tens que estar perfeito no meu casamento.

Eu obedeci.

Fui buscar um fato feito à medida na boutique da dona Lurdes, uma velha amiga que alugava uma das minhas lojas no Chiado. O fato custou uma fortuna, seda italiana, botões de madrepérola, corte impecável. Eu nunca teria gastado tanto em mim, mas a Sofia queria-me elegante para a entregar no altar.

Ao entrar, o sininho da porta soou suave.

Dona Lurdes ergueu o olhar e ficou pálida.

— Senhor Tomás… chegou cedo — sussurrou.

— Um bocadinho apenas. Que se passa? Parece que viu o diabo.

Ela olhou para a rua, depois para mim. De repente saiu de trás do balcão, pegou-me no braço e empurrou-me para os provadores.

— Esconda-se. Rápido.

— O que estás a fazer, Lurdes?

— O Rodrigo vem com a Sofia. Eles acham que saí para almoçar. O senhor tem que ouvir.

O sorriso morreu-me no rosto.

Meteu-me no último provador e fechou a cortina de veludo. Mal havia uma fresta. Senti-me ridículo. Eu, Tomás Valente, um homem que tinha negociado com bancos, sindicatos e ministros, escondido como um miúdo traquinas.

Então soou o sininho.

— Finalmente a velha foi-se embora — disse uma voz masculina.

Era o Rodrigo, o meu futuro genro. À minha frente falava sempre com respeito, quase humildade. Agora soava arrogante, frio.

— Tens a certeza que o meu pai não está? — perguntou a Sofia.

A minha Sofia.

— Calma, amor. Temos vinte minutos.

Ouvi passos. Pararam em frente ao meu provador.

— Já conseguiste que o velho assine a procuração notarial? — perguntou o Rodrigo.

Senti que o ar desaparecia.

— Ainda não — respondeu a Sofia, irritada —. Diz que quer que o advogado dele reveja.

— Tens que pressioná-lo. Depois do casamento liquidamos a construtora, vendemos os terrenos e vamos para a Suíça. São milhões, Sofia.

— E o meu pai?

Por um segundo, o meu coração quis acreditar.

O Rodrigo riu-se.

— O teu pai tem setenta e dois anos. Declaramo-lo mentalmente incapaz. Conheço um médico que assina o que for. Depois metemo-lo num lar barato. Em seis meses ninguém se lembra dele.

Esperei que a Sofia gritasse, que lhe desse uma bofetada, que dissesse: “Ele é o meu pai!”

Mas ela suspirou apenas.

— Está bem. Mas não o quero cuidar. Deprime-me. Já estou farta de fazer de filha obediente.

Senti algo partir-se dentro de mim.

A menina que eu carregara com febre, que adormecia abraçada à minha camisa quando tinha saudades da mãe, a que eu amara mais que a minha própria vida… queria vender-me como se fosse um móvel velho.

Dei um passo para a cortina, pronto para sair e gritar-lhes na cara. Mas a dona Lurdes apareceu, agarrou-me o pulso com força e abanou a cabeça. Numa caderneta escreveu:

“Se sair agora, vão dizer que está louco. Espere. Junte provas.”

Ela tinha razão.

Engoli a minha raiva.

E naquele provador morreu o pai ingénuo.

O homem que saiu vinte minutos depois já não era um pai empolgado por um casamento. Era um velho construtor a preparar uma demolição.

Liguei ao Joaquim Salgado, um investigador privado que conhecia desde os meus anos difíceis.

— Quero tudo sobre o Rodrigo Martins — disse-lhe —. Dívidas, amantes, empresas falsas, inimigos. Tudo. Para amanhã.

— É assim tão grave?

Olhei para o fato pendurado à minha frente.

— Pior. A minha filha está prestes a casar-se com um lobo.

Parte 2: O Veneno no Café

O Joaquim marcou-me encontro no dia seguinte num escritório velho perto de Intendente. Sobre a mesa dele havia fotografias, extratos bancários e uma pasta grossa.

— Tomás, senta-te.

Não me sentei.

— Fala.

— A empresa tecnológica do Rodrigo não existe. É uma caixa de correio no Porto. Deve quase duzentos mil euros a agiotas perigosos. E isso não é o pior.

Puxou uma fotografia tirada de noite. O Rodrigo aparecia num beco a entregar dinheiro a um homem de bata branca.

— Este é o doutor Silva. Perdeu a licença por vender medicamentos controlados. O Rodrigo comprou-lhe uma substância que pode provocar uma paragem cardíaca. Num homem da tua idade pareceria morte natural.

Fiquei a olhar para a fotografia.

Lembrei-me da noite anterior, quando o Rodrigo me serviu vinho com demasiada insistência.

Lembrei-me do seu sorriso.

Não me queria mandar para um lar.

Queria enterrar-me.

— Vamos à polícia — disse o Joaquim.

— Ainda não.

— Tomás…

— Se o prenderem hoje, a Sofia vai achar que o fiz por despeito. Preciso que ela o veja com os próprios olhos.

Naquela manhã, ao voltar a casa, o Rodrigo estava na minha cozinha a preparar café.

— Bom dia, pai — disse com um sorriso perfeito —. Fiz-te a tua mistura favorita.

A chávena fumegava à minha frente.

O café cheirava forte, delicioso, mortal.

O Rodrigo não pestanejava. Esperava.

Agarrei a chávena com a mão trémula. Fingi uma tontura.

— Acho que… não me sinto bem.

A chávena caiu ao chão e partiu-se. O café manchou a carpete como sangue escuro.

Por um instante, o Rodrigo perdeu a máscara. Vi fúria pura no seu rosto.

— Não faz mal — disse, apertando os dentes —. Faço outra.

Entrou o Capitão, o meu velho cão rafeiro, a abanar a cauda. Antes que eu o pudesse impedir, lambeu o café derramado.

— Capitão, não!

Afastei-o, mas já era tarde.

Cinco minutos depois, caiu de lado, em convulsões.

Agarrei-o ao colo e saí a correr. Na clínica veterinária confirmaram o que eu já sabia: intoxicação por uma substância cardíaca.

O Capitão sobreviveu por milagre.

Chorei sentado numa cadeira de plástico, com as mãos manchadas de saliva e medo. Se eu tivesse bebido aquele café, a Sofia teria enterrado o pai dois dias antes do seu casamento.

Naquela noite, o Joaquim conseguiu uma gravação. O Rodrigo falava ao telefone com uma mulher chamada Verónica.

— O velho já quase cai — dizia ele —. Depois do casamento liquido tudo e mando-te o dinheiro.

— E a noiva?

O Rodrigo soltou uma risada cruel.

— A Sofia é fácil. É obcecada por mim. Se for chata, tenho vídeos íntimos gravados sem ela saber. Destruo-a nas redes e pronto.

Senti raiva, mas não por mim.

Pela Sofia.

Sim, ela me tinha traído. Sim, tinha sido egoísta, ambiciosa,Ela tomou um gole do café, olhou-me nos olhos e sussurrou “Obrigada por não teres desistido de mim, pai”, e eu soube, finalmente, que a minha filha tinha acordado do seu pesadelo.

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