O Brilho Estranho Que Não Era DelaAqueles brincos, embora belos, nunca mais foram usados.

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Hoje, por volta das onze da manhã, a Catarina regressou a casa após uma viagem de trabalho de quatro meses.

Não telefonou a avisar o marido nem o filho. Na mala, trazia alguns legumes, um bocado de carne e uns petiscos de que os dois gostavam; a Catarina queria apenas preparar-lhes uma refeição quentinha, como um pequeno-almoço especial.

Enquanto subia as escadas do prédio, o silêncio surpreendeu-a e deixou-a paralisada. Não se ouvia música, nem televisão, absolutamente nada. Bateu à porta uma vez. Depois, bateu com mais força. Ninguém atendeu.

A Catarina franziu a testa.

“Estes dois…”, murmurou.

Aproximou-se da porta e voltou a bater:
“Toc, toc, toc…”

Estranhamente, ninguém veio abrir, embora fossem quase onze da manhã. Esperou um instante, mas não viu nem o marido nem o filho a saírem para abrir.

Então, a Catarina começou a procurar nas suas coisas a chave de casa. Como não a usava há algum tempo, não demorou muito a encontrá-la. Catarina abriu a porta.

A primeira coisa que a surpreendeu foi a casa estar limpa e arrumada de uma forma estranha, ou como imaginava, um sítio que devia estar desarrumado pela falta de uma mão feminina.

A Catarina avançou, colocando suavemente as sacas em cima da mesa. Foi então que os viu.

Um par de sapatos femininos, de salto baixo e delicados, encostados à parede.

Ela ficou gelada. Não eram os seus. Sabia-o com uma certeza firme, quase física. Nunca usara sapatos de salto baixo. Um pensamento cruzou-lhe a mente:

“Terão os dois planeado comprar-me uma prenda surpresa?”

A Catarina aproximou-se e pegou nos sapatos para os examinar. Pareciam ter sido usados… e, sobretudo, eram diferentes do estilo que preferia. Mais chamativos, mais estranhos.

A Catarina engoliu em seco.

De quem seriam…?

O seu coração começou a bater mais depressa que o normal. Caminhou na direção do corredor, cada passo mais curto que o anterior, como se o chão pudesse desabar a qualquer momento.

A porta do quarto principal estava entreaberta.

Aproximou-se e empurrou a porta, gritando com voz alta:

“O que…?”

Parou.

A luz da manhã entrava, projetando sombras irregulares na cama. Os lençóis estavam enrugados. Havia duas pessoas. Ou, pelo menos, foi o que pareceu à primeira vista. A Catarina não sabia bem o que estava a ver. Não de imediato.

Havia qualquer coisa que não estava bem.

Deu mais um passo.

O silêncio deixou de ser silêncio. Era outra coisa. Mais pesado. Mais denso.

“Quem está aí…?”

Ninguém respondeu.

Então, um detalhe. Pequeno. Significativo. Mas suficiente.

A Catarina sentiu as mãos a tremer. Deu mais um passo, quase sem se aperceber. De repente, sentiu dificuldade em respirar.

E, naquele momento, percebeu o que estava prestes a descobrir…

Não ia ser algo pequeno.

A Catarina moveu-se para a beira da cama. Não gritou. Ainda não. Havia algo no seu peito que a impedia, como se o ar estivesse preso.

Estendeu a mão.

Hesitou.

Retirou-a.

Depois, quase com raiva de si mesma, agarrou a ponta do lençol e puxou-o de repente.

Uma madeixa de cabelo. Longo. Escuro. Não era o seu.

Era tudo.

Não precisava de ver mais.

O seu corpo enrijeceu, como se alguém lhe tivesse substituído o sangue por vidro. Por um segundo, dois, três… nada. Nenhum pensamento. Nenhuma lógica. Apenas uma sensação crua, direta, quase animal.

Então, viu.

Uma onda.

Quente. Roxa.

A Catarina largou o lençol como se estivesse a arder. Deu um passo atrás, depois outro. A sua respiração tornou-se ofegante. Não estava a chorar. Não estava a gritar. Era pior. Era aquele tipo de silêncio que vem antes de se partir algo.

Virou-se.

Saiu do quarto.

Caminhou até à sala sem olhar para trás. Cada passo mais firme, mais pesado. A casa, tão arrumada minutos antes, agora parecia-lhe uma mentira bem-disposta.

Olhou em redor.

Os seus olhos fixaram-se na vassoura, encostada à parede.

Dirigiu-se a ela.

Agarrou-a.

Não a levantou imediatamente. Segurou-a durante alguns segundos, como se aquele objeto simples precisasse de se tornar em algo mais, uma extensão do que sentia.

“Claro… claro…”, murmurou, quase sem voz.

As ideias amontoavam-se. Imagens, suspeitas, memórias que agora pareciam suspeitas. Há quanto tempo? Desde quando? Quem era aquela mulher? Na sua cama? Na sua casa?

Apertou a vassoura com mais força.

A madeixa rangeu levemente sob a sua mão.

Voltou ao corredor.

Cada passo era agora diferente. Já não eram curtos. Eram decididos. Rígidos. Como se cada pisada fosse uma resposta.

Parou em frente à porta.

A sua respiração estava pesada.

Ergueu a vassoura.

E, nesse preciso momento—

Uma porta abriu-se atrás dela.

“Catarina?”

A voz.

Conhecia-a demasiado bem.

Virou-se.

O seu marido estava ali, a sair do quarto do filho, com o cabelo despenteado, o rosto ainda marcado pelo sono.

Demorou menos de um segundo a perceber o que vira.

Catarina, com a vassoura erguida.

A porta do quarto aberta.

Silêncio.

“Catarina, espera!”

Atirou-se para ela.

Demasiado rápido.

Agarrou-lhe o braço no momento em que ela começava a baixar a vassoura.

“Larga-me!” gritou a Catarina, agora com a voz a falhar e carregada de emoção.

Ele não a largou.

“Ouve-me, por favor!”

“Ouvir-te?! O que é que eu tenho que ouvir?!”

Tentou libertar-se, mas ele segurou-a com mais força, sem a magoar, mas sem ceder.

“Matias!” gritou na direção do outro quarto. “Acorda! Agora!”

Um movimento dentro do quarto.

Ruído de lençóis.

Uma voz sonolenta.

“O que se passa…?”

A Catarina parou de lutar por um segundo.

Esse segundo foi suficiente.

O Matias apareceu à porta, despenteado, confuso, ainda meio adormecido.

E atrás dele—

A mulher.

A mesma.

O seu cabelo escuro caía sobre os ombros, os seus olhos de repente abertos, desorientados.

A Catarina sentiu que algo dentro dela se voltava a partir.

Mas diferente.

Não era a mesma fúria de há segundos atrás.

Era… algo mais complicado.

Mais incómodo.

Mais difícil de suportar.

“Mãe…?” disse o Matias, a voz ainda presa entre o sono e a surpresa.

Ninguém falou durante alguns segundos.

Ninguém sabia por onde começar.

A Catarina parou de lutar.

A vassoura desceu lentamente.

O seu marido libertou-lhe cuidadosamente o braço, como se receasse que qualquer movimento brusco fizesse tudo recomeçar.

“Vamos…” disse ele, com a voz mais baixa agora. “Vamos para a sala. Todos.”

A Catarina não respondeu.

Mas caminhou.

Sentou-se na cadeira, rígida, sem olhar para ninguém.

O Matias e a rapariga sentaram-se juntos, quase a tocar-se, como se o espaço entre eles os pudesse proteger de algo.

O marido de Catarina ficou de pé durante alguns segundos, depois sentou-se também, mas na ponta, ainda quieto.

O ar estava pesado.

Denso.

“Catarina…” começou ele.

Ela ergueu a mão.

“Não.”O seu marido limpou a garganta e disse: “Achámos que seria uma boa ideia… ela não tem família por perto e nós… bem, nós queríamos ajudar.”

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