O jovem sem-abrigo, com os dedos sujos a agarrarem-se às suas próprias calças rasgadas, não baixou o olhar. A coragem que lhe faltava no corpo, magro e frágil, transbordava na sua voz trémula mas firme.
“A sua filha não está doente… foi a sua noiva que lhe rapou a cabeça”, disse ele, a sua respiração ofegante a cortar o ar pesado da tarde.
O Sr. Eduardo Silva empurrava a cadeira de rodas da sua filha pelos caminhos de calçada do Jardim da Estrela. O som seco das folhas de outono a serem esmagadas pelas rodas de metal era como um eco da sua própria dor. Um ruído que martelava, insistente, amplificando o silêncio pesado que se instalara entre os dois.
Carolina, a sua menina de dezassete anos, já não era a mesma.
A rapariga que costumava correr, a rir, pelos jardins de Lisboa, agora mal conseguia manter a cabeça erguida. O seu cabelo… aquele cabelo castanho, longo e brilhante, de que tanto cuidava… tinha desaparecido. A sua cabeça estava rapada. Um soro pendia do lado da cadeira de rodas, e a sua pele, pálida como a cera, fazia o Sr. Eduardo sentir a vida a escapar-se-lhe por entre os dedos.
—Aguenta, minha flor… — sussurrou ele, a voz carregada de um cansaço que lhe vinha da alma. — Falta pouco… já vais ficar melhor.
Mas nem ele próprio acreditava no que dizia.
Foi então que um som abrupto interrompeu a quietude.
Passos rápidos… descalços… desajeitados.
Um miúdo surgiu de trás de um velho plátano, magro, sujo, com a roupa em farrapos e os olhos cheios de um medo antigo… mas também de uma urgência profunda.
Parou diante deles, ofegante.
E, sem pensar, lançou a frase que iria mudar tudo:
—A sua filha não está doente!… — exclamou, a voz a rasgar-se. — Foi a sua noiva… ela é que lhe cortou o cabelo!
O mundo do Sr. Eduardo parou.
Literalmente.
As suas mãos crisparam-se no apoio da cadeira. O coração bateu-lhe no peito com uma força brutal, como se quisesse fugir.
—O que… o que estás a dizer, rapaz? — murmurou, mal conseguindo falar.
Carolina ergueu o olhar pela primeira vez em dias.
Algo… algo se acendeu no fundo dos seus olhos.
Esperança?
Medo?
Memória?
—Eu vi, senhor… — disse o miúdo, engolindo em seco. — Eu vivo atrás da sua casa… bem… escondo-me lá… e uma noite… eu vi-a…
Antes que pudesse terminar, uma voz cortou o ar como uma faca.
—Eduardo, não lhe dês ouvidos!
Os saltos de Beatriz bateram no chão com força, enquanto se aproximava. Elegante, impecável… mas com o rosto tenso, quase desfeito.
—Este miúdo está a mentir — disse, agarrando o braço de Eduardo. — Quer dinheiro, de certeza. Sabes como é esta canalha.
O rapaz negou com a cabeça, com lágrimas a marejarem-lhe os olhos.
—Não, senhora… eu não minto… a menina sempre foi boa para mim… a mãe dela também…
Esse nome caiu como uma pedra.
A falecida mulher de Eduardo.
A única mulher que ele tinha verdadeiramente amado.
Carolina sussurrou, débil:
—Pai… eu… lembro-me de alguma coisa…
Beatriz inclinou-se, rápida, quase desesperada.
—Meu amor, estás confusa… são os efeitos da medicação…
—Que medicação? — interrompeu o miúdo, de repente.
O silêncio foi imediato.
O vento pareceu parar de soprar.
—Que médico é que a está a tratar, senhor? — perguntou o rapaz, a olhar diretamente para Eduardo. — Porque eu ouvi a senhora ao telefone… ela disse que esse médico tinha dívidas… de jogo…
O Sr. Eduardo sentiu o chão a desaparecer-lhe debaixo dos pés.
O médico…
O tratamento…
Os remédios…
Tudo… tinha sido escolha de Beatriz.
—Como sabes tu isso? — perguntou, a voz a tremer.
—Porque eu observo… — respondeu o rapaz. — Se não o fizer… não sobrevivo.
Beatzia soltou uma risada seca, falsa.
—Por favor… Eduardo, isto é ridículo. Vamos embora.
Mas desta vez…
Eduardo não se mexeu.
Pela primeira vez em semanas… olhou verdadeiramente para ela.
E algo não encaixava.
Demasiadas coisas não encaixavam.
—Pai… — sussurrou Carolina, apertando-lhe a mão. — Eu senti… como se alguém me tocasse na cabeça, uma noite…
Beatriz ficou tensa.
Só por um segundo.
Mas foi o suficiente.
O rapaz deu um passo em frente.
—Não é só isso, senhor… — disse em voz baixa. — Também a vi… a queimar o cabelo… no jardim… de madrugada…
O ar tornou-se pesado.
Irrespirável.
Eduardo virou lentamente a cabeça para a sua noiva.
—Beatriz… — disse, muito devagar. — O que se está a passar?
Ela não respondeu de imediato.
E esse silêncio…
Esse pequeno, maldito silêncio…
Foi mais aterrorizador do que qualquer palavra.
O rapaz voltou a falar, quase sussurrando:
—Se não me acredita… posso mostrar-lhe onde ela guarda as coisas…
Os olhos de Beatriz abriram-se, apenas um pouco… mas o medo já não se conseguia esconder.
E naquele instante…
O Sr. Eduardo percebeu algo que lhe gelou o sangue:
Talvez…
a sua filha nunca tivesse estado doente.
Talvez…
a estivessem a envenenar… alguém que vivia sob o seu próprio tecto.
Mas o pior ainda estava por vir.
Porque o que o rapaz sabia…
era apenas uma parte.
A mais suave.
A mais “inofensiva”.
A verdadeira escuridão…
ainda estava escondida dentro daquela casa.
E estava prestes a revelar-se.
O Sr. Eduardo não disse mais uma única palavra.
Apenas deu meia-volta.
—Vamos para casa… agora.
A sua voz já não era a de um homem confuso. Era a de um pai… à beira de descobrir algo que podia destruir tudo.
Carolina respirou fundo, agarrando-se à cadeira.
O rapaz hesitou por um segundo.
—Posso ir consigo, senhor?
Eduardo olhou para ele.
E assentiu.
—Se estiveres a mentir… vais arrepender-te.
Mas se estiveres a dizer a verdade… devo-te a vida da minha filha.
Beatriz engoliu em seco.
—Isto é uma loucura, Eduardo… estás a perder a cabeça por causa de um vadio…
Mas ele já não a ouvia.
A casa dos Silva estava em silêncio quando chegaram.
Demasiado silêncio.
Aquele tipo de silêncio que não traz paz… só suspeita.
—Leva-a para a sala — disse Eduardo ao rapaz.
—Chamo-me Tomás… — respondeu ele em voz baixa.
—Obrigado, Tomás.
Beatriz seguia-os, cada vez mais pálida.
—Eduardo, por favor… vamos falar… isto não é necessário…
Mas ele já subia as escadas.
Direto ao quarto principal.
Direto ao pequeno armário branco… aquele que sempre estivera trancado.
Aquele que ele nunca questionara.
—A chave — disse, estendendo a mão.
Beatriz recuou.
—Deixei-a lá em baixo…
—A chave, Beatriz.
Desta vez não era um pedido.
Era uma ordem.
As mãos dela tremiam enquanto tirava uma pequena chave dourada do seu colar.
O clique da fechadura soou… como um tiro.
Eduardo abriu a porta.
E o mundo… desmoronou-seE lá, numa gaveta escondida, Eduardo encontrou não só os frascos de veneno, mas também fotografias de outras crianças, anteriores a Carolina, todas com a mesma história trágica que acabara de escapar.