Motociclistas Cercam Orfanato para Impedir Despejo de Crianças no Natal

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Numa noite de Natal, duzentos motociclistas cercaram um orfanato quando o agente da autoridade tentou despejar vinte e três crianças. O que eles não sabiam era que eu era o juiz que assinou a ordem de despejo.

Chamo-me Juiz Eduardo Soares e estou no tribunal há vinte e dois anos. Tomei milhares de decisões. Assinei inúmeras ordens. Destruí famílias e salvei outras. Mas nada—absolutamente nada—me preparou para o que aconteceu naquela noite de dezembro.

Estava no meu carro, em frente ao Lar Infantil Nossa Senhora de Fátima, observando a polícia municipal preparar-se para cumprir a ordem de despejo que eu assinara três dias antes. O banco executara a hipoteca. O lar tinha noventa dias para desocupar o prédio. Conseguiram prolongar o prazo para seis meses com recursos, mas a lei era a lei.

Vinte e três crianças, dos quatro aos dezassete anos, estavam prestes a ser separadas e enviadas para instituições diferentes por todo o distrito. Na véspera de Natal.

Eu não devia estar lá. Juízes não costumam observar a execução das suas ordens. Mas algo me trouxe àquele lugar. Talvez culpa. Talvez uma curiosidade mórbida. Ou talvez precisasse de ver, pela primeira vez, as consequências das minhas decisões.

Foi então que os ouvi. Um rugido baixo, como um trovão distante. Depois, cresceu. E cresceu.

Motas. Dezenas. Depois centenas.

Vieram de todas as direções, faróis cortando a escuridão de dezembro. Cercaram o orfanato num círculo imponente, motores a roncar, formando uma muralha de aço e couro entre os oficiais e a porta principal.

O Comandante Bruno Gonçalves, um homem que conhecia há quinze anos, estava parado com a ordem de despejo na mão, a olhar para o mar de motociclistas. Os seus seis agentes pareciam aterrorizados.

De repente, os motores calaram-se. Todos ao mesmo tempo. O silêncio era ensurdecedor.

Um homem desceu da moto e aproximou-se do Comandante. Era enorme—quase dois metros, barba grisalha até ao peito, colete de couro cheio de insígnias militares.

“Boa noite, Comandante,” disse calmamente. “Chamo-me Tiago Rocha, presidente do Moto Clube Guardiões. Viemos falar sobre este despejo.”

“Não há nada para discutir,” respondeu Gonçalves, embora a voz lhe tremesse. “Tenho uma ordem judicial assinada pelo Juiz Soares. Estas crianças têm de sair imediatamente.”

Tiago acenou lentamente. “Compreendo que o senhor tem um trabalho a cumprir. Mas compreende o que está prestes a fazer? É dia 24 de dezembro. Amanhã é Natal. Vai traumatizar vinte e três crianças que já perderam as famílias?”

“A lei é a lei.”

“Às vezes, a lei está errada.” Tiago olhou para os seus irmãos. “Não vamos sair daqui. Se quer despejar estas crianças, terá de passar por nós.”

Afundei-me no banco do carro. A situação escalava rapidamente. Um pedido de reforços e transformar-se-ia num caos.

Mas o Comandante não chamou reforços. Ficou ali, com a ordem a tremer-lhe na mão, a olhar para o orfanato por trás da muralha de motociclistas.

A Irmã Teresa, a freira de setenta anos que dirigia o lar, saiu para a varanda. “Por favor, sem violência. As crianças estão a ver pelas janelas.”

Olhei para cima. Vinte e três rostos pressionavam-se contra os vidros. Olhos arregalados. Alguns a chorar. Os mais velhos a segurar os mais novos.

“Irmã,” chamou Tiago. “Não estamos aqui para violência. Estamos aqui porque crianças não devem ficar sem casa no Natal.”

“Sr. Rocha,” disse o Comandante. “Respeito o que está a tentar fazer. Mas se não se dispersarem, terei de prender todos por obstrução.”

Tiago riu-se. Não com ironia, mas com tristeza. “Bruno—posso chamar-lhe Bruno? Vai prender duzentos veteranos três dias antes do Natal por protegerem órfãos? Como é que isso vai ficar nos telejornais?”

Foi então que reparei nas carrinhas da televisão. Três delas. Câmaras já a filmar.

O meu telemóvel tocou. O Presidente da Câmara. Deixei tocar.

Tocou novamente. O presidente do banco. Ignorei.

À terceira vez, era a minha mulher. Atendi.

“Eduardo, estás a ver as notícias? Há duzentos motociclistas à volta do lar! Estão a proteger as crianças que vais despejar!”

“Eu não estou a despejar ninguém. O banco é que está. Eu só assinei a ordem.”

“Eduardo Soares, desce lá e resolve isto já.”

“Não há nada que possa fazer. A ordem está assinada.”

“Então anula-a!”

“Não é assim que a lei funciona, Luísa.”

Ela desligou-me. Trinta e dois anos de casamento, nunca me tinha desligado na cara.

No orfanato, chegavam mais motas. A multidão crescia. Alguém montou colunas e pôs música natalícia. “Noite Feliz” ecoava no ar frio.

Uma repórter aproximou-se de Tiago. “Senhor, porque está aqui esta noite?”

Ele olhou diretamente para a câmara. “Porque alguém tem de defender crianças que não se podem defender sozinhas. O banco que está a executar esta hipoteca foi salvo com dinheiro dos contribuintes em 2008. Eles tiveram uma segunda chance. Mas não dão uma a estas crianças?”

“E a lei?”

“Às vezes, a lei protege os poderosos em vez dos indefesos. Quando isso acontece, pessoas boas têm de se opor. Hoje não. Não com crianças. Não no Natal.”

A multidão vibrou. Mais motociclistas chegaram. Alguns trouxeram chocolate quente para os agentes, que não sabiam se deviam aceitar.

Então, algo extraordinário aconteceu.

Pessoas comuns juntaram-se. Famílias do bairro. Lojistas. Professores. Ficaram ao lado dos motociclistas. Em uma hora, eram quinhentas pessoas a cercar o lar.

O Comandante Gonçalves estava ao telefone, a andar de um lado para o outro. Eu sabia com quem falava. O Presidente da Câmara. Talvez até o ministro. Superiores a dizer-lhe para resolver a situação sem que se tornasse num desastre.

Às nove da noite, Gonçalves aproximou-se novamente de Tiago. “Sr. Rocha, tenho um dever a cumprir.”

“E nós temos crianças a proteger.”

“O que quer de mim?”

“Dê-nos até à meia-noite. Três horas. Vamos fazer uns telefonemas. Tentar arranjar uma solução.”

Gonçalves olhou para os agentes. Para a multidão. Para as câmaras. “Três horas. Depois disso, chamo a Polícia de Intervenção.”

Tiago acenou e pegou no telemóvel. Em minutos, dezenas de motociclistas estavam a fazer chamadas. Ouvi fragmentos:

“Preciso de um advogado para uma injunção urgente…” “Alguém conhece alguém no banco que possa travar isto…” “Arranjem-me o contacto pessoal do ministro…”

O meu telefone tocou de novo. Desta vez, era a Juíza Conselheira Margarida Almeida, minha superior.

“Eduardo, que diabos se passa aí?”

“Não estou aí. Estou em casa.” A mentira saiu fácil.

“Não me enganes. A tua mulher ligou à minha. Estás a ver este desastre desenrolar-se. ResolveAquelas crianças ensinaram-me que, por vezes, o maior ato de justiça não está na lei, mas no coração daqueles que a defendem com humanidade.

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