Os olhos de Celeste deslizaram na sua direção, frios e levemente irritados, como os de alguém a notar uma mosca a pairar perto da sua taça de vinho.
As mãos de Imani tremiam, mas mesmo assim ela ergueu-as, com as palmas abertas como quem se rende.
“Pare com a leitura,” disse, a voz trémula e, ainda assim, de alguma forma clara. “Porque o herdeiro não está desaparecido.”
Mateo fitou-a. “O que estás a dizer?”
Imani engoliu em seco. O seu batimento cardíaco parecia demasiado grande para as suas costelas.
“Ele esteve trancado no subterrâneo.”
Por um segundo sem fôlego, até o ar pareceu parar.
O sorriso calmo de Celeste manteve-se, mas algo afiado moveu-se por detrás, como uma lâmina a girar dentro de uma bainha.
“Isso é um acusação absurda,” disse Celeste suavemente. “A Senhora Johnson tem estado sob stress. A dor faz coisas estranhas aos… funcionários.”
Imani não olhou para ela. Olhou para Mateo. Para o Senhor Álvares. Para os dois homens sentados junto à parede do fundo, calados em fatos simples, à espera de um sinal.
Então, ela proferiu o nome que fez o sorriso de Celeste finalmente fraquejar.
“Julian.”
Dezoito meses antes, Imani tinha entrado na mansão dos Mendonça com uma mala numa mão e um avental na outra, dizendo a si mesma que era apenas trabalho.
1. A Casa Que Não Soava Como um Lar
A mansão Mendonça erguia-se nos arredores de Lisboa como um museu privado. Grades altas. Sebes perfeitas. Janelas que refletiam o céu mas nunca revelavam o que estava dentro.
Imani chegou numa manhã brilhante que parecia demasiado alegre para aquele lugar. O taxista ajudou-a a descarregar a mala, olhou para a casa e murmurou, “Boa sorte,” da maneira como as pessoas dizem “boa sorte” quando querem dizer “que os deuses sejam gentis contigo”.
À porta, Celeste cumprimentou-a com um tipo de educação sem qualquer calor.
“Bem-vinda, Senhora Johnson.” O português de Celeste era nítido, educado, com um traço de algo estrangeiro. O seu aperto de mão foi firme e breve, como se o toque fosse uma transação.
Lá dentro, o ar cheirava a polimento a limão e a um silêncio caro. Os soalhos brilhavam de forma tão intensa que Imani se sentiu culpada por pisá-los, como se estivesse a deixar impressões digitais com os sapatos.
Hugo Mendonça estava na sala de estar, com uma manta de caxemira dobrada com precisão sobre os joelhos. Parecia um homem que outrora carregara salas inteiras nos ombros e que agora lutava para levantar o seu próprio copo.
“Obrigado por ter vindo,” sussurrou ele quando Celeste os apresentou. A sua voz era suave, mas vinha com uma fadiga embutida em cada sílaba.
Imani ofereceu um sorriso. “Obrigada por me receber, senhor.”
Hugo esticou a mão para a água, os dedos a tremer. Antes que a sua mão pudesse fechar-se em torno do copo, a mão de Celeste chegou mais depressa.
Não era prestável. Era possessiva.
Ela guiou o copo para a sua palma como se estivesse a alimentar um animal de estimação que lhe pertencia.
Imani sentiu-o então, um pequeno calafrio de desconforto. Não era nada que Celeste fizesse que fosse abertamente cruel. Era o que ela não fazia.
Ela não olhava para Hugo com preocupação. Ela olhava para ele como se fosse uma agenda.
“A medicação dele é à mesma hora todos os dias,” disse Celeste a Imani, a voz rápida. “Não improvise.”
Ela disse “improvise” duas vezes, como se a repetição a tornasse lei.
Imani assentiu. “Sim, senhora.”
O sorriso de Celeste tornou-se mais afiado, satisfeito.
Na primeira semana, Imani aprendeu o ritmo da casa. Refeições servidas a horas. Cortinas abertas precisamente às oito. Chamadas telefónicas que terminavam no preciso segundo em que Imani entrava numa sala. Visitas do médico marcadas sem perguntas, sem segundas opiniões.
E sempre, a mesma história quando o nome de Julian surgia.
Julian estava num colégio interno suíço.
Soava plausível, da maneira como as mentiras muitas vezes soam quando são construídas com dinheiro e confiança. Um rapaz de catorze anos na Suíça. Uma instituição prestigiada. Políticas rigorosas. Focado em “estabilidade”.
Só que a casa em si não se comportava como uma família com um filho no estrangeiro.
Não havia menções casuais a ele em passagem. Não havia fotografias atualizadas recentemente. Não havia risadas por algo que ele tivesse escrito. Não chegavam encomendas dele, nem postais afixados no frigorífico.
Julian existia apenas como uma frase que Celeste utilizava quando necessário, e depois guardava novamente, como uma faca devolvida a uma gaveta.
Mateo, o filho mais velho, tentava fingir que nada daquilo importava. Usava fatos mesmo em casa, como se pudesse ser chamado para uma reunião a qualquer momento. Aperta a mão no bolso, a chave copiada a arder-lhe na palma como um segredo prestes a ser revelado.