Estes malditos motoqueiros bloquearam a autoestrada inteira por uma hora e eu estava aos berros com eles até ver o que estavam a fazer.
Estava atrasada para a audiência de custódia da minha filha, a minha última oportunidade de tê-la de volta, quando uma centena de motas parou todas as faixas do trânsito e eu desejei que todos se afundassem.
Chamo-me Patrícia Almeida e costumava ser aquele tipo de pessoa que chamava a polícia por causa do barulho das motas. Que assinava petições para proibir concentrações de motociclistas. Que ensinava à minha filha que motoqueiros eram criminosos perigosos a evitar.
Naquela terça-feira de manhã, estava a conduzir na A1 com quarenta e cinco minutos para chegar ao tribunal. O meu ex-marido tentava ficar com a custódia total da nossa filha, Leonor. Dizia que eu era “instável” e “cheia de raiva”. Que não controlava o meu temperamento. O juiz dera-me uma última chance para provar que tinha mudado.
Se chegasse atrasada, perderia a Leonor para sempre.
Foi então que os vi. Uma fila enorme de motas ocupando as quatro faixas, abrandando, parando por completo. Pelo menos cem motoqueiros formando uma muralha de metal e couro.
Buzinei sem parar. Gritei pela janela: “SAIAM DA FRENTE! ESTOU A CAMINHO DO TRIBUNAL!” Outros condutores também buzinaram. Um tipo num BMW ameaçou chamar a PSP. Uma mulher num carro familiar chorava porque ia perder o voo.
Mas os motoqueiros não se mexeram. Estacionaram as motas na horizontal, atravessando a autoestrada. Um bloqueio total. Alguns ficaram de braços cruzados, impedindo qualquer um de passar.
Saí do carro e fui até eles. “Que raio se passa com vocês? Isto é ilegal! Não podem bloquear uma autoestrada! Há gente com emergências!” O motoqueiro mais próximo, um homem enorme com barba grisalha, nem me olhou. “Senhora, por favor, volte para o seu carro.”
“Não me diga o que fazer! Vou chamar a polícia!” Peguei no telemóvel e comecei a gravar. “Toda a gente precisa de ver isto! Bandidos a impedir pessoas inocentes!” Foi então que percebi o que realmente se passava.
No meio do círculo de motoqueiros, um idoso estava deitado no asfalto. As roupas sujas, rasgadas, claramente sem-abrigo. O seu carrinho de compras, cheio de latas e cobertores, estava tombado ao lado dele. Três motoqueiros faziam-lhe massagens cardíacas enquanto outro lhe segurava a mão.
“Vamos, irmão, aguenta,” dizia um deles, repetidamente. “A ajuda está a chegar. Não desistas.”
Os lábios do homem estavam azuis. Os olhos revirados. Ele estava a morrer ali, na autoestrada.
Um motoqueiro com emblemas médicos no colete verificou-lhe o pulso. “Nada. Continuem as compressões.” Outro estava ao telefone com o 112. “Precisamos da ambulância AGORA! Veterano, cerca de setenta anos, paragem cardíaca na A1, quilómetro 47.”
Baixei o telemóvel. “Ele está…?”
O motoqueiro de barba grisalha finalmente olhou para mim. “Veterano da Guerra Colonial. Vimo-lo desmaiar enquanto empurrava o carrinho pelo acostamento. Se não tivéssemos parado, ele já estaria morto. Se o trânsito continuar, a ambulância não consegue passar. Por isso paramos tudo.”
“Mas eu tenho tribunal—”
“Senhora, com todo o respeito, este homem serviu três comissões em África. Está a morrer numa estrada como um cão abandonado. O seu tribunal pode esperar.”
Quis discutir. Quis gritar sobre a minha emergência, a minha filha, a minha vida a desmoronar-se. Depois, olhei verdadeiramente para a cena diante de mim.
Estes “bandidos” choravam. Lágrimas escorriam por rostos cobertos de tatuagens enquanto se revezavam nas massagens cardíacas. Um deles tirou a própria camisa para pôr debaixo da cabeça do homem. Outro protegia-o do sol com o próprio corpo.
“Um minuto, dois minutos, três minutos…” Contavam há quanto tempo ele não tinha pulso.
“Não te atrevas a desistir, João!” O motoqueiro que fazia as compressões soluçava. “Eu não sobrevivi a Bula Atumba para te ver morrer numa porcaria de autoestrada!”
Eles conheciam-no. Aquele não era um qualquer sem-abrigo para eles.
Outro explicou aos condutores furiosos que se aproximavam: “Chama-se João Rodrigues. Furriel miliciano. Medalha Militar. Esteve sem casa há quinze anos. Tentámos arranjar-lhe um lar, mas ele não aceitava caridade. Dizia que não a merecia.”
“Todas as semanas, encontrámo-lo debaixo da ponte em Algés. Levávamos-lhe comida, roupa, dinheiro. Hoje era o dia em que íamos convencê-lo a mudar-se para a Casa do Combatente.” A voz dele quebrou. “Ele estava a caminho. A empurrar tudo o que tinha. Teve um ataque cardíaco a um quilómetro da segurança.”
Eu estava ali, de fato elegante, preocupada com a minha audiência, enquanto aqueles homens lutavam para salvar alguém que a sociedade tinha descartado.
“Quatro minutos, cinco minutos…”
O trânsito atrás de nós estendia-se por quilómetros. Centenas de carros. Mas os motoqueiros mantinham a linha. Ninguém passava.
Foi então que os ouvi. Sirenes. A ambulância avançava pelo acostamento, ultrapassando os carros parados.
“ABRAM CAMINHO!” Os motoqueiros moveram-se rapidamente, criando espaço para a ambulância.
Os paramédicos assumiram as compressões, ligaram soros, prepararam o desfibrilhador. “Há quanto tempo está sem resposta?”
“Seis, talvez sete minutos.”
“Alguma reação?”
“Nenhuma.”
Deram-lhe um choque. Nada. Outro choque. Nada.
“Mais uma vez,” disse o paramédico.
O terceiro choque. E então… “Tenho pulso! Fraco, mas está lá!”
Os motoqueiros explodiram em aplausos. Homens adultos a abraçarem-se, a chorarem abertamente. Carregaram João para a ambulância, e um deles entrou com ele. “Sou o contacto de emergência dele,” disse. “Não o vou deixar sozinho.”
À medida que a ambulância partiu, os motoqueiros afastaram as motas para o acostamento. O trânsito pôde fluir novamente. Tudo tinha durado vinte e dois minutos.
Fiquei ali, paralisada. O motoqueiro de barba grisalha aproximou-se. “Pode ir para o seu tribunal agora, senhora.”
“Eu…” Não conseguia falar. Sentia-me envergonhada. Profunda, completamente envergonhada.
“Era a minha filha. A audiência de custódia. Iria perdê-la se chegasse atrasada.”
Ele acenou. “Também perdi a minha filha. De outra maneira. Overdose. Há cinco anos.” Olhou para onde a ambulância tinha ido. “João perdeu o filho no Iraque. É por isso que vive na rua. Não conseguiu lidar com a dor. Desistiu de tudo.”
“Mas nós não desistimos uns dos outros. É isso que significa a irmandade. Não deixamos os nossos irmãos morrerem sozinhos à beira da estrada como lixo.”
Voltei para o carro. Cheguei ao tribunal com quinze minutos de atraso. O juiz não ficou satisfeito. “Senhora Almeida, isto é inaceitável. Sabia o quão importante era—”
“Mas, meritíssimo,” eu disse, com lágrimas nos olhos, “hoje aprendi que existem coisas mais importantes do que chegar a horas.”