Capítulo 1: O Navio a Afundar
O aquecedor do Restaurante do Miro rangia como um motor prestes a morrer, cuscando ar morno que não fazia frente ao frio cortante de Bragança lá fora. Eu estava atrás do balcão, as minhas mãos vermelhas e gretadas da água com lixívia, a olhar para o maço de envelopes vermelhos ao lado da caixa registadora.
*Aviso Final. Contas por Pagar. Urgente.*
“Paras de olhar para eles, Mariana. Eles não se pagam sozinhos.”
Eu estremeci, virando-me para ver a Verónica a entrar pelas portas batentes da cozinha. Ela não estava de avental. Nunca usava. Em vez disso, vestia um vestido justo de estampado de leopardo e um casaco de pele falsa que parecia ridículo às duas da tarde de uma terça-feira. O cheiro do seu perfume — algo pesado e floral — abafava o aroma do bacon a fritar.
“Só estava a separar o correio,” disse baixinho, enfiando uma madeixa de cabelo solta atrás da orelha. “O fornecedor ligou outra vez. Não há mais entregas até pagarmos a dívida dos ovos e do leite.”
A Verónica revirou os olhos, conferindo o seu reflexo no suporte de guardanapos. “Isso não importa, Mariana. Nada disso importa depois de amanhã.”
Senti um nudo frio a apertar-me no estômago. “O que acontece amanhã?”
“O construtor,” disse, passando um novo batom nos lábios. “A firma do senhor Mendes. Vão mandar um representante. Vou vender o restaurante.”
“Não podes,” sussurrei, as palavras a arranharem-me a garganta. “O pai fez-te prometer. No leito de morte, Verónica. Ele fez-te prometer que guardavas o restaurante para mim até eu fazer vinte e um anos.”
A Verónica fechou o espelho compacto com um estalo. Os poucos clientes no restaurante — na maioria habitués como o senhor Almeida no canto — ergueram os olhos dos seus cafés.
“O teu pai vivia num mundo de fantasia,” rosnou a Verónica, inclinando-se sobre o balcão para que só eu sentisse o cheiro a vinho rançoso no seu hálito. “Deixou-me com uma montanha de contas do hospital e um restaurante que mal dá lucro. Eu sou a tutora legal. Eu sou a executora. E estou fofinha de esfregar gordura das minhas unhas.”
Bateu com uma unha pintada no balcão. “Assinamos os papéis amanhã. Levamos o dinheiro. Eu mudo-me para o Algarve. Tu? Arranjas-te. És nova.”
Agarrei a borda do balcão para impedir as minhas mãos de tremerem. Aquele restaurante era tudo. Era o banquinho onde eu fazia os trabalhos de casa enquanto o pai cozinhava. Era o jukebox onde dançávamos ao som de Amália quando o restaurante estava vazio. Era o único sítio onde ele ainda me parecia vivo.
“Não vou assinar,” disse, com uma voz trémula mas firme. “O meu nome também está na escritura, Verónica. O pai pôs-me no testamento. Precisas da minha assinatura.”
Os olhos da Verónica estreitaram-se. “Não me desafies, menina. Pensas que tens poder? Não tens nada. És uma empregada de mesa de dezanove anos com três euros na conta.”
Antes que eu pudesse responder, o sino da porta tilintou violentamente. Uma rajada de vento, trazendo flocos de neve e o cheiro a escape, varreu o espaço.
Todos se viraram.
Na entrada estava uma figura que parecia uma tragédia. Um homem idoso, curvado, a tremer tanto que os ossos pareciam chocalhar. Vestia um casaco remendado com fita-cinta e botas abertas nos dedos, mostrando meias de lã molhadas. A barba estava emaranhada com gelo, e o rosto cinzento de exaustão.
O silêncio no restaurante pesou.
“Ótimo,” gemeu a Verónica alto, atirando as mãos aoE, enquanto a primeira lágrima lhe escorria pelo rosto, o velho homem sorriu e sussurrou: “O teu pai teria orgulho de ti, minha filha.”