A Faxineira que Aqueceu um Coração GeladoE aquele simples gesto de bondade reacendeu no homem mais rico a fé na humanidade que ele há tanto tempo havia perdido.

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Quarta-feira, 20 de Outubro

O rapazinho estava descalço, a tremer de frio, e ninguém lhe dava atenção. Até que uma mulher da limpeza, encharcada pela chuva, abriu a sua marmita — e um homem dentro de um carro preto viu tudo.

Eu, a Lívia, trazia comigo um embrulho com as sobras do jantar da casa onde limpo: um pouco de frango assado e duas batatas cozidas. O autocarro avariou, o temporal piorou, e segui a pé para a minha pequena casa no Bairro da Mouraria, em Lisboa, onde a Dona Aninhas, a minha mãe, que sofre de diabetes, espera pela medicação e por comida.

Debaixo da marquise de uma boutique de luxo, reparei num menino encolhido. Usava um uniforme caro, a mochila estava ensopada, os pés estavam roxos do frio. Os olhos, demasiado grandes para tanta mágoa. Aproximei-me e agachei. “Ó menino… estás sozinho?” Ele apenas anuiu, a conter o choro.

“Como te chamas?” “Gonçalo”, sussurrou. “A minha mãe… faleceu.” A palavra saiu dura como uma pedra. “O meu pai não veio. Tentei encontrar o caminho e perdi-me.”

Senti uma dor antiga, a lembrar o dia em que também fiquei sem rumo. Abri o embrulho. Parti o frango ao meio, ofereci-lhe uma batata. “Senta aqui comigo. Já não está quente, mas mata a fome.” O Gonçalo hesitou, mas depois comeu com avidez, como se o carinho tivesse sabor.

“O teu pai não está zangado contigo”, disse eu, segurando-lhe o rosto. “Ele está a sofrer. E a dor às vezes confunde-nos.” O Gonçalo atirou-se para os meus braços, a chorar convulsivamente no uniforme impecável, agora manchado de chuva e de uma ponta de esperança.

O som de uma travagem brusca cortou a rua. Um SUV preto parou. Um homem saiu a correr, de fato elegante colado ao corpo. “Gonçalo!” O miúdo ergueu a cabeça. “Pai!” O homem, Artur Mendonça, um conhecido empresário de Cascais, parou, choque ao ver a cena: o filho no chão, a comer restos de comida, protegido por uma estranha de mãos calejadas.

Desde que a Isabel, a sua mulher, partiu, o Artur refugiara-se no trabalho. Naquele dia, uma reunião prolongou-se, o telemóvel descarregou, e ele esqueceu-se da hora. Ver o Gonçalo ali foi como levar uma bofetada de realidade no meio do temporal.

Artur aproximou-se devagar, sem palavras. Eu levantei-me, limpando as mãos no avental. “O senhor é o pai dele? Ele estava com fome.” Artur olhou para o embrulho de papel já roto e uma vergonha ardente invadiu-o. “Eu… falhei.”

Eu não pedi nada. Apenas ajeitei a mochila do menino e disse: “Leve-o para casa. Um banho quente. Uma história para adormecer. Ele precisa de si.”

Quando me virei para ir embora, Artur chamou: “O seu nome?” “Lívia.” Ele repetiu-o, como quem grava o início de algo novo.

Três dias depois, eu esfregava o chão da cobertura dos meus patrões e ouvi a patroa a proibir que levasse sobras. À noite, parti um pão seco com a Dona Aninhas e respirei fundo para não chorar.

Na manhã seguinte, um carro discreto parou na minha rua. Artur desceu sem motorista, com um envelope e um pedido. “Andei à sua procura. O Gonçalo só voltou a sorrir ao falar da sua voz. Quero oferecer-lhe um emprego a tomar conta dele. Ordenado digno, seguro de saúde para a sua mãe, e um apartamento perto da escola. Não é caridade. É gratidão… e necessidade.”

Olhei para a Dona Aninhas, que apertou a minha mão. “Aceita, minha filha. Deus abre portas a quem abre o coração.”

Aceitei. E naquele primeiro dia, o Gonçalo correu para mim como se corresse para casa.

“Se acreditas que nenhuma dor é maior que a promessa de Deus, comenta: EU CREIO! E diz também: de que cidade estás a acompanhar-nos?”.

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