Milionário volta para casa e desaba ao ver a cena em seu próprio jardim

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**Diário de um Pai**

O voo de Singapura parecia interminável, mas a adrenalina manteve Afonso Mendes acordado. Três meses—noventa dias de negociações, contratos e vitórias nos conselhos de administração que fortaleceram o seu império, mas lhe roubaram a única coisa que não podia comprar de volta: tempo com a sua filha.

Enquanto o carro blindado deslizava pelas ruas familiares em direção à quinta dos Mendes, Afonso não pensava em fusões ou manchetes. Pensava em Joana—oito anos, olhos brilhantes como os da mãe falecida, a criança que ainda era o seu único lar verdadeiro. Imaginava-a a correr pelo hall, abraçando-o, cheirando a baunilha e a lápis de cor. Até comprara um urso de peluche gigante no aeroporto só para lhe ver o sorriso.

“Senhor,” disse o motorista, Rui, baixinho, “chegamos.”

O portão de ferro abriu-se. O sol poente pintava a mansão como num postal: jardim impecável, fontes a cantar, pedra polida. E, ainda assim, algo estava errado. O silêncio pesava. Nenhum brinquedo na varanda. Nada de música. Nenhum passo apressado. E, acima de tudo, nenhuma Joana à porta.

Afonso entrou e sentiu o frio do ar condicionado. Mas não era só isso. A casa cheirava diferente. Não a lar—não a pão acabado de sair do forno nem às flores frescas que Joana costumava colher. Agora, o cheiro era de óleos caros e vazio. O retrato da família—Afonso e Joana a rir—desaparecera. No seu lugar, uma pintura a óleo de Isabel, a atual mulher, perfeita e distante, como se as paredes lhe pertencessem.

“Maria?” chamou Afonso.

A empregada apareceu, torcendo o avental com mãos trémulas. Os olhos vermelhos evitavam o seu olhar.

“Bem-vindo a casa, senhor,” murmurou.

“Onde está a Joana?”

Maria engoliu em seco. Uma lágrima escapou-lhe antes que a pudesse conter. Apontou para a janela do jardim, o dedo a tremer.

“Lá fora, senhor… está… ocupada.”

O instinto de pai—cru, imediato—acendeu-se no peito de Afonso. Não perguntou mais. Dirigiu-se às portas de vidro e empurrou-as.

E o que viu partiu algo dentro dele.

No meio do jardim impecável, sob o sol abrasador, Joana lutava com um saco de lixo quase tão grande como ela. Vestia uma camisola larga, com pó nos braços, suor e lágrimas secas no rosto. As mãos estavam em carne viva de tanto puxar a corda.

A poucos metros, debaixo de um guarda-sol de designer, Isabel recostava-se com um café gelado, a observar como quem supervisiona uma tarefa—entediada, indiferente, cruelmente calma.

“JOANA!” A voz de Afonso rasgou o ar.

Assustada, Joana largou a corda e caiu de joelhos. Quando o viu, o medo nos olhos transformou-se em pânico.

“Pai!” chorou. “Desculpa, ainda não acabei. Por favor, não fiques zangado…”

Afonso correu para ela, ajoelhou-se e envolveu-a nos braços. Ela parecia leve de mais. Magra de mais. O corpo tremia contra o seu peito.

“O que estás a fazer aqui?” sussurrou, tentando manter a voz firme. “Quem te mandou fazer isto?”

Joana agarrou-se à sua camisa, deixando marcas de terra no tecido caro.

“Tenho de acabar,” soluçou. “Ela disse que, se não limpar tudo, não posso beber leite. Estou com tanta sede. Só quero um pouco de leite.”

**Leite.**

A palavra atingiu Afonso como um martelo. A sua filha—a sua criança—obrigada a *merecer* comida.

Ergueu o olhar devagar. O calor do reencontro desvaneceu-se, deixando no rosto algo mais sombrio.

Isabel pousou a chávena com delicadeza e levantou-se, alisando o vestido como se fosse um aborrecimento menor.

“Não exageres,” disse com um sorriso forçado. “Estou a ensinar-lhe disciplina. Tu mimas-te-a. Um pouco de ordem nunca fez mal a ninguém.”

Afonso levantou-se com Joana nos braços. Olhou para a mulher que casara, acreditando que protegeria a sua filha—e viu uma estranha por trás de uma máscara perfeita.

“Isto não é disciplina,” disse calmamente. “Acabou.”

Isabel riu-se, seca e confiante. “Acabou? Estiveste fora três meses. Nem sabes como as coisas funcionam agora. Esta casa também é minha. E se pensas que podes chegar aqui e mudar as minhas regras, vais desapontar-te.”

Afonso não respondeu. Ao levar Joana para dentro, notou algo que o gelou mais do que o ar condicionado.

Isabel não estava assustada.

Estava a sorrir.

Lá em cima, Afonso levou Joana ao quarto—e o estômago voltou a revolver-se. O quarto que outrora fora cheio de livros e brinquedos estava nu. Nenhuma boneca. Nenhum livro de histórias. A cama perfeitamente feita, a secretária vazia. Parecia mais um castigo do que um quarto de criança.

“Pai… tenho medo,” sussurrou Joana, escondendo o rosto no seu pescoço.

“Acabou,” prometeu, embora a palavra soasse frágil. “Estou aqui. Ninguém te vai magoar outra vez.”

Maria trouxe um kit de primeiros socorros e comida. Enquanto Afonso limpava as marcas nas mãos de Joana, a empregada finalmente falou—aos tropeções, como se esperasse permissão para contar a verdade.

Isabel despedira funcionários de confiança. Isolara Joana dos amigos. Restringira o acesso ao telefone. Transformara a vida dela em tarefas, solidão e medo, sob a desculpa de “humildade”.

Nessa noite, Afonso não dormiu. Ao amanhecer, foi ao escritório verificar as contas—e descobriu as senhas alteradas. O arquivo estava vazio. Ao tentar aceder aos fundos, o ecrã piscou:

**ACESSO NEGADO. CONTAS BLOQUEADAS POR ORDEM JUDICIAL.**

O telefone tocou. Helena Lopes, a sua advogada de sempre, soava urgente.

“Afonso, tens de sair dessa casa. O irmão da Isabel, o Pedro, já convocou uma reunião do conselho. Alegam que tiveste um colapso no estrangeiro. Querem declarar-te incapaz—incapaz de gerir os bens, incapaz de cuidar da Joana. A Isabel pediu custódia temporária e controlo total.”

O sangue gelou nas veias de Afonso. Isto não era só crueldade.

Era um **golpe**.

Lá em baixo, a televisão anunciava uma foto pouco lisonjeira dele no aeroporto, acompanhada de uma manchete sobre “instabilidade”. Isabel apareceu no ecrã, vestida de branco, a representar tristeza, falando do “quão difícil” era lidar com o estado do marido.

Atrás dele, a voz de Isabel flutuou—doce como veneno.

“Eu avisei-te,” disse. “Ninguém acredita num homem que parece instável. E tu pareces muito instável ultimamente.”

Afonso virou-se, olhos em chamas. “Onde está a minha filha?”

“No quarto,” respondeu Isabel, calma. “Aproveita os últimos momentos. Já fiz as chamadas necessárias. SeAfonso agarrou Joana, fugiram pela porta dos fundos, e naquele momento, sob o céu estrelado de Lisboa, soube que não importava o que perdesse—dinheiro, poder, até o próprio nome—desde que nunca mais perdesse o direito de ser o seu pai.

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