O leve tilintar das chávenas de porcelana, o murmúrio baixo das conversas matinais e o aroma rico do café acabado de fazer flutuavam na calma do início da manhã no Café Flor & Mel, um pequeno estabelecimento aconchegante entre uma loja de flores vintage e uma antiga livraria independente no coração de Alfama.
A luz da manhã entrava pelas janelas largas da frente, iluminando partículas de pó no ar e banhando tudo num tom dourado.
Bianca Costa, de vinte e quatro anos, movia-se com graça entre as mesas, uma bandeja fumegante equilibrada numa mão. Ovos Benedict, torradas com manteiga e um bule de porcelana tilintavam suavemente enquanto ela percorria os corredores estreitos com a facilidade de quem estava acostumada. Para os clientes habituais, ela era apenas mais uma empregada simpática, com um sorriso educado e reflexos rápidos. Mas por dentro, Bianca era algo mais.
Ela era uma sonhadora.
Sonhava em terminar a faculdade um dia, em deixar para trás a dor dos planos interrompidos. Sonhava em abrir o seu próprio café, um espaço cheio de poesia, plantas e o cheiro do chá. Sonhava com uma família, com estabilidade, com pertença. E, mais do que tudo, sonhava em compreender a mulher que a criara com devoção inabalável e mil perguntas por responder — a sua falecida mãe, Ana Costa.
Ana tinha partido três anos antes.
Era gentil mas forte, calada mas ferozmente protetora. Trabalhava até à exaustão, amava sem limites e guardava o passado como uma porta trancada. Nunca falou do pai de Bianca. Nem uma vez. Não havia fotografias escondidas nas gavetas, nem nomes sussurrados, nem histórias da sua juventude. Sempre que Bianca ousava perguntar, Ana sorria, afastava um cabelo do rosto da filha e dizia:
“O que importa é que te tenho a ti.”
E, durante a maior parte da vida, Bianca aceitara isso.
Quase sempre.
Porque a vida, quando sente um coração forte o suficiente, tem uma maneira de revelar verdades há muito enterradas.
Naquela manhã, quando Bianca entregava a conta a um casal na mesa quatro, o pequeno sino da porta do café tocou.
O som cortou o ambiente.
Cabeças viraram-se.
Um homem alto entrou, vestido com um fato azul-marinho que denotava riqueza discreta. O cabelo grisalho estava bem penteado, a postura era confiante, a presença marcante mas contida. Havia algo nele — algo calmo, pesado, inegavelmente importante.
“Uma mesa para um, por favor,” disse, a voz profunda e calorosa.
“Claro,” respondeu Bianca, oferecendo o seu habitual sorriso cortês enquanto o conduzia a uma mesa junto à janela.
Ele pediu apenas: café preto, torradas e ovos mexidos.
Enquanto anotava, Bianca sentiu um estranho aperto de familiaridade. O rosto dele despertava algo distante na memória, mas não conseguia identificar. Um apresentador de televisão, talvez. Um empresário. Alguém que já vira antes — algures.
Abafou o pensamento.
Mas momentos depois, ao passar pela mesa dele, algo aconteceu e o mundo pareceu inclinar-se.
O homem abriu brevemente a carteira — talvez para ver um cartão ou tirar um recibo.
E lá estava.
Uma fotografia.
Velha. Desbotada. Marcada nas extremidades.
Bianca parou a meio do passo, a bandeja suspensa no ar.
O fôlego faltou-lhe.
A mulher na fotografia era inconfundível.
Era a sua mãe.
Ana.
Jovem. Radiante. Sorridente de uma forma que Bianca conhecia de cor. O mesmo sorriso capturado na única fotografia que tinha à cabeceira — mas esta fora tirada muito antes de ela nascer.
A sala pareceu desfocar-se.
Com as mãos trémulas, Bianca regressou à mesa e murmurou: “Senhor… posso perguntar-lhe algo pessoal?”
O homem olhou para cima, surpreso. “Claro.”
Ela inclinou-se, o dedo a apontar para a carteira que ainda estava pousada ao lado da mão dele.
“Essa fotografia… a mulher. Porque é que a minha mãe está na sua carteira?”
O silêncio caiu entre eles.
O homem pestanejou, fitou-a e depois abriu lentamente a carteira de novo. Os dedos hesitaram antes de a desdobrar. Estudou a foto como se a visse pela primeira vez.
“A sua mãe?” perguntou baixinho.
“Sim,” respondeu Bianca, a voz a falhar.
“É a Ana Costa. Faleceu há três anos. Mas… como é que tem uma foto dela?”
Ele recostou-se, visivelmente abalado. Os olhos brilhavam.
“Meu Deus,” sussurrou. “Você… é a imagem dela.”
Bianca engoliu em seco.
“Desculpe,” gaguejou. “Não queria intrometer-me. É só que… a minha mãe nunca falou do passado. Nunca conheci o meu pai, e quando vi a foto dela—”
“Não,” interrompeu ele com suavidade.
“Não se intrometeu. Eu… sou eu que lhe devo uma explicação.”
Acenou para o lugar à sua frente. “Por favor. Sente-se.”
Bianca deslizou para o banco, as mãos apertadas no colo.
O homem respirou fundo.
“Chamo-me António Mendes. Conheci a sua mãe há muito tempo. Nós… estávamos apaixonados. Profundamente. Intensamente. Mas a vida… a vida meteu-se no meio.”
Pausou, o olhar distante.
“Conhecemo-nos na universidade. Ela estudava literatura portuguesa. Eu, gestão. Ela era o sol — brilhante, inteligente, apaixonada por poesia e chá. E eu era… bem, determinado, ambicioso, talvez demais. O meu pai desaprovava-a. Dizia que ela não era do ‘nosso mundo’. Eu fui cobarde demais para me opor a ele.”
O coração de Bianca acelerou.
“Você… deixou-a?”
Ele acenou, a vergonha estampada no rosto.
“Sim. O meu pai deu-me um ultimato: acabar com tudo ou perder tudo. Escolhi mal. Disse-lhe que estava acabado. E nunca mais a vi.”
Lágrimas encheram os olhos de Bianca.
“Ela nunca me contou isso. Nunca disse nada de mal sobre ninguém. Apenas disse que estava feliz por me ter.”
António olhou para ela com uma tristeza profunda.
“Carreguei esta fotografia comigo durante trinta anos. Sempre me arrependi de a ter deixado. Pensei que ela pudesse ter casado com outro… ter uma vida nova.”
“Não teve,” sussurrou Bianca. “Criou-me sozinha. Trabalhava em três empregos. Nunca tivemos muito, mas ela deu-me tudo.”
António engoliu em seco.
“Bianca… quantos anos tens?”
“Vinte e quatro.”
Ele fechou os olhos. Quando os abriu, as lágrimas caíam livremente.
“Ela estava grávida quando eu a deixei, não estava?”
Bianca assentiu.
“Devia estar. Acho que não quis que eu crescesse com amargura.”
António puxou um lenço do bolso e enxugou os olhos.
“E agora aqui estás tu… à minha frente.”
“Não sei o que isto significa,” disse Bianca baixinho. “Só… tenho tantas perguntas.”
“Tu mereces respostas,” disse ele. “Todas.”
Após uma pausa, acrescentou: “Posso perguntar-te algo… Estarias disposta a”Com o sol a brilhar sobre a nova placa do café, os dois entraram juntos, finalmente em paz, sabendo que o amor de Ana continuava a uni-los para sempre.”