**Capítulo 1: O Fio Que Se Desfaz**
A festa na piscina devia ser um retrato simples de alegria—família, o calor generoso do sol de verão, o cheiro dos hambúrgueres na churrasqueira e o riso dos meus netos ecoando na água. Passei a manhã a preparar tudo com cuidado, como se montasse um palco para memórias felizes. Lavei o pátio até as pedras brilharem, arrumei toalhas fofas e coloridas e enchi um cooler azul com os pacotinhos de sumo que a Leonor adora. O meu filho, Ricardo, chegou com a mulher, Mariana, e os dois filhos logo ao meio-dia. Mas, desde o momento em que saíram do carro, senti uma nota dissonante na melodia alegre do dia.
Enquanto o irmão mais velho, Tomás, disparou em direção à piscina, a minha neta Leonor, de quatro anos, saiu devagar. Ombros curvados, cabeça baixa, como se carregasse um peso invisível. Apertava um coelhinho de pelúcia velho, as orelhas gastas de tanto ser apertado com ansiedade.
Aproximei-me com o fato de banho florido nas mãos, o meu sorriso a sentir-se frágil de repente. “Querida”, disse, agachando-me à altura dela, “queres ir mudar? A água está ótima hoje.”
Ela nem olhou para cima. Os dedos pequenos torciam um fio solto na bainha do vestido. “A minha barriga dói…”
Uma dor familiar cresceu no meu peito. Estendi a mão para afastar um fio de cabelo loiro do rosto dela, um gesto que repetimos mil vezes. Mas desta vez, ela recuou. Foi pouco, quase impercetível, mas senti como um golpe. Afastou-se como se esperasse uma pancada, não um carinho. Aquele movimento assustou-me mais do que qualquer palavra. A Leonor sempre foi a primeira a atirar-se para os meus braços, a primeira a puxar a minha manga para eu ler uma história. Esta versão vazia da minha neta era uma estranha.
Antes que pudesse perguntar mais, a voz de Ricardo cortou o ar. “Mãe”, disse, e aquela única palavra era afiada, fria, com um tom de ordem que não ouvia desde a adolescência rebelde dele. “Deixa-a em paz.”
Virei-me, confusa. “Não a estou a incomodar, Ricardo. Só quero saber o que se passa.”
Mariana juntou-se a ele, uma parede de união parental. O sorriso dela era forçado, os olhos vazios. “Por favor”, disse, docemente venenosa, “não interfiras. Ela exagera. Se dermos atenção, nunca mais pára.”
Exagera? A palavra pairou no ar, feia e errada. Olhei para a Leonor, para os dedos que torciam sem parar, o corpo pequeno a transmitir uma tristeza quase palpável. Não era drama—ela estava a afogar-se em algo que eu não via.
Tentei manter a voz calma. “Só quero ter a certeza de que está tudo bem.”
Ricardo aproximou-se mais, a sombra dele a cair sobre mim. Baixou a voz para um sussurro que era um aviso. “Ela está bem. Deixa estar. Não faças cenas.”
A ameaça implícita pairou entre nós, e uma fúria fria invadiu-me. Mas, pela Leonor, recuei. Afastei-me devagar, sentindo-me uma traidora. Os meus olhos, porém, ficaram nela. Ela não se mexia, não olhava para o Tomás a saltar na piscina. Ficou ali, uma ilha solitária num mar de festa forçada. E, enquanto via o meu filho e a nora a rirem com um brilho falso, uma pergunta aterradora formou-se na minha mente.
O que estavam a tentar esconder?
**Capítulo 2: Uma Porta Aberta**
A festa continuou, uma pantomina vazia. O cheiro a cloro e protetor solar misturava-se com o fumo da churrasqueira—cheiros que antes associara à felicidade. Agora, embrulhavam-me o estômago. Movi-me como um autómato—a virar hambúrgueres, a servir bebidas, a sorrir a piadas que não ouvia—mas toda eu era um novelo de ansiedade. Os meus sentidos estavam presos à menina silenciosa na borda do deck. Ricardo e Mariana agiam como se nada estivesse errado, as risadas altas demais, os movimentos bruscos. Eles representavam, e eu era a plateia relutante.
De vez em quando, olhava para a Leonor. Era uma estátua de tristeza. A certa altura, vi o Tomás oferecer-lhe a pistola de água. Ela recusou com a cabeça, sem sequer olhar para ele. Mariana gritou da piscina: “Deixa-a, Tomás! Ela está só a fazer birra.” A frieza da frase foi como uma pedra no estômago.
Tentei pela última vez, com um pedaço de melancia cortado em estrela, como ela gostava. “Toma, querida”, disse suavemente.
Os olhos de Ricardo cravaram-se nos meus. Uma advertência silenciosa. Segurei o olhar dele por um instante, o coração a bater forte, antes de me afastar. A Leonor não tocou na melancia.
Uma hora depois, entrei em casa, precisando de um momento longe da tensão. A casa era um refúgio fresco e silencioso. Encostei-me à porta da casa de banho, a tentar organizar os pensamentos. No espelho, vi uma mulher que mal reconheci—o rosto marcado pela preocupação.
Quando me virei, o coração saltou-me à garganta.
A Leonor estava à porta, um pequeno fantasma que entrara sem fazer barulho.
O rosto dela estava pálido, as mãos a tremer tanto que o coelhinho parecia vibrar. Olhou para mim, os olhos azuis cheios de um medo tão adulto que não pertencia a uma criança. Seguira-me, procurando refúgio no único lugar onde os pais não a viam.
“Avó…”, sussurrou, a voz frágil. “Na verdade… é a Mamã e o Pai…”
E então, como se aquelas palavras tivessem partido uma barreira, começou a chorar em lágrimas silenciosas e convulsivas.
**Capítulo 3: A Forma de Um Segredo**
Não hesitei. Num instante, estava de joelhos, a abraçá-la com cuidado, como se fosse de vidro. Ela agarrou-se a mim, o corpo pequeno a tremer, o rosto enterrado no meu ombro. Parecia que estivera a prender a respiração o dia todo e finalmente pudera soltá-la.
“Shhh, bebé”, murmurei, a voz espessa. “Estou aqui. O que foi com a Mamã e o Pai?”
Ela afastou-se, limpando as lágrimas. “Não quero usar o fato de banho.”
“Está bem”, disse, a mente a acelerar. Isto era mais que uma dor de barriga. “Mas podes dizer-me porquê?”
O olhar dela desviou-se para a própria barriga. “Porque… a Mamã disse que, se mostrar a barriga, as pessoas vão ver.”
Um frio percorreu-me os ossos. “Ver o quê, querida?”
Os olhos dela espreitaram para o corredor, um lampejo de pânico. Depois, com a mão a tremer, levantou a bainha do vestido, só um pouco, o suficiente para eu ver.
E o meu mundo parou.
Ali, espalhadas pela pele macia da barriga e anca, havia hematomas. Manchas verdes-amareladas e roxas, profundas. Não eram de tropeções ou quedas. Eram distintas, deliberadas. Alguns, acima da anA Leonor apertou a minha mão com força, e eu prometi—ali, naquele quarto silencioso, onde o segredo finalmente viera à luz—que nunca mais deixaria ninguém magoá-la, mesmo que tivesse de enfrentar o próprio inferno por ela.