Afonso Mendes parou diante do portão de ferro forjado da sua mansão na Colina das Acácias, em Sintra, uma mão ainda pousada no metal frio, como se o mundo pudesse desmoronar-se se ele a soltasse.
A reunião terminara mais cedo. Algo raro. A sala de reuniões esvaziara-se mais depressa do que esperado, deixando-lhe a cabeça atulhada de cláusulas, aquisições e mensagens não lidas a vibrar em silêncio no bolso do casaco. Conduzira para casa como um autómato, já a planear a próxima chamada.
Por um breve instante, ali parado, Afonso teve a certeza de que entrara na propriedade errada.
Então ouviu-se outra vez.
Uma risada.
Clara. Brilhante. Inconfundível.
O peito apertou-lhe como se um fio invisível dentro dele tivesse sido puxado com demasiada força. A pasta de couro escorregou-lhe dos dedos e caiu no cascalho com um baque surdo. Não olhou para baixo.
Olhou para a frente.
No relvado, debaixo do céu aberto e rodeado de rosas desabrochadas, o seu filho ria-se.
Não resmungava. Não choramingava.
Não fitava o vazio como tantas vezes fazia.
Ria-se.
Duarte.
Dez meses de vida.
A respiração de Afonso cortou-se.
Duarte agarrava-se aos ombros de uma mulher, os bracinhos atados ao pescoço dela, as perninhas gordas entrelaçadas nos seus flancos. O rosto corado de excitação, a boca aberta num guincho de pura alegria que se repetia enquanto ela se arrastava pelo relvado de gatas.
Fazia barulhos ridículos de cavalo—bufava, relinchava, fingia tropeçar com teatralidade. Luvas de borracha amarelas ainda lhe cobriam os pulsos. Terra manchava os joelhos do seu uniforme azul simples.
Era absurdo.
Era indigno.
Era impossível.
Era Leonor.
A mulher da limpeza.
Duarte puxava-lhe a manga, gargalhando sem controle, os dedinhos a deixarem marcas de relva no tecido. Os olhos brilhavam. Fixos. Vivos, como Afonso nunca vira antes.
Durante dez meses, Afonso vivera dentro de uma realidade meticulosamente controlada.
Duarte fora um bebé silencioso desde o início. Raramente chorava, raramente balbuciava, raramente reagia a vozes ou rostos. No começo, Afonso convencera-se de que isso significava que o filho era calmo. Avançado. Independente.
O pediatra usara palavras cuidadosas.
Resposta social tardia.
Baixa reatividade emocional.
Cedo para diagnosticar—apenas observar.
Mas as referências começaram mesmo assim. Especialistas. Avaliações. Gráficos a registar contacto visual, reações, expressões faciais.
Afonso respondera da única maneira que sabia: com estrutura.
Horários rígidos. Estímulos mínimos. Tudo medido. Tudo eficiente. Acreditara que a disciplina podia substituir o instinto, que o controle eliminava a incerteza.
Para ele, amar sempre significara prover.
Mas ali parado, a ver o filho rir-se livremente pela primeira vez, Afonso percebeu o pouco que realmente entendia.
Leonor reparou nele então.
Congelou a meio de um relincho.
“Oh—Sr. Mendes,” disse, erguendo-se demasiado depressa, quase perdendo o equilíbrio. “Eu—peço desculpa. Não sabia que estava em casa. Eu só estava—”
Afonso ergueu uma mão, calando-a.
Duarte choramingou baixinho, apertando o aperto e escondendo o rosto no ombro de Leonor. A mudança súbita perturbara-o.
Afonso sentiu algo rachar dentro dele.
“Há quanto tempo,” perguntou, a voz instável, “que ele faz isto?”
Leonor hesitou.
“Desde a semana passada,” respondeu com honestidade. “No início eram só sons pequenos. Ruídos suaves. Depois, uma tarde, enquanto limpava a sala de estar, ele veio a gatinhar até mim e começou a rir. Nem sabia que os bebés podiam rir assim.”
Afonso engoliu em seco.
“E os médicos?” perguntou.
“Eles não estavam aqui,” disse ela, suave. “Foi só nós.”
Só nós.
As palavras atingiram-no mais forte que qualquer relatório médico.
Leonor ajustou Duarte nas costas, o tom cauteloso mas sincero.
“Não planei nada especial,” disse. “Criei os meus irmãos mais novos. Quando Duarte parecia sobrecarregado, não o forcei. Falava com ele enquanto trabalhava. Cantava baixinho. Deixava-o observar. Quando ele estendia a mão, eu respondia. Quando não, ficava na mesma.”
Afonso fitou o filho.
Duarte espreitou por cima do ombro de Leonor.
Os olhares cruzaram-se.
Pela primeira vez desde o nascimento de Duarte, ele não desviou o olhar.
Afonso ajoelhou-se sem perceber. A relva humedeceu-lhe as calhas de linho, mas ele não se importou.
“Olá, pequeno,” sussurrou.
Duarte estudou-lhe o rosto com cuidado.
Depois, devagar, incerto, estendeu a mão.
A palma minúscula pressionou a face de Afonso.
Afonso desfez-se.
Lágrimas turvaram-lhe a visão—quentes, indesejadas, imparáveis. Assinara contratos de milhões sem hesitar. Enterrara a esposa com dignidade composta.
Mas isto—isto desmontou-o por completo.
“Pensei que estava a fazer tudo certo,” disse Afonso, a voz rouca, olhando para Leonor. “Pensei que amá-lo significava consertá-lo.”
Leonor abanou a cabeça, suave.
“Às vezes os bebés não precisam de conserto,” disse. “Precisam de ligação. Segurança. Alguém que não tenha medo de parecer tolo por eles.”
Naquela noite, Afonso cancelou todas as reuniões.
Os horários rigidOs vizinhos passaram a ver, todas as tardes, um homem de fato escuro ajoelhado no jardim, um bebê a rir entre os braços de uma mulher de luvas amarelas, e a casa dos Mendes, enfim, respirando vida.