Capítulo 1: O Fio Que Se Desfaz
O churrasco à beira da piscina devia ser um momento feliz — apenas família, o calor benévolo do sol de verão, o cheiro das salsichas a grelhar e o riso dos meus netos a ecoar na água. Passei a manhã a preparar tudo, um cenário perfeito para memórias alegres. Esfreguei o pátio até as pedras brilharem, arrumei toalhas fofas de todas as cores e enchi um cooler azul com os pacotinhos de sumo que a Carolina adora. O meu filho, Ricardo, chegou com a mulher, Sofia, e os dois filhos assim que o sol estava no ponto mais alto. Mas, mal saíram do carro, senti um acorde dissonante cortar a melodia alegre do dia.
Enquanto o irmão mais velho, Duarte, disparou do carro como um foguete em direção à piscina, a minha neta de quatro anos, Carolina, saiu devagar. Os seus omrinhos estavam curvados, a cabeça baixa como se carregasse um peso invisível, demasiado pesado para o seu corpinho franzino. Apertava contra o peito um coelhinho de pelúcia gasto, as orelhas desfiadas de tanto amor ansioso.
Aproximei-me com o seu fato de banho estampado com flores, o meu sorriso de repente frágil. “Querida,” disse, agachando-me à sua altura, “queres ir mudar-te? A água está ótima hoje.”
Ela não levantou os olhos. Concentrava-se num fio solto da bainha do seu vestido de algodão, os dedinhos a puxá-lo para um lado e para o outro. Da sua boquinha saiu um fio de voz quase inaudível. “A barriga dói-me…”
Uma dor familiar abriu-se no meu peito. Estendi a mão para afastar um fio de cabelo loiro do seu rosto, um gesto que repetimos mil vezes. Mas desta vez, ela encolheu-se. Foi um movimento pequeno, quase impercetível, mas senti-o como um soco. Afastou-se como se esperasse uma picada, não um carinho. Aquele gesto assustou-me mais do que qualquer palavra. A Carolina sempre foi uma criança carinhosa — a primeira a atirar-se para os meus braços, a primeira a puxar-me a manga e pedir para ler uma história. Esta versão vazia da minha neta era uma desconhecida.
Antes que pudesse perguntar mais, a voz do Ricardo cortou o ar atrás de mim. “Mãe,” disse, e aquela única palavra soou afiada, fria, com uma ordem que não ouvia desde que ele era um adolescente rebelde. “Deixa-a em paz.”
Virei-me, a testa franzida. “Não a estou a chatear, Ricardo. Só quero saber o que se passa.”
A Sofia juntou-se a ele, uma muralha de união parental. O seu rosto estava tenso, o sorriso forçado, sem chegar aos olhos. “Por favor,” disse, o tom docinho demais para ser sincero, “não interfiras. Ela está a fazer drama. Se lhe dermos atenção, nunca mais pára.”
Drama? A palavra pairou no ar, feia e errada. Olhei para a Carolina, para os seus dedos que torciam sem parar, o seu corpinho a irradiar uma tristeza tão profunda que quase se via. Ela não estava a fazer drama — estava a afogar-se em algo que eu não conseguia ver.
Tentei manter a voz calma, serena. “Só quero ter a certeza de que está bem.”
O Ricardo aproximou-se, a sombra dele a cair sobre mim. Baixou a voz até quase um sussurro, não para acalmar, mas para avisar. “Ela está bem. Deixa isso. Não arranjes confusão.”
A ameaça implícita pairou entre nós, e senti uma onda de fúria gelada. Mas, pela Carolina, recuei. Afastei-me devagar, uma retirada que pareceu uma traição. Os meus olhos, no entanto, não a largavam. Ela não se mexia. Não via o Duarte a saltar na piscina. Apenas estava ali sentada, uma ilha solitária num mar de festa forçada, uma menina que parecia acreditar que não tinha lugar naquele dia. E enquanto via o meu filho e a nora a rir com uma alegria que agora me parecia grotesca, uma pergunta aterradora formou-se na minha mente.
O que é que eles estavam a tentar esconder?
Capítulo 2: Uma Porta Aberta
A festa continuou, uma pantomina oca de diversão familiar. O cheiro a cloro e protetor solar misturava-se com o fumo da grelha, aromas que sempre associei à felicidade. Hoje, reviravam-me o estômago. Movi-me como um autómato — a virar salsichas, a oferecer bebidas, a sorrir para piadas que não ouvi — mas todo o meu ser era um fio de ansiedade esticado, os sentidos focados na menina calada à beira do pátio. O Ricardo e a Sofia agiam como se nada estivesse errado, as gargalhadas demasiado altas, os gestos demasiado bruscos. Eles estavam a representar, e eu era o público relutante.
De vez em quando, o meu olhar voltava para a Carolina. Era uma estátua de tristeza. Numa altura, vi o Duarte correr para ela e oferecer-lhe a pistola de água. Ela abanou a cabeça, sem sequer olhar para ele. A Sofia chamou da piscina, “Deixa-a, Duarte! Ela está só com manha.” A crueldade casual daquela frase foi como uma pedra no estômago.
Tentei mais uma vez, uma abordagem suave. Levei-lhe um pratinho com uma fatia de melão cortada em estrela, como ela gostava. “Toma, querida,” disse, pousando-o ao seu lado. “Só um bocadinho.”
Os olhos do Ricardo encontraram os meus através do jardim. Um aviso mudo, furioso. Segurei o seu olhar por um instante, o coração a bater contra as costelas, antes de me afastar. A Carolina não tocou no melão.
Uma hora depois, fui para dentro de casa, precisando de um momento longe da tensão sufocante. A casa era um refúgio fresco e silencioso, o zumbido do ar condicionado um ruído reconfortante no corredor. Entrei na casa de banho e fechei a porta, encostando-me a ela por um instante para recuperar o fôlego. O meu reflexo no espelho mostrava uma mulher que mal reconhecia — o rosto marcado pela preocupação, os olhos nublados por um medo que ainda não tinha nome. Lavei as mãos, a água fria um choque que pouco fez para me acalmar.
Quando me virei, o coração saltou-me para a garganta.
A Carolina estava ali, na porta, uma pequena aparição que entrara sem fazer um som.
O seu rostinho estava pálido, as mãos a tremer tanto que o coelhinho que apertava parecia vibrar. Olhou para mim, os olhos azuis arregalados, poços de um medo tão adulto que não tinha lugar no rosto de uma criança. Tinha-me seguido, procurando refúgio no único sítio onde os pais não a podiam ver.
“Avó…” sussurrou, a voz um fio frágil e trémulo. “Na verdade… é a mamã e o papá…”
E então, como se aquelas palavras tivessem rebentado a barreira que segurava tudo, desatou a chorar, soluços silenciosos e convulsivos.
(Continua…)