As portas automáticas do Hospital Santa Maria nunca foram feitas para serem arrombadas às três da manhã, não numa cidade onde o som mais alto após a meia-noite costumava ser um comboio de carga a atravessar o vale ou um estudante bêbado a discutir com uma máquina de refrigerantes. Mas naquela noite, as portas não se abriram suavemente; foram arremessadas para trás com tanta força que o vidro estremeceu na moldura, e por um segundo suspenso, incrédulo, a sala de emergência parou de respirar.
O homem que irrompeu lá dentro parecia saído das manchetes que as pessoas lêem depois do facto, aquelas que começam com palavras como *violento*, *armado* ou *indivíduo perigoso*. Era uma figura imponente, envolta em couro encharcado e sujidade da estrada, a água da chuva escorrendo dos seus ombros sobre os azulejos brancos e imaculados, as suas botas deixando marcas escuras e irregulares atrás de si, como se estivesse a arrastar uma tempestade pela garganta.
O seu nome, embora quase ninguém ali o soubesse ainda, era Rodrigo “Lobo” Mendes, e nos seus braços trazia uma menina que estava a morrer.
Ela não devia pesar mais de vinte quilos, o seu corpinho mole contra o seu peito, a cabeça a balançar de forma pouco natural enquanto ele se movia, mechas de cabelo escuro coladas a um rosto que já perdia a cor, a pele tingida de um tom azulado que fez todas as enfermeiras reconhecerem o perigo antes mesmo de qualquer monitor o confirmar. A visão dela era tão errada, tão deslocada sob a luz dura do hospital, que as conversas morreram a meio e o segurança perto da recepção agarrou instintivamente o rádio sem saber bem porquê.
“*AJUDEM-NA!*” O homem gritou, a voz rouca e quebrada, ecoando pelas paredes com uma força que fez várias pessoas estremecer—não por soar violenta, mas por soar destruída de uma forma que não podia ser fingida. “Ela não está a respirar direito. Está gelada. Por favor.”
Por um momento, ninguém se moveu.
Depois, Catarina Alves, a enfermeira-chefe de serviço, entrou em ação como só acontece quando o instinto supera o medo. A sua prancheta caiu no balcão enquanto ela se precipitava para a frente, os olhos já a examinar o rosto da criança, a postura firme e autoritária mesmo enquanto erguia as mãos.
“Macas!” chamou Catarina, com firmeza. “Sala de trauma dois. Agora.”
Duas enfermeiras correram, as rodas a guinchar enquanto puxavam uma maca da parede, e Catarina colocou-se diretamente no espaço do motociclista, perto o suficiente para sentir o cheiro de asfalto molhado, óleo de motor e algo metálico que lhe apertou o estômago.
“Senhor, preciso que me entregue a menina,” disse, sem hesitações mas também sem rudeza.
Por meio segundo, Lobo não se mexeu.
Os seus braços apertaram, o maxilar contraiu-se com tanta força que um músculo saltou na sua face, e Catarina viu algo cruzar-lhe a expressão que nada tinha a ver com agressão e tudo a ver com terror—o tipo que vem de saber que já pode ser tarde demais.
“Ela não pode morrer,” rosnou, a voz rouca. “Não pode.”
“Eu não a vou ajudar se não a largar,” Catarina respondeu suavemente, mantendo o olhar fixo no dele.
Algo no tom dela penetrou.
Lobo baixou a menina para a maca com um cuidado quase reverente, as mãos a demorarem uma fração de segundo como se temesse que ela pudesse desaparecer se as soltasse completamente. Quando as enfermeiras a levaram a correr pelas portas marcadas *APENAS PESSOAL AUTORIZADO*, ele recuou como se o peso lhe tivesse sido arrancado, afundando-se numa cadeira de plástico contra a parede, os ombros maciços a tremer uma vez antes de ficarem imóveis.
“Nome?” perguntou a rececionista, os dedos pousados sobre o teclado.
Lobo olhou para as suas mãos, ainda molhadas de chuva e sangue que não era seu. “O nome dela é… Inês,” disse por fim.
“Apelido?”
“Não sei.”
A rececionista franziu a testa. “Data de nascimento?”
O riso de Lobo saiu áspero e sem humor. “Se eu soubesse, achas que estaria aqui sentado?”
Foi então que a polícia chegou.
Dois agentes, chamados por um segurança em pânico que usara a palavra *intruso*, entraram pelas portas do serviço de urgências com as mãos pousadas nas coldres, os olhos fixando-se imediatamente em Lobo como se ele fosse o problema óbvio—o que, numa cidade como aquela, provavelmente era.
“Rodrigo Mendes,” disse o agente Vasco Monteiro, com um lampejo de reconhecimento. “Que raio se passa aqui?”
Lobo não ergueu o olhar. “A salvar uma criança,” murmurou.
Monteiro soltou um riso seco. “Engraçada a forma de o fazer. Mãos atrás das costas.”
As peias de plástico apertaram os pulsos de Lobo sem resistência. Ele não discutiu. Não lutou. Os seus olhos estavam fixos nas portas fechadas da sala de trauma, como se a força de vontade pudesse impedi-las de se abrir do lado errado.
Dentro da Sala de Trauma Dois, Catarina trabalhava com a velocidade de quem enfrentara noites longas e desfechos piores. Linhas de soro foram colocadas, a máscara de oxigénio foi ajustada, os monitores bipando erraticamente enquanto o ritmo cardíaco de Inês oscilava entre demasiado rápido e perigosamente lento.
“Temperatura central está hipotérmica,” chamou uma enfermeira. “Pressão arterial a descer.”
Catarina inclinou-se para a frente, a testa franzida enquanto examinava os braços da criança.
Ali, no interior do antebraço esquerdo de Inês, havia uma tatuagem.
Não decorativa. Não artística.
Apenas números.
11-03-21.
Parecia antiga o suficiente para estar cicatrizada, mas irregular, a tinta ligeiramente desfocada como se tivesse sido feita por alguém com a mão trémula ou sem ferramentas profissionais. Um fio gelado de inquietação desceu pela espinha de Catarina.
“Alguém já a pesquisou no sistema?” perguntou.
A auxiliar, Marisa, batia freneticamente no ecrã. “Tentei. Reconhecimento facial, pessoas desaparecidas, registo de nascimentos. Não aparece nada.”
Catarina não parou de trabalhar. “Tenta a nível federal.”
“Já tentei,” Marisa sussurrou, o rosto desprovido de cor. “Catarina… não há registo. Nenhuma certidão de nascimento. Nenhuma vacinação. Nenhuma matrícula escolar. É como se ela nunca tivesse existido.”
Como se tivessem sido convocados por essas palavras, todos os ecrãs do serviço de urgências congelaram ao mesmo tempo.
Depois reiniciaram.
Depois ficaram negros.
Na estação de enfermagem, o rádio do agente Monteiro ganhou vida com uma explosão de estática tão alta que várias pessoas saltaram.
“Unidade Doze,” disse a operadora, a voz subitamente desprovida do tom casual habitual, “temos instruções das autoridades federais. Devem deter imediatamente o indivíduo Rodrigo Mendes e garantir o controlo das instalações. Isto não é uma investigação de rapto.”
Monteiro franziu a testa. “Então o que é?”
Houve uma pausa, pesada o suficiente para se sentir.
“Estão a chamar-lhe um erro de contenção,”E, enquanto a escuridão envolvia o hospital, uma única certeza permaneceu: algumas verdades são demasiado perigosas para serem esquecidas, e algumas crianças são demasiado importantes para serem apagadas.