**Capítulo 1: O Alerta**
O ar dentro do ginásio da Escola Básica Sophia de Mello Breyner estava tão pesado que quase dava para mastigar. Uma mistura de cera de chão, hormônios de adolescentes e o calor úmido que só trezentas pessoas amontoadas conseguem criar.
Enxuguei uma gota de suor da testa, ajustando o colete à prova de balas que parecia apertar a cada minuto que passava.
“Tudo bem, acalmem-se, pessoal! Acalmem-se!”
Minha voz ecoou pelo sistema de som, batendo nas vigas de aço. O barulho caótico das crianças do 3º, 4º e 5º anos diminuiu para um murmúrio.
“Eu sou o Agente Diogo Almeida”, disse, com o sorriso treinado que uso nessas ações comunitárias. “E este…” apontei para o Pastor Alemão sentado rígido como uma estátua ao meu lado. “…é o Agente Thor.”
Thor soltou um latido seco, como ensaiado. As crianças explodiram de empolgação. Uma onda de mãos levantadas e exclamações de admiração.
Thor era lindo, e ele sabia. Trinta e oito quilos de músculos pretos e castanhos, com olhos que não perdiam nada e uma lealdade que não se comprava. Éramos parceiros há cinco anos. Ele dormia na minha sala, comia bifes melhores que os meus e já salvou minha vida mais vezes do que gostaria de lembrar nas ruas difíceis de Lisboa.
Mas hoje, o trabalho dele era fácil. Encontrar as “drogas” (um chumaço de algodão perfumado dentro de um saco de pano), prender o voluntário no traje de proteção (o meu colega, Agente Rui) e parecer heróico para os contribuintes do subúrbio.
“Ok”, levantei a mão. “Vamos mostrar como o Thor usa o nariz. O nariz de um cão é dez mil vezes mais sensível que o de vocês. Se eu pedisse uma pizza neste ginásio, vocês talvez sentissem o cheiro de pepperoni. O Thor? Ele sente o orégano, a farinha e exatamente quais mãos tocaram a massa.”
Risadas. Bom. Estavam envolvidos.
“Escondi um saco com cheiro algures nestas bancadas”, menti. Na verdade, estava atrás do púlpito do diretor, uma descoberta fácil para dar confiança às crianças. “Thor, procura!”
Soltei a trela.
Normalmente, era quando o Thor virava uma máquina. Ele entrava num padrão de busca, o nariz perto do chão, o rabo erguido e balançando com a emoção da caça.
Mas hoje, a máquina falhou.
Thor deu dois passos em direção ao púlpito e parou. Ergueu a cabeça, farejando o ar parado. As orelhas viraram—esquerda, direita, depois para trás.
Ele não olhou para o púlpito. Virou o corpo completamente, encarando o fundo das bancadas, onde os alunos do 5º ano estavam apertados como sardinhas.
“Thor”, murmurei, baixo o suficiente para o microfone não captar. “Por aqui, companheiro.”
Ele me ignorou. Primeiro sinal de alerta. Thor nunca me ignorava.
Começou a andar. Não era o trotar animado de uma busca a drogas. Era um avanço lento e deliberado. O rabo estava baixo, ligeiramente entre as pernas. Ele não estava seguindo o cheiro do saco. Estava seguindo algo biológico. Algo… errado.
A multidão ficou quieta, confusa com a mudança de energia. As crianças adoram caos, mas também sentem a tensão melhor do que os adultos pensam. Observaram enquanto o cão grande passava pelas meninas rindo na primeira fila, pelos meninos agitados se empurrando.
Parou na beirada da terceira fila.
Sentado ali, isolado por alguns centímetros de espaço vazio como se tivesse um campo de força invisível, estava um menino.
Eu já o tinha notado antes, porque ele se destacava. Era meados de junho em Portugal. Lá fora, o asfalto derretia. Dentro, estavam vinte e cinco graus. Todas as outras crianças estavam de camiseta e calções.
Este menino usava um casaco cinza-escuro, muito grande, com o capuz puxado sobre um cabelo louro sujo. Era pequeno para a idade, os ombros curvados como se quisesse desaparecer. Olhava fixamente para os ténis, evitando contato visual com o mundo.
Thor sentou-se diretamente na frente dele.
“Bem, pessoal”, falei ao microfone, forçando uma risada. “Parece que o Thor encontrou um lanche melhor que o nosso exercício.”
Corri até lá, esperando que Thor se desviasse e viesse até mim. “Thor! Aqui!”
O Pastor Alemão não reagiu. Inclinou-se para frente e pressionou o nariz molhado e frio firmemente contra o antebraço do menino.
A reação foi imediata e visceral.
O menino não riu. Não recuou surpreso. Puxou o braço com um grito abafado, o corpo todo contraindo. Não foi a reação de uma criança assustada por um cão. Foi a reação de um soldado se protegendo de uma explosão.
E então, um som. Um gemido baixo e vibrante vindo da garganta do Thor. Não era o latido de “encontrei as drogas”. Era o som que ele fazia quando sentia trovão ou quando eu tinha um pesadelo e ele precisava me acordar.
Era o som de aflição.
Fechei a distância em três passos. “Ei, miúdo”, falei, mantendo a voz suave, saindo do “Modo Polícia” e entrando no “Modo Pai”. “Ele te assustou? Peço desculpa. Ele só quer ser amigo.”
O menino não olhava para mim. Estava tremendo. Visivelmente. As mãos enfiadas no bolso do casaco.
“Está bem”, sussurrou, a voz rouca, como se não a usasse há dias. “Leve-o embora, por favor.”
Estendi a mão para a coleira do Thor, mas, ao me abaixar, o cheiro me atingiu.
Por baixo do cheiro de suor e cera de chão, havia algo mais vindo do menino. Era fraco, ácido e metálico. Como moedas velhas de cobre.
E por baixo disso? O odor distinto e azedo de infeção.
Parei. Minha mão pairou sobre a coleira do Thor.
“Qual é o teu nome, miúdo?” perguntei, agachando para ficar na altura dos seus olhos.
Ele mantinha a cabeça baixa. “Tomás.”
“Tomás. Ok. Tomás, o Thor fez-te mal?”
“Não.” A resposta veio rápido demais. “Não, está tudoO cão late para nos lembrar que, às vezes, a justiça vem de quatro patas e de um coração que nunca desiste, e Tomás finalmente sorri, livre e seguro, porque alguns heróis usam coleira e focinho, mas salvam vidas como ninguém.