Durante doze anos, Pedro Almeida viveu sem luz.
Não eram sombras. Nem formas desfocadas.
Apenas escuridão—total e imutável.
Os médicos chamaram de cegueira inexplicável.
Outros usaram termos como anomalia neurológica ou resposta psicossomática.
Mas ninguém conseguiu explicar ao pai o motivo—ou como reverter.
E assim, a escuridão permaneceu.
**Um Pai Que Consertava Tudo—Exceto Isso**
António Almeida não era dos homens mais ricos de Portugal.
Não era famoso. Não tinha arranha-céus nem jatos privados.
Mas era bem-sucedido.
Construíra uma empresa de tecnologia de segurança, usada por hospitais e governos locais por todo o Algarve. O suficiente para viver confortavelmente. Para pagar médicos particulares, consultas internacionais e os melhores tratamentos que o dinheiro podia comprar.
O suficiente para acreditar, no início, que podia consertar qualquer coisa.
Quando Pedro ficou cego aos sete anos, António entrou em ação.
Levou o filho a clínicas privadas em Espanha e França.
Consultou neurologistas renomados.
Pagou por terapias experimentais que nenhum seguro cobriria.
Sempre ouviam a mesma resposta:
*”Os olhos dele estão saudáveis.”*
*”Os nervos óticos estão intactos.”*
*”Não há razão física para ele não ver.”*
No começo, António procurou esperança.
Depois, procurou culpa.
Porque Pedro nem sempre fora cego.
**O Dia em Que Tudo Mudou**
A cegueira começou no mesmo dia em que a mãe de Pedro morreu.
Doze anos antes, Leonor Almeida morrera num acidente de carro numa estrada encharcada perto de Cascais. As autoridades disseram que perdera o controle. Trágico. Súbito.
António acreditou.
Pedro nunca falou sobre aquela noite.
Parou de fazer perguntas.
Parou de desenhar. Parou de olhar para o mundo.
E uma manhã, acordou sem conseguir vê-lo.
Com o tempo, António aceitou que algumas coisas não podiam ser consertadas—nem com dinheiro.
Então, focou-se no que podia fazer.
Tornou a casa segura. Contratou professores.
Aprendeu a ficar em silêncio quando o filho precisava.
Ainda assim, todas as noites, António se perguntava o que mais o filho perdera naquele dia, além da visão.
**A Menina Que Não Tinha Medo**
Numa tarde, Pedro sentava-se no pátio atrás de casa, tocando o velho piano que a mãe adorava.
A música era o único lugar onde a escuridão não o assustava.
Foi então que alguém entrou pelo portão lateral aberto.
As câmaras de segurança mostraram depois uma menina magra, descalça, com um casaco gasto e calças curtas demais. Movia-se com cuidado, como quem está acostumada a ser enxotada.
Chamava-se Beatriz Martins.
Os locais a conheciam como a menina silenciosa que pedia esmolas perto do cais. Nunca gritava. Nunca insistia. Observava as pessoas com atenção—demasiada, para a sua idade.
O segurança gritou:
*”Ei! Não podes estar aqui!”*
Pedro levantou a mão.
*”Por favor,”* disse calmamente. *”Deixa-a ficar.”*
Beatriz parou à sua frente.
Não pediu dinheiro. Não se desculpou.
Disse, sem hesitar:
*”Os teus olhos não estão estragados.”*
António avançou, irritado.
*”Chega,”* disse bruscamente. *”Tens de sair.”*
Mas Pedro virou-se para a voz dela.
*”O que queres dizer?”* perguntou.
Beatriz aproximou-se.
*”Algo dentro de ti está a impedir-te de ver.”*
As palavras doeram em António como um insulto.
Anos de médicos. Milhares de euros gastos.
E aquela menina sem-abrigo achava que sabia mais?
*”Pedro,”* alertou António. *”Não a ouças.”*
Mas Pedro estendeu a mão, encontrou o pulso de Beatriz e guiou-a suavemente até ao seu rosto.
*”Mostra-me,”* pediu.
**O Que Saiu da Escuridão**
Os dedos de Beatriz estavam frios e a tremer quando tocaram a sua face.
Depois, com precisão, enfiou uma unha sob a pálpebra inferior dele.
*”Para!”* gritou António.
Tarde demais.
Algo escorregou para a palma da mão dela.
Não era uma lágrima. Não era sujidade.
Era pequeno. Escuro. Movia-se.
António sentiu um aperto no estômago.
A criatura contorceu-se e emitiu um som agudo—como vidros a raspar.
Pedro soltou um suspiro—não de dor, mas de alívio.
Algo dentro da cabeça dele soltou-se, como se um peso que carregava desde criança tivesse desaparecido.
*”Afasta-te dele!”* gritou António.
Beatriz abriu a mão.
A criatura saltou para o chão de pedra e escondeu-se debaixo do piano.
*”Não a pises,”* disse calmamente. *”Se o fizeres, ela divide-se.”*
Silêncio.
António sussurrou: *”O que é isso?”*
*”Chamam-se Sombrizas,”* respondeu Beatriz. *”Vivem onde a verdade está escondida.”*
Pedro engoliu em seco.
*”Há outra,”* disse suavemente. *”O meu outro olho dói.”*
**O Lugar Onde as Memórias Estavam Guardadas**
O coração de António acelerou.
Se havia uma… tinha de haver outra.
Beatriz ajoelhou-se perto da parede, junto ao piano, passando os dedos por uma fenda estreita.
*”Há mais,”* murmurou. *”Estão a criar ninho.”*
De dentro da parede, vinha um som úmido—como se algo se mexesse.
António mandou remover o painel.
Dentro, havia dezenas de Sombrizas, agrupadas—não a alimentar-se de carne, mas de algo invisível.
Escuridão.
Memórias.
No centro, havia uma pequena caixa de música.
António reconheceu-a logo.
Pertencia a Leonor.
Dentro, havia uma fotografia de Pedro e da mãe, a rir ao sol.
Atrás, uma nota escrita a pressa:
*”Não consigo esconder mais. Ele viu tudo. O António nunca pode saber.”*
Pedro congelou.
Depois, sussurrou:
*”O acidente não foi acidente.”*
As memórias voltaram.
A discussão. O homem que os seguia. O medo.
Uma porta escondida na parede abriu-se.
Um homem saiu—Vítor Lourenço, um ex-funcionário que António despedira anos antes.
Foi preso em minutos.
Confessou tudo.
As ameaças. A perseguição. O acidente.
Pedro vira tudo.
E a mente dele escolhera a escuridão.
**A Luz Que Voltou**
As Sombrizas não eram uma doença.
Eram defesa.
Criaturas nascidas para proteger a mente quando a verdade era demasiado dolorosa.
Quando a luz da manhã entrou no pátio, Pedro piscou.
A cor voltou. Depois, as formas.
O primeiro rosto que viu claramente foi o de Beatriz.
*”Porque me ajudaste?”* perguntou.
Ela encolheu os ombros.
*”Já tive uma,”* disse. *”A minha não me cegou. Ensinou-me a ver a escuridão nas pessoas.”*Pedro sorriu, pegou na mão de Beatriz e prometeu nunca mais fechar os olhos para a verdade, enquanto António, finalmente em paz, olhou para os dois e entendeu que algumas curas vêm dos lugares mais inesperados.