**Capítulo 1: O Elevador Estragado**
A chuva em Lisboa não lava a sujeira, só a deixa mais escorregadia. Era nisso que eu pensava enquanto encarava o aviso “Avariado” colado com fita adesiva nas portas de aço do elevador. Estava escrito numa letra torta, no verso de um panfleto de uma pizzaria. Era a terceira vez este mês.
Fiquei ali, apertando as rodas da minha cadeira, sentindo o frio do saguão penetrar nas minhas pernas sem vida. O meu nome é Miguel. Há três anos, era um chefe de obra, erguendo prédios que riscavam o céu desta cidade. Media um metro e oitenta e cinco, tinha músculos de tanto carregar cimento, e uma mulher que ria como os sinos da Sé numa manhã de domingo.
Até que um bêbado na A1 decidiu mudar tudo. Agora, a Joana está debaixo da terra, e eu estou nesta cadeira, vivendo de uma pensão de invalidez num prédio onde os canos do aquecimento batem como tiros a noite toda.
“Merda,” gritei, batendo com a palma da mão no apoio da cadeira.
O som ecoou nos azulejos amarelados. Tinha duas opções: esperar pelo senhorio, um gajo chamado António que cheirava a vinho do Porto e desinteresse, ou arrastar-me pelas três escadas abaixo de costas. Era um método humilhante—travava as rodas, puxava o corpo degrau por degrau, e depois arrastava a cadeira de cinquenta quilos atrás de mim. Era a minha vida.
“Estás zangado outra vez.”
A voz veio das sombras debaixo da escada.
Virei a cadeira. Era o miúdo. O Leandro.
Ele morava no 3B, mesmo em frente ao meu apartamento. Não sabia muito sobre ele, só que nunca via os pais. Era uma criança abandonada, magro como um palito, sempre com um casaco cinzento três vezes maior que ele, as mangas gastas a cobrir-lhe os nós dos dedos.
“Não estou zangado, Leandro,” menti, a voz rouca. “Só cansado. O elevador está estragado.”
O Leandro saiu da escuridão. Parecia pior que o habitual. A pele dele tinha um tom translúcido, como papel velho. Olheiras roxas cavadas sob os olhos claros, cinzentos como nevoeiro. Estava a tremer, mesmo com tanto casaco.
“O António só vai arranjar isso na terça,” disse o Leandro, aproximando-se. “Está a ver o jogo.”
“Terça,” murmurei. “Ótimo. Espetacular.”
Olhei para as escadas. Pareciam a serra da Estrela.
“Posso ajudar-te,” disse o Leandro.
Quase me ri. O miúdo parecia que um vento mais forte o derrubaria. “Obrigado, rapaz, mas a não ser que tenhas um foguetão escondido nesse casaco, não podes ajudar.”
O Leandro não sorriu. Ele nunca sorria. Só me encarava com aqueles olhos cinzentos que pareciam rodopiar, como fumo preso num vidro.
“Não é para te carregar,” sussurrou. Meteu a mão no bolso. “É… posso curar-te.”
“Sabes arranjar elevadores?”
“Não,” respondeu. “Posso curar-te a ti.”
O ar no saguão pareceu gelar. O zumbido da máquina de venda parou subitamente. Por um segundo, só se ouvia a chuva a bater contra a porta de vidro.
“O que estás a dizer, miúdo?” perguntei, mais seco do que queria.
O Leandro deu mais um passo. Abriu a mão.
Na palma pequena e pálida estava uma moeda. Mas não era um euro ou cinquenta cêntimos. Era pesada, prateada e escura, quase preta nas ranhuras. Parecia feita à mão, com sulcos estranhos—espirais e linhas que lembravam relâmpagos.
“A minha avó deu-me isto antes de morrer,” sussurrou. “Chamava-lhe a Última Sorte. Dizia que todos nascem com um balde de sorte. Algumas pessoas desperdiçam-na. Outras… têm-na roubada.”
Olhou para as minhas pernas paralisadas.
“Roubaram a tua, Miguel.”
Senti um nó na garganta. Odiava pena, especialmente de uma criança. “Guarda isso, Leandro.”
“Eu ainda tenho um pouco,” insistiu, ignorando-me. “Guardei-a. Não sabia para quê. Pensei em usá-la para trazer a minha mãe de volta, mas… ela não vai voltar.”
Respirou fundo.
“Quero que fiques com ela.”
**Capítulo 2: A Troca**
Encarei a moeda. Ela parecia sugar a luz fraca do saguão em vez de a refletir.
“Leandro, para com isso,” disse. “Não posso ficar com o teu amuleto. Vai comprar chocolates ou coisa assim.”
“Isto não compra chocolates!” gritou, a voz a falhar. Era a primeira vez que o ouvia levantar a voz. Parecia desesperado, lágrimas nos olhos cinzentos. “Isto compra oportunidades. ComprEu fechei os olhos, sentindo o peso da moeda na palma da minha mão, e percebi que a única maneira de quebrar o ciclo era aceitar o meu destino e deixar a escuridão partir comigo.