O sol mal havia despontado sobre os baixos telhados de Bragança, uma cidade portuguesa de médio porte que se orgulhava da ordem, da tradição e da imagem cuidadosamente preservada de serena respeitabilidade.
O calor chegou cedo naquele dia, apertando as calçadas e os edifícios de pedra como se a própria cidade contivesse a respiração.
Na praça central, onde um modesto tribunal dava para uma fonte construída décadas atrás, a vida transcorria segundo a rotina e o costume.
Essa rotina desfez-se antes do meio-dia.
A juíza Carlota Mendes caminhava com firme determinação em direção ao tribunal, com a pasta bem apertada contra o lado, postura ereta apesar do peso do escrutínio constante que a seguia para todo lado.
Era uma juíza nomeada após anos de trabalho incansável, conhecida por suas sentenças precisas e pela recusa inquebrantável de ceder à pressão. Nos tribunais, sua voz transparecia autoridade.
Porém, nas ruas de Bragança, sua presença inquietava aqueles que acreditavam que o poder deveria ter certa aparência e certa sonoridade.
Para alguns, ela não era juíza. Ainda era a mulher negra que ousava ocupar um espaço que julgavam reservado para outros.
Perto da fonte, vários veículos policiais estavam estacionados desordenadamente, bloqueando parcialmente a passagem. Um camião de limpeza municipal estava parado perto, com o motor a roncar ruidosamente.
Um grupo de agentes fardados, à sombra, riam com voz despreocupada e alta, como se a praça lhes pertencesse.
Um deles, o sargento Edgar Teixeira, apoiava-se naturalmente num carro-patrulha, com uma mangueira enrolada aos seus pés e a água a correr livremente pelo pavimento.
Tinha fama de valentão e de crueldade disfarçada de humor, um homem que gostava de lembrar aos outros a sua aparente autoridade.
Quando viu a juíza Mendes a aproximar-se, algo na sua expressão mudou.
— Olhem só isto — disse Edgar, e a sua voz ecoou facilmente por toda a praça —. Parece alguém vestido para uma reunião importante e não para a vida real.
Os agentes ao seu redor riram entre dentes. A juíza Mendes abrandou um pouco o passo, mas não mudou de rumo. Há muito que aprendera que reagir depressa dava a homens como ele exatamente o que queriam.
Edgar pegou na mangueira.
— Talvez precise de se refrescar — acrescentou em voz alta —. O calor sobe-lhe à cabeça.
Antes que alguém pudesse intervir, antes que o significado das suas palavras se assentasse por completo no ar, apontou a mangueira e abriu a torneira.
A força da água gelada atingiu-a no peito sem aviso. A sua blusa leve colou-se instantaneamente à pele. A pasta escapou-lhe das mãos e caiu no chão com um baque surdo. Por uma fração de segundo, toda a praça ficou em silêncio.
Depois, as gargalhadas explodiram.
Telemóveis surgiram nas mãos como se o instinto os tivesse convocado. O espetáculo era demasiado tentador para os espectadores habituados a presenciar humilhações a uma distância prudente.
A juíza Mendes não gritou. Não correu. Não suplicou. Ficou parada, com a água a escorrer pelas mangas, o cabelo colado ao rosto, e olhou diretamente para Edgar Teixeira.
Leu o nome bordado no uniforme. Anotou o número da matrícula. Memorizou a viatura estacionada atrás dele.
Edgar aproximou-se mais, sorrindo.
— O que vais fazer agora? — perguntou com sarcasmo —. Chamar alguém importante?
Ela inclinou-se lentamente, apanhou a sua pasta e olhou-o nos olhos.
— Já fizeste o suficiente — disse com calma.
Sem dizer mais nada, virou-se e caminhou em direção ao tribunal, cada passo deliberado, cada movimento observado.
Dentro do seu gabinete, a juíza Mendes fechou a porta e respirou fundo uma única vez. As mãos tremeram-lhe brevemente, não de medo, mas da violência da contenção. Depois sentou-se e começou a escrever.
Registou a hora exata. O local preciso. Os nomes das testemunhas que reconheceu. Solicitou formalmente a preservação das gravações das câmaras de vigilância dos estabelecimentos próximos e das câmaras municipais.
Apresentou uma queixa detalhada à supervisão interna e enviou cópias aos tribunais federais competentes.
O seu colega, o juiz Alberto Costa, entrou cautelosamente no seu gabinete mais tarde, já ao final da tarde.
— Carlota — disse em voz baixa —, sabes que isto não vai ficar pequeno.
Ela olhou-o com firmeza.
— Nunca foi pequeno — respondeu. — Só parecia porque gente como ele conta com o silêncio.
Ao cair da noite, o vídeo espalhara-se por redes locais e grupos de mensagens privadas. Os comentários choveram, alguns trocistas, outros indignados, e muitos a revelar mais sobre a comunidade do que alguém esperava.
Então, alguém a identificou. «Aquela é a juíza Mendes», disse uma voz numa gravação. «É juíza federal.»
As gargalhadas na vida de Edgar Teixeira cessaram. Correu para o seu superior, o capitão Rui Barros, exigindo que o tranquilizasse.
— Não foi nada — insistiu Edgar. — Só uma brincadeira que passou dos limites.
O rosto do capitão Barros endureceu.
— Não fales com ninguém — disse com dureza. — Nem com os teus amigos, nem com a imprensa, nem com o teu sindicato. Deixa que este gabinete trate disto.
Atrás de portas fechadas, o pânico instalou-se. Arquivos desapareceram dos departamentos técnicos. Mensagens anónimas foram enviadas. Pressão subtil foi exercida sobre possíveis testemunhas.
Não funcionou. A procuradora Sofia Martins assumiu o caso com determinação que beirava a ferocidade. Pediu gravações adicionais. Exigiu registos de comunicações. Falou com testemunhas que outros haviam ignorado.
Uma funcionária municipal, Diana Marques, deu um passo em frente apesar do medo visível.
«Ele apontou primeiro», testemunhou. «Disse que queria fazê-la sentir-se pequena.»
O dono de uma loja forneceu um áudio que não deixava margem para interpretação.
A audiência atraiu uma multidão que transbordou o corredor. Quando a gravação foi reproduzida no ecrã, a sala ficou em silêncio. A voz de Edgar ecoou, clara e inconfundível.
«Queria humilhá-la», disse na gravação. «Fiz porque pude.»
Quando lhe pediram para responder, engoliu em seco com dificuldade.
«Achei que era intocável», admitiu. «Enganei-me.»
A sentença foi firme. Impostas sanções administrativas. Aberta uma investigação criminal por abuso de autoridade. O capitão Barros foi afastado, pendente de revisão.
Dias depois, a praça encheu-se novamente, desta vez de residentes com microfones a contar histórias que carregavam na memória há anos.
A juíza Mendes estava entre eles, a ouvir, compreendendo que o que lhe acontecera era apenas uma gota numa tempestade muito maior.
Naquela noite, ao fechar a janela do gabinete e apagar a luz, sorriu discretamente. Não com triunfo, mas com determinação. Abrira-se uma fenda, e não se fecharia facilmente.
O respeito, uma vez exigido, não recua. E Bragança nunca mais seria a mesma.