O mistério que nenhum médico resolveu até a babá olhar os travesseiros

6 min de leitura

**Leonor Pires subiu a grandiosa escadaria da residência pela primeira vez, arrastando uma mala compacta e com o coração cheio de esperança cautelosa. Aos 26 anos, recém-formada em enfermagem avançada, tinha acabado de ser contratada como cuidadora pessoal do pequeno Rodrigo Mendonça, filho de quatro anos do milionário empresário Vasco Mendonça, conhecido como “O Xerife”.**

A propriedade era impressionante: três andares de arquitetura neoclássica rodeados por jardins tão vastos e bem cuidados que pareciam um parque botânico, com uma piscina tão grande que poderia ser confundida com um lago artificial. Mas o que mais chamou a atenção de Leonor foi o silêncio, pesado e quase sobrenatural. Uma casa daquele tamanho, com tantos recursos, deveria estar cheia de vida, movimento e risadas infantis. Em vez disso, havia apenas um silêncio denso, uma atmosfera carregada de uma tristeza antiga.

“Deve ser a nova cuidadora.”

Uma voz firme e autoritária ecoou no hall de mármore. Era Edgar Castro, o mordomo da família há quase vinte anos, um homem de cerca de 55 anos com postura militar impecável e um olhar severo que a avaliou da cabeça aos pés.

“Sou Edgar. Espero que tenha lido e memorizado todas as instruções que enviamos.”
“Sim, senhor, li várias vezes”, respondeu Leonor, lembrando-se do documento detalhado que recebera. As instruções pareciam mais adequadas a uma unidade de isolamento do que a uma casa.

O menino, Rodrigo, supostamente estava gravemente doente, e qualquer esforço físico era estritamente proibido. Os remédios deviam ser administrados com precisão de segundos, não minutos. Ele não podia receber visitas, nem sair da mansão em hipótese alguma. E havia uma regra estranha: limitar ao máximo as interações verbais, apenas o necessário para os seus cuidados.

“O jovem Rodrigo está no seu quarto no terceiro andar, ala oeste”, disse Edgar, sem o menor traço de calor humano. “Siga as regras à risca. Qualquer desvio será comunicado ao Sr. Mendonça e o seu contrato será rescindido. Valorizamos discrição e obediência aqui. Teremos uma relação profissional se compreender isso.”

Leonor assentiu, sentindo um nó no estômago. Subiu a escada larga e carpetada até o terceiro andar, o coração batendo forte. Esse era o seu primeiro grande emprego desde a formatura. Especializara-se em enfermagem pediátrica e cuidados intensivos por uma razão profundamente pessoal: perdera um irmão mais novo ainda na adolescência, vitimado por uma doença que os médicos demoraram a diagnosticar.

Naquele dia, jurara que nunca mais deixaria uma criança sofrer à sua frente sem fazer tudo o que poderia ser feito.

A porta do quarto de Rodrigo era de madeira maciça, mas decorada com adesivos de super-heróis e foguetes espaciais, embora parecessem desbotados, como se estivessem ali há muito tempo sem que ninguém se importasse em trocá-los. Bateu suavemente.

“Rodrigo, sou eu. Vim cuidar de ti.”

Silêncio.

Abriu a porta devagar e deparou-se com uma cena que lhe partiu o coração. No meio de um quarto enorme, digno de um hotel de luxo, havia uma cama king-size cercada por equipamentos médicos que mais pareciam um cubículo hospitalar do que um quarto de criança.

E no centro daquela cama, quase perdido entre uma montanha de almofadas, estava um menino. Era pequeno e magro de mais para os seus quatro anos. Rodrigo tinha cabelo castanho desalinhado, olhos verdes enormes e uma palidez doentia que contrastava brutalmente com os lençóis de algodão egípcio. O ar no quarto cheirava a uma mistura de antisséptico e confinamento.

“Olá, Rodrigo. Sou a Leonor.”

O menino olhou para ela com uma desconfiança que a surpreendeu. Não era a timidez habitual de uma criança—era a resignação de um adulto.

“Também vais embora?”

A pergunta, tão simples e direta, estava tão cheia de tristeza que Leonor teve de engolir em seco para conter as lágrimas.

“Porque haveria de ir embora?”
“Todas as tias vão embora. O papá diz que é porque eu estou muito doente.”

Leonor aproximou-se devagar, como quem se aproxima de um animal assustado, e sentou-se na beirada da cama, mantendo certa distância.

“Bem, eu sou bastante teimosa. Não vou a lugar nenhum tão facilmente. E além disso, quero saber que doença tens.”

Rodrigo, sem sair do seu ninho de almofadas, apontou para uma mesinha de aço inoxidável ao lado.

“Muitas doenças. Tomo remédios o dia todo.”

Leonor levantou-se e aproximou-se da mesa. Congelou. Era como uma farmácia inteira. Contou pelo menos 20 frascos diferentes: antibióticos de largo espectro, anti-inflamatórios potentes, doses altíssimas de vitaminas, suplementos, xaropes para tosse, gotas descongestionantes, adesivos…

“Há quanto tempo estás doente?”, perguntou, pegando num dos frascos.

Rodrigo tentou contar nos dedos, mas desistiu.

“Sempre. A mamã morreu quando eu nasci. O papá diz que foi porque fiquei doente na barriga dela.”

Mais uma vez, pensou Leonor, uma criança carregando uma culpa que não lhe pertence.

“Não é tua culpa que a tua mãe tenha partido”, disse Leonor com uma doçura que contrastava com o frio do quarto. “Às vezes, os adultos estão demasiado tristes para explicar as coisas como devem ser.”
“Conhece o meu pai?”
“Ainda não. Mas gostava muito de o conhecer.”

Rodrigo encolheu-se entre as almofadas. Leonor reparou nelas. Havia pelo menos oito ou nove, enormes, todas impecavelmente brancas.

“Porque tantas almofadas?”, perguntou com curiosidade profissional.
“O Dr. Filipe diz que preciso delas, que tenho de estar deitado o tempo todo. As almofadas ajudam-me a respirar.”

Leonor franziu a testa. Uma criança de quatro anos não devia estar deitada o tempo todo, a menos que estivesse em estado crítico. Embora pálido, a respiração de Rodrigo em repouso parecia normal.

“Dói quando respiras?”
“Às vezes, especialmente à noite. E canso-me. E a andar… não consigo andar muito, fico cansado.”

Leonor observou-o com olhar clínico. O menino estava claramente debilitado, mas algo não batia certo. Tinha experiência na enfermaria pediátrica do hospital regional. Já vira fibroses císticas, defeitos cardíacos congénitos graves e leucemias. Rodrigo não apresentava os sinais claros de nenhuma patologia específica que ela conseguisse identificar instantaneamente.

“Rodrigo, quando foi a última vez que brincaste no jardim?”

Os olhos do menino iluminaram-se por um instante, antes de se apagarem novamente.

“Jardim… não posso ir ao jardim. É perigoso. Perigoso. O Dr. Filipe diz que posso ficar mais doente.”

Leonor ficou cada vez mais intrigada. Isolar uma criança assim não era protocolo médico padrão, nem mesmo em casos de imunodeficiência grave. Sempre se buscava um equilíbrio.

“E se lermos uma história? Tenho um livro na minha mala sobre um dragão que não queria cuspir fogo.”

Os olhos de Rodrigo arregalaram-se de surpresa.

“Fogo? Não me faz mal?”
“Claro que não, Rodrigo. Ler histórias cura o tédio, que é uma doença terrível.”

Quando começou a ler, reparou numa coisa estranha: o menino parecia fascinado pela sua voz, como seRodrigo olhou para ela com um sorriso tímido, seu rosto iluminado pela primeira vez em anos, e sussurrou: “Obrigado por me ensinar que nem todas as histórias precisam ter um final triste.”

Leave a Comment