Ela chamou meu filho de mentiroso patológico por dizer que o pai era general. Quando a comitiva chegou, a expressão dela não teve preço.

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Parte 1: A Chegada
Capítulo 1: A Chamada Que Parou o Pentágono

Já enfrentei insurgentes nas vielas poeirentas de Bagdade. Negociei com senhores da guerra nas montanhas gélidas do Hindu Kush. Segurei as mãos de homens muito melhores do que eu enquanto o mundo ardia ao nosso redor.

Mas nada—absolutamente nada—me assusta mais do que ver o nome do meu filho aparecer no meu telefone seguro durante um briefing classificado.

O Leandro tem dez anos. É calado. Mantém-se discreto. Gosta de desenhar, adora história militar e esforça-se mais do que qualquer criança que conheço para passar despercebido.

Por isso, quando a secretária da diretora do Colégio São Tomás—uma das escolas privadas mais prestigiadas de Lisboa—me ligou às 10h de uma terça-feira, o meu estômago caiu como um paraquedista que falha o cabo de abertura.

A sala estava cheia de coronéis e analistas estratégicos. Levantei a mão, silenciando o ambiente.

“Sousa,” respondi.

“Sr. Sousa,” a voz do outro lado era cortante, glacial e burocrática. “Precisamos que venha imediatamente. Houve… um incidente relacionado com a honestidade do Leandro. Temos uma política de tolerância zero para mentiras patológicas no São Tomás.”

Mentiras?

O Leandro não mente. É péssimo nisso. Não consegue nem dizer que escovou os dentes sem piscar o nariz como um coelho.

“O que é que ele disse?” perguntei. A minha voz era baixa, mas na sala silenciosa ecoou como um trovão.

“Ele insistiu em contar histórias fantasiosas à turma sobre a sua carreira,” suspirou ela, com aquele tom condescendente típico dos subúrbios. “A professora Dona Margarida está muito perturbada. Era o dia das apresentações da Semana das Profissões. O Leandro afirmou que o senhor é um General de quatro estrelas. Pedimos para parar de inventar histórias para impressionar os colegas, mas ele persistiu. Chegou a gritar com a professora. Está a perturbar o ambiente de aprendizagem.”

Fiquei em silêncio.

Olhei para o meu peito.

Para as quatro estrelas prateadas a brilhar nas minhas dragonas.

Para as filas de condecorações que contam trinta anos de serviço ao país—Guiné, Bósnia, Afeganistão, Iraque.

Para a fita da Medalha de Valor no topo, um pequeno toque de cor que costuma impor respeito em qualquer sala de Lisboa.

“Compreendo,” disse, baixando o tom. “Então ele está em apuros por dizer que eu sou General?”

“Por mentir, Sr. Sousa. Pela audácia da mentira. Sabemos que… lares monoparentais podem ser complicados, e talvez ele esteja a procurar uma figura paterna, mas não podemos permitir que invente vidas para esconder a realidade. A Dona Margarida suspeita que o senhor trabalha em… limpeza? Ou talvez como motorista? Não há vergonha nisso, mas o Leandro tem de aceitar.”

A fúria que me invadiu não era quente. Era gelada. Zero absoluto.

“Não façam nada,” disse. “Estou a caminho.”

Desliguei.

Levantei-me. A sala de oficiais levantou-se comigo, por instinto.

“Senhores,” disse, “a reunião está suspensa. Tenho um problema para resolver.”

Não peguei no meu carro pessoal.

Olhei para o meu assistente, o Capitão Machado, um homem que levantava pesos como se fossem penas.

“Machado,” disse. “Chama o destacamento. Todos. Vamos à escola.”

Capítulo 2: A Longa Viagem

A distância entre o Quartel-General e os jardins impecáveis do Colégio São Tomás, nos arredores de Lisboa, é de apenas vinte quilómetros, mas são dois mundos diferentes.

Um é o cimento, o aço e o peso da segurança global. O outro é o tijolo antigo, a hera e o peso das aparências.

Sentei-me no banco traseiro do blindado preto, a observar o comboio de viaturas a abrir caminho no trânsito da A5. As luzes piscavam, afastando o mar de carros.

As minhas mãos repousavam nos joelhos. Os nós dos dedos estavam brancos.

Sou viúvo. A minha mulher, a Marta, faleceu há três anos de cancro. Desde então, sou só eu e o Leandro. Tentei protegê-lo do peso da minha patente. Não uso o uniforme em casa. Para ele, sou apenas “Pai”. Faço panquecas—mal. Ajudo nos trabalhos de casa—mal.

Mas ele sabe o que eu faço. Sabe por que desapareço durante semanas. Sabe por que há homens com auriculares estacionados no fundo da nossa rua às vezes.

Ele tem orgulho disso.

E aquela professora, a Dona Margarida, estava a tirar-lhe isso. Estava a usar o orgulho dele como arma para o humilhar.

O Capitão Machado virou-se do banco da frente. “Senhor? Chegamos em cinco minutos. Quer que avisemos a polícia local? Tecnicamente, isto é um movimento não oficial.”

“Não,” disse, a olhar para as árvores a passar. “Sem aviso. Entramos a frio.”

Verifiquei o meu reflexo no vidro escurecido.

Farda de gala.

Impecável. Afiada. A vinca nas calças podia cortar vidro.

“Chamou-lhe mentiroso, Machado,” disse, quase para mim mesmo.

“Senhor?”

“Disse ao meu filho que estava a mentir sobre mim. Disse-lhe que inventava histórias porque não tem uma figura paterna. Assumiu que, porque eu sou negro e ele é negro, eu devo ser o porteiro.”

O maxilar de Machado tensionou-se. Era um Comando. Já viu coisas que envelheceriam um homem num instante. Mas parecia furioso.

“Isso é um erro, General. Um erro tático.”

“Grande,” respondi.

Parámos às portEntão, enquanto o sol se punha sobre os jardins do São Tomás, o Leandro sorriu finalmente livre, sabendo que a verdade, tal como a bússola do seu pai, sempre encontra o norte.

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