Tive de inspecionar o novo prédio de apartamentos. O habitual: roupas caras, clima artificial e correria. Mas quando cheguei ao portão, tudo parou.
A poeira cinzenta cobria o canteiro de obras como um nevoeiro espesso que quase não deixava ver nada, mas nem toda aquela sujeira escondia aquela silhueta.
“Senhor Mendes?” perguntou o meu motorista, nervoso. “Aconteceu alguma coisa?”
Não respondi. Empurrei a porta e saí correndo, sem me importar que os meus sapatos de grife ficassem encharcados de lama até aos tornozelos.
Lá estava ela. Uma rapariga magricela, com um capacete gasto e um colete demasiado grande para o seu corpo. Estava a carregar cimento sob o sol, encharcada em suor. Mas quando se virou para limpar o rosto… senti como se algo me tivesse trespassado o peito.
Aquele olhar. Aqueles malditos olhos verdes.
Eram idênticos aos da minha esposa, que já não está aqui. Os mesmos da minha pequena Joana, que desapareceu no parque há vinte anos e que todos me garantiram ter morrido.
“Tu! Ei, tu!” gritei-lhe com a voz a falhar.
Ela deixou cair a pá, assustada, e recuou, baixando a cabeça.
“Desculpe, patrão,” disse a tremer. “Juro que não estava a fazer corpo mole, só estava a secar o suor. Por favor, não me despejar, tenho a minha avó muito doente.”
Aproximei-me tanto dela que senti o cheiro do cimento fresco no seu uniforme. Peguei-lhe nas mãos, cheias de calos e cortes.
“Não vou despedir-te…” disse-lhe, com lágrimas nos olhos. “Olha para mim. Como te chamas?”
Ela ergueu o olhar, confusa e assustada. “Chamo-me Celeste, senhor… sou só uma operária.”
“Não…” abanei a cabeça e afastei o cabelo sujo do seu pescoço. “Se és quem eu penso que és, tens de ter três sinais aqui.”
O que descobri no seu pescoço deixou-me paralisado. Mas, nesse momento, o encarregado da obra apareceu a correr e gritou-me algo que destruiu tudo o que eu pensava saber sobre o desaparecimento da minha filha.
O Encarregado Sabia Algo
O encarregado chegou a correr, com o rosto vermelho de raiva.
“Senhor Mendes! Afaste-se dessa rapariga já!”
Olhei para ele sem entender. Ainda tinha as mãos da Celeste nas minhas.
“Esta operária é problema,” continuou o encarregado, aos gritos. “Está aqui há uma semana e já está a criar confusão. Não pode incomodar os investidores!”
Celeste afastou-se de mim com um solavanco. Tremia toda.
“Não fiz nada de mal, Sr. António. O senhor agarrou-me.”
Senti uma fúria. Uma fúria que não sentia desde o dia em que perdi a Joana.
“Como se atreve a falar-lhe assim?” retorqui ao encarregado. “Esta rapariga não lhe fez nada.”
O Sr. António olhou para mim como se eu tivesse enlouquecido.
“Com todo o respeito, Senhor Mendes, o senhor não conhece esta gente. São todos mentirosos. Vêm de sabe-se lá onde, sem documentos, inventando histórias para ganhar pena.”
Algo no tom dele deixou-me ainda mais furioso. Mas também me fez pensar. Sem documentos? De onde vinha esta rapariga?
Olhei para a Celeste. Ela mantinha os olhos no chão, mas vi algo na sua expressão. Medo. Um medo profundo que ia além de perder o emprego.
“Onde moras?” perguntei-lhe, com suavidade.
Ela hesitou. Mordeu o lábio.
“Num… quarto alugado. No bairro da Mouraria.”
“Com quem?”
“Com a minha avó. Já lhe disse.”
“E os teus pais?”
O rosto dela contraiu-se. Uma lágrima escorreu-lhe pela face suja.
“Não os conheço, senhor. A minha avó diz que me abandonaram quando era bebé.”
O mundo parou para mim outra vez. Bebé. Abandonada. Avó. As peças começavam a encaixar de uma forma horrível.
“Quantos anos tens?”
“Vinte e três, acho. A minha avó não tem certeza.”
Vinte e três. A minha Joana teria vinte e três anos se ainda estivesse viva.
O encarregado bufou, impaciente. “Senhor Mendes, o senhor não devia perder tempo com…”
“Cale-se!” gritei-lhe. “Está despedido. Saia já daqui.”
O Sr. António empalideceu. Abriu a boca para protestar, mas algo no meu olhar impediu-o. Saiu resmungando pragas.
Quando ficámos sozinhos—ou tão sozinhos quanto se pode estar no meio de um canteiro de obras com cinquenta operários a olhar—ajoelhei-me diante da Celeste.
Ela recuou, assustada.
“Não vou magoar-te,” assegurei-lhe. “Só preciso que me ouças. Há vinte anos, perdi a minha filha num parque. Chamava-se Joana. Tinha três anos. Tinha os teus olhos. E três sinais no pescoço, exatamente aqui.”
Apontei para o local onde vira as marcas. Celeste levou instintivamente a mão ao pescoço.
“Muita gente tem sinais, senhor.”
“Não como esses. Formavam um triângulo perfeito. A minha esposa dizia que eram as três estrelas do Cinturão de Orion.”
Vi algo mudar na sua expressão. Um lampejo de reconhecimento.
“A minha avó…” sussurrou. “A minha avó sempre me diz que os meus sinais são especiais. Que são um sinal do céu.”
O meu coração batia tão forte que pensei que ia explodir.
“Posso vê-los?”
Ela hesitou por um longo momento. Depois, lentamente, tirou o colete e baixou a gola da t-shirt suada.
Lá estavam eles. Três sinais. Formando um triângulo perfeito. As estrelas de Orion.
Desmoronei-me. Caí de joelhos na lama e chorei como não chorava desde o funeral da minha esposa.
“És tu,” soluç”E agora, depois de tanto tempo perdido, resta-me aprender que o amor verdadeiro não se mede em anos, mas nos laços que resistem às mentiras e ao tempo.”