O corredor do Hospital Infantil de São José cheirava a lixívia e café queimado — como se o desespero se disfarçasse de limpeza.
Era Lisboa, numa noite de inverno em que o ar parecia mais fino e as luzes fluorescentes transformavam todos em sombras pálidas. As enfermeiras andavam depressa. As máquinas bipavam com uma paciência cruel. A cada instante, um monitor lembrava a alguém que o tempo ainda corria.
Rodrigo Mendes não conseguia parar de tremer.
Não era um tremor educado de nervosismo.
Era o tipo real — aquele que nasce nos ossos quando o cérebro se recusa a aceitar o que os olhos insistem em ver.
Há três semanas, ele vivia num cadeira de plástico ao lado do Quarto 312, com o fato engomado transformado num casaco de estranho, a barba crescendo como uma rendição lenta. O telemóvel colado à mão, como se dinheiro, poder e contactos pudessem discar um milagre.
Dentro do quarto, o seu filho Pedrinho — apenas três anos — estava ligado a monitores e tubos que pareciam grandes demais para um corpo tão pequeno. A cada dia, a criança ficava mais pálida, mais leve, mais silenciosa, como se a vida estivesse a apagá-lo lentamente.
Rodrigo construíra toda a sua fortuna numa única crença: tudo tem solução.
E agora estava num corredor de hospital, diante do primeiro problema que o dinheiro não conseguia vencer.
O Dr. Tiago Silva, chefe de Pediatria, pediu-lhe para “conversar com calma”, daquele jeito que os médicos têm quando estão prestes a arruinar a sua vida.
Rodrigo conhecia aquele olhar.
A voz cuidadosa. A respiração medida. Os olhos que não querem fitar os seus por muito tempo.
“Sr. Mendes”, começou o médico, escolhendo as palavras como se fossem vidro, “temos de ser honestos.”
A boca de Rodrigo secou. As mãos fecharam-se em punhos.
“Já tentámos tudo”, continuou o Dr. Silva. “Seis protocolos. Especialistas. Consultas internacionais. Exames que normalmente não fazemos. A condição do seu filho é… extremamente rara. Nos poucos casos documentados no mundo…”
O médico fez uma pausa.
E essa pausa disse mais do que qualquer frase.
Rodrigo sentiu o corredor inclinar-se.
“Quanto tempo?”, perguntou, a voz partida.
O Dr. Silva baixou o olhar.
“Cinco dias”, disse suavemente. “Talvez uma semana, se… se formos sortudos. Agora só podemos mantê-lo confortável. Evitar que ele sofra.”
Rodrigo encarou-o como se as palavras fossem uma língua que não entendia.
Cinco dias.
Isso era um prazo para um contrato.
Um itinerário de voo.
Um calendário de pagamentos.
Não a vida de uma criança.
“Tem de haver mais alguma coisa”, disse Rodrigo, agarrando o braço do médico com força desesperada. “O dinheiro não é problema. Eu trago qualquer pessoa de qualquer lugar. Diga um valor.”
O Dr. Silva não se afastou. Não vacilou.
“Já consultámos os melhores”, respondeu gentilmente. “Aqui e lá fora. Às vezes… a medicina chega ao seu limite.”
Às vezes.
Uma palavra que soava a rendição.
“Lamento”, acrescentou o médico, e o pedido de desculpas caiu como terra num caixão.
Quando o Dr. Silva se afastou, Rodrigo ficou parado até que as pernas, finalmente, o levaram de volta ao quarto.
Pedrinho estava lá, pequeno sob o cobertor do hospital, olhos fechados, respiração assistida, pele tão pálida que parecia a luz atravessá-lo. Rodrigo pegou na mãozinha fria do filho e apertou-a contra a testa como uma prece.
As lágrimas vieram sem permissão.
Como digo isto à Inês?, pensou.
Inês — a sua mulher — estava no Porto, num congresso médico. A dois dias de distância. Dois dias. E o filho deles tinha cinco.
Rodrigo continuou a olhar para o rosto de Pedrinho, tentando memorizá-lo como o cérebro faz quando pressente a perda.
Então a porta abriu-se de novo.
Rodrigo limpou as lágrimas depressa, esperando uma enfermeira.
Mas não era uma enfermeira.
Era uma criança.
Uma menina.
Pequena — talvez seis anos — vestindo um uniforme escolar gasto e um casaco castanho duas vezes maior que ela, como se o tivesse pedido emprestado a um primo mais velho. O cabelo escuro estava desgrenhado, como se tivesse corrido, e nas mãos segurava uma garrafa de plástico barata, dourada — daquelas vendidas em mercearias.
Rodrigo pestanejou.
“Quem és tu?”, exigiu. “Como entraste aqui?”
A menina não respondeu.
Aproximou-se da cama de Pedrinho com a seriedade de um soldado, subiu num banquinho e olhou para ele como se visse algo que os médicos não conseguiam.
“Eu vou salvá-lo”, disse.
Antes que Rodrigo pudesse reagir, ela abriu a garrafa.
“Ei — espera!” Rodrigo avançou.
Tarde demais.
A menina derramou a água no rosto de Pedrinho.
O líquido escorreu pela face e molhou a almofada. Algumas gotas correram em direção ao tubo de oxigénio.
Rodrigo arrancou-lhe a garrafa e afastou-a — com cuidado para não a magoar, mas furioso e aterrorizado.
“O que estás a fazer?”, gritou. “Sai! Sai daqui!”
Apertou o botão de chamada.
Pedrinho tossiu uma vez.
Depois ficou quieto outra vez.
A menina esticou a mão para a garrafa, como se fosse oxigénio.
“Ele precisa”, insistiu, a voz a tremer. “É água especial. Ele vai ficar melhor.”
As mãos de Rodrigo tremiam enquanto segurava a garrafa como prova.
“Não entendes nada”, ripostou, o medo a transformar-se em raiva porque o medo precisava de algum lugar para ir. “Fora! Antes que chame a segurança!”
Duas enfermeiras entraram a correr.
“O que aconteceu?”, perguntou uma.
“Esta menina entrou e deitou água no meu filho”, disse Rodrigo, erguendo a garrafa.
Do corredor, uma voz feminina ecoou como um trovão.
“Leonor! O que fizeste?”
Uma funcionária da limpeza entrou no quarto — trinta e poucos anos, cabelo preso, olhos vermelhos de preocupação. O uniforme dela parecia gasto, como só as vidas difíceis gastam o tecido.
“Peço imensa desculpa”, disse, agarrando a mão da menina. “Sou a Mariana. Ela é minha filha. Não devia estar aqui. Vamos embora.”
A menina começou a chorar.
“Mãe, eu só queria ajudar o Pedrinho!”
Rodrigo congelou.
Franziu a testa. “Espera.”
Mariana parou, tensa.
“Como é que a tua filha sabe o nome do meu filho?”, perguntou Rodrigo devagar.
Mariana engoliu em seco. Apertou a mão de Leonor com mais força.
“Eu… eu trabalho aqui”, disse rapidamente. “Talvez ela tenha visto no quarto—”
“Não”, interrompeu a menina, libertando-se um pouco. “Eu conheço-o. Nós brincávamos no infantário da tia Margarida.”
O peito de Rodrigo apertou.
“Que infantário?”, sussurrou.
“O meu filho nunca foi a nenhum infantário”, disse Rodrigo, a voz baixa, perigosa. “Ele tem uma ama em casa.”
Leonor encarRodrigo olhou para a garrafa dourada na sua mão e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se pequeno diante de um mistério que nem toda a sua fortuna podia explicar.