Pai Motociclista Vinga Filha Humilhada na Escola com Apoio de Gangue

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**Capítulo 1: O Cheiro da Chuva**

Eu conseguia sentir a chuva no ar.

Isso é o que acontece quando se trabalha com metal e graxa por quinze anos — você desenvolve um sentido para quando a pressão do ar cai. Mas, olhando para trás, talvez não fosse o tempo. Talvez fosse um aviso.

Limpei as mãos em um trapo de oficina, a graxa escurecendo o tecido, e olhei para o relógio. 14h45. Hora de buscar a Luísa.

“Ei, Zé! Já vai indo?” gritou o Tonho de baixo de um Opala 1970. Tonho não era pequeno; ele era um paredão de músculos com dois metros de altura que chorava com propagandas de fraldas.

“É. Prometi à Lu que íamos ao carrinho de sorvete se ela ganhasse uma estrela dourada hoje,” eu disse, pegando as chaves. “Fecha tudo se eu não voltar em uma hora.”

Entrei na minha velha F-1000. Não peguei a moto hoje. Estava tentando ser “pai”, não “vice-presidente” dos Lobos do Asfalto MC. Tentando me encaixar no molde que as mães da Associação de Pais do Colégio Santa Isabel achavam que eu deveria caber.

Eu era um ex-presidiário. Fiz três anos por agressão quando tinha vinte e dois — um erro envolvendo um cara que encostou a mão na minha irmã. Paguei minha dívida. Montei um negócio. Criei minha filha sozinho depois que a mãe dela sumiu.

Mas para o povo do bairro Santa Isabel, com seus jardins impecáveis e SUVs de luxo, eu era só o lixo que parou no CEP deles.

Parei em frente à escola. A fila de pais era o caos de sempre: carros caros e adultos impacientes falando nos fones Bluetooth. Estacionei uma quadra adiante para evitar os olhares atravessados e caminhei até o portão.

Foi quando ouvi as risadas.

Não eram risadas de crianças brincando. Era aquele riso cruel, cortante, que dá nó no estômago. Uma multidão se aglomerava perto do mastro da bandeira. Pais cochichavam. Crianças apontavam.

Empurrei a multidão, murmurando “com licença”.

Então a vi.

Meu coração não parou — ele se esfacelou.

Minha Luísa. Minha doce, tímida Luísa de sete anos, que desenhava borboletas e salvava minhocas do sol no asfalto.

Ela estava no chão.

Não estava brincando. Estava engatinhando.

Engatinhava de joelhos no cascalho afiado do pátio. Sua legging rosa estava rasgada nos joelhos. Sangue escuro manchava o tecido, tingindo as pedras cinzas de vermelho. Lágrimas escorriam pelo rosto, misturadas à poeira, mas ela não emitia um som. Estava com tanto medo que nem chorava.

De pé sobre ela, com os braços cruzados, estava a diretora. Dona Carla Mendes.

“Continua, Luísa,” a diretora ordenou. “Aqui não arrastamos os pés. Termina a volta.”

O mundo ficou vermelho. Um zumbido agudo invadiu meus ouvidos.

Não corri — teleportei. Um instante eu estava a três metros, no seguinte estava de joelhos no cascalho, segurando Luísa nos braços.

Ela se encolheu. Ela realmente se encolheu ao meu toque.

“Papai?” ela choramingou, a voz falhando. “Desculpa. Não foi por querer.”

“Shh, princesa, shh. Eu te peguei,” eu engasguei, apertando-a contra o peito. Sentia o coraçãozinho dela bater como um passarinho assustado. Olhei para os joelhos dela. A pele estava esfolada.

Me levantei, segurando-a, e virei para a diretora.

Sou um homem grande. Um e noventa, cento e vinte quilos. Tenho tatuagens que sobem pelo pescoço. Uma cicatriz corta minha sobrancelha esquerda. Normalmente, eu encolho os ombros pra parecer menor, pra não assustar os vizinhos.

Mas não hoje.

Fiquei em toda a minha altura. O ar ao redor pareceu esfriar dez graus. As risadas pararam. Os pais em volta ficaram em silêncio.

“Qual,” eu disse, a voz saindo como metal rangendo, “é o sentido disso?”

A diretora Mendes não recuou. Ajustou os óculos, me olhando com aquele desdém de sempre.

“Sua filha,” ela falou, alto o suficiente para todos ouvirem, “agrediu uma aluna. Minha filha, Sofia. Ela empurrou Sofia contra os armários.”

“É mentira!” Luísa soluçou no meu pescoço. “Ela pegou meu desenho! Rasgou! Eu só tentei pegar de volta!”

“Silêncio!” a diretora gritou. “Não toleramos violência, Sr. Silva. Como sua filha decidiu agir como um animal, decidi que ela deveria aprender a se locomover como um. Talvez engatinhar a ensine humildade.”

Eu olhei para a multidão. “E vocês? Só ficaram olhando? Um adulto forçando uma criança a ralar os joelhos no cascalho?”

A maioria desviou o olhar. Um pai de camisa polo resmungou. “Se ela machucou a Sofia, merece disciplina. Quem sabe se você a criasse direito, em vez de…” Fez um gesto vago pra minha macacão de mecânico.

A diretora sorriu. “Leve-a e vá, Sr. Silva. E não se preocupe em voltar amanhã. Está suspensa por três dias. Da próxima vez, ensine-a a não tocar em quem é melhor que ela.”

*Melhor que ela.*

A fúria que tomou conta de mim foi tão pura, tão tóxica, que pareceu ácido de bateria na boca. Meu punho se fechou. Queria destruí-la. Queria arrancar aquela escola tijolo por tijolo com as próprias mãos.

Mas olhei pra Luísa. Ela tremia. Se eu batesse naquela mulher, iria preso. Luísa iria pra adoção. Eles venceriam.

Respirei fundo. Empurrei o monstro de volta pra jaula.

“Tem razão,” eu disse, a voz quase um sussurro. “Vou levá-la.”

Caminhei até a caminhonete, carregando minha filha sangrando.

“Volta pro teu barraco!” alguém gritou do fundo da multidão.

Coloquei Luísa no banco do passageiro. Peguei o kit de primeiros socorros do porta-luvas e limpei seus joelhos. Ela arfava a cada toque do lenço com antisséptico.

“Papai, eu sou má?” ela perguntou, olhando pra mim com olhos marejados.

“Não, princesa. Você é a melhor coisa desse mundo,” eu disse, beijando sua testa. “E ninguém — ninguém — vai te fazer engatinhar de novo.”

Apertei o cinto nela. Entrei no carro.

Não liguei o motor de imediato. Peguei o telefone.

Não liguei pra diretoria. Eles estavam no bolso da diretora. Não chamei a polícia. Eles me odiavam.

Disquei um número que não usava pra “negócios” há dois anos.

“Tonho,” eu disse quando atendeu.

“E aí, chefe?”

“Coloca placa de ‘Fechado’ na oficina.”

“Por quê? Que que houve?”

“Chama a galera,” eu disse, olhando pra escola no retrovisor. “Chama o pessoal da Zona Leste também. E os Nômades, se tiverem na cidade.”

“Zé, que que tá rolando?” A voz do Tonho ficouE no fim, quando os motores se calaram e a poeira baixou, Luísa me ensinou que a verdadeira força não estava no barulho que a gente faz, mas no silêncio que a gente deixa para os outros pensarem.

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