**PARTE 1: A HUMILHAÇÃO**
Começou numa terça-feira. As manhãs de terça na Escola Básica do Vale do Carvalho sempre cheiravam a cera industrial, restos de pizzas da cantina e desespero. Eu estava sentada no fundo da sala da professora Guedes, tentando tornar-me invisível, a confundir-me com o plástico bege da mesa.
O trabalho era simples, ou pelo menos devia ser: «Profissões dos Nossos Pais». Tínhamos de apresentar um discurso de três minutos sobre o que os nossos pais faziam e levar um objeto que representasse o trabalho deles. Era o tipo de tarefa que acentuava as diferenças entre nós, embora os professores nunca o admitissem.
«O meu pai é cirurgião-chefe no Hospital da Misericórdia», anunciou o Tomás Monteiro, orgulhoso, erguendo um estetoscópio como se fosse um cetro real. «Ele salva vidas todos os dias.».
«A minha mãe tem uma imobiliária», disse a Sara Lopes, ajeitando o cabelo. «Ela vende as casas mais caras da cidade.».
E assim continuou. Médicos, advogados, engenheiros, gestores de fundos financeiros. Era um desfile de vidas estáveis e ordenados de sonho. Até que chegou a minha vez.
«Leonor? Toca a ti», disse a professora Guedes, espreitando por cima dos óculos.
Levantei-me com as pernas a tremer e caminhei até à frente da sala, segurando uma moeda militar desgastada com um tridente gravado. Não tinha PowerPoint nem um discurso ensaiado.
«A minha mãe… a minha mãe está na Marinha», murmurei.
«Fala mais alto, Leonor», pediu a professora.
Respirei fundo, tentando imitar a coragem que via nos olhos da minha mãe quando ela pensava que eu não a via. «A minha mãe é uma operacional das Forças Especiais», disse, a voz trémula mas clara. «Ela trabalha em operações secretas.».
A sala ficou em silêncio por um segundo. Um silêncio pesado, que precede a tempestade. Depois, veio a explosão.
«Ah, claro!», gritou o Tomás do fundo da sala, a rir-se. «Não há mulheres nas Forças Especiais! Isso é proibido ou coisa parecida. Quer dizer que ela vende conchinhas na praia?».
A turma inteira desatou a rir. Não eram risos leves—eram gargalhadas cruéis e cortantes. Até a professora Guedes soltou uma risadinha nervosa, como se eu estivesse a inventar uma fantasia para me consolar de ter uma mãe ausente.
«Isso foi… muito criativo, Leonor», disse a professora, indicando-me para me sentar. «Mas vamos manter-nos no mundo real neste trabalho.».
«Não estou a mentir», sussurrei, mas ninguém me ouviu por causa das gargalhadas.
«Ela também luta contra zombies nos videojogos?», gritou alguém.
Sentei-me, marcada como mentirosa. O meu rosto ardia. Não chorei—a minha mãe ensinou-me melhor do que isso. «Controla a respiração, Leonor. O pânico é o inimigo», dizia ela. Mas a humilhação doía mais do que qualquer ferida. Apertei a moeda na mão até sentir os bordos a cortar-me a pele.
Eles não sabiam das noites longas. Não sabiam das vezes que ela chegava a casa com ligaduras que tentava esconder. Não sabiam que, enquanto os pais deles assinavam contratos ou mostravam casas, a minha mãe estava em lugares que não existiam nos mapas, a fazer coisas que dariam pesadelos aos pais deles.
Mas não podia dizer-lhes isso. Tive de me calar e aguentar.
**PARTE 2: A INTERVENÇÃO**
No dia seguinte, o ambiente na escola estava pesado. O céu cinzento lá fora combinava com o meu humor. Caminhava pelos corredores de cabeça baixa, evitando olhares. Ouvia os sussurros: «Olha, lá vai a contadora de histórias.» «Pergunta-lhe se a mãe dela também é super-heroína.».
Estava na aula de História, a olhar para o parque de estacionamento molhado pela chuva, quando o intercomunicador tocou. Não eram os anúncios normais. Era um ruído agudo e estático que fez todos saltarem.
«Código Vermelho. Bloqueio imediato. Isto não é um exercício. Repito, Código Vermelho. Professores, fechem as salas.».
A voz da diretora tremia.
As gargalhadas pararam imediatamente. O sorriso do Tomás desapareceu. Num instante, a sala transformou-se de um local aborrecido numa cela de terror. A professora Guedes deixou cair o marcador.
«Tudo para o canto! Já! Em silêncio!», sussurrou, trancando a porta e apagando as luzes.
Agachámo-nos no canto, um amontoado de corpos trémulos e respirações ofegantes. Algumas raparigas choravam em silêncio. O Tomás hiperventilava, agarrado aos joelhos.
Senti um nó gelado no estômago, mas, estranhamente, a minha mente ficou clara. Avaliar. Adaptar. A voz da minha mãe outra vez. Observei a sala. A porta era de madeira, frágil. As janelas davam para o rés-do-chão. Estávamos vulneráveis.
Passaram-se dez minutos. Pareceram dez anos.
Então, ouvimo-lo.
Primeiro foi um ruído distante, depois um estrondo ritmado. Botas pesadas. Muitas. A correrem em sincronia pelo corredor. TUM-TUM-TUM-TUM.
Gritos começaram ao longe e foram abruptamente cortados.
«Estão a chegar», soluçou a Sara, com lágrimas no rosto.
Os passos pararam mesmo à porta da nossa sala.
Prendemos a respiração. A maçaneta não mexeu. Não houve batidas.
BAM!
A porta não se abriu—foi arrancada das dobradiças com um estrondo, batendo no quadro branco.
Seis figuras invadiram a sala. Eram assustadoras. Equipadas com fatos táticos—capacetes pretos, viseiras de visão noturna, coletes à prova de bala, armas automáticas com silenciadores apontados para a frente. Os lasers vermelhos cortavam a escuridão como cobras.
«MÃOS! DEIXEM VER AS MÃOS!», berrou uma voz distorcida por trás de uma máscara. Era mecânica, autoritária.
Gritámos. Não conseguimos evitar. Era o fim.
A equipa movia-se como uma máquina, revistando os cantos, protegendo o perímetro. O líder aproximou-se de nós. O laser da arma baixou, não para nos apontar, mas para garantir que o espaço estava seguro.
Parou mesmo à minha frente. Os outros operadores formavam um semicírculo, de costas para nós, protegendo a porta.
O líder baixou a arma. Respirou fundo, o som amplificado pelo rádio tático. Depois, desapertou o capacete e puxou-o para baixo.
Cabelo escuro e comprido caiu-lhe sobre os ombros, molhado de suor.
Era ela.
O rosto coberto de tinta de camuflagem, os olhos intensos e alerta, a procurar-me no meio das crianças assustadas até me encontrar.
«Mãe?», gaguejei.
O silêncio na sala foi mais pesado do que o próprio bloqueio. O Tomás estava com a boca aberta como se lhe tivessem caído os queixos. A professora Guedes parecia prestes a desmaiar.
A minha mãe ajoelhou-se, ignorando os 30 quilos de equipamento que trazia. «Leonor. Estás bem?».
«Estou«Estou bem», respondi, e pela primeira vez na minha vida, senti-me invencível.