Pai, aquelas crianças no lixo se parecem comigo!

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**Diário de Eduardo**

“Pai, aquelas duas crianças a dormir no lixo parecem iguais a mim,” disse o Pedro, apontando para os pequenos encolhidos num colchão velho na calçada. O empresário Eduardo Fernandes parou e seguiu com os olhos o dedo do filho de cinco anos. Havia duas crianças da mesma idade a dormir entre sacos de lixo, com roupas sujas e rotas, os pés descalços e feridos.

Um nó apertou-me o peito ao vê-las, mas tentei puxar a mão do Pedro para seguirmos para o carro. Tinha-o acabado de buscar na escola privada e, como todas as sextas, voltávamos para casa pelo centro da cidade. Era um caminho que eu evitava, preferindo bairros mais abastados. Mas o trânsito e um acidente forçaram-nos a passar por aquela zona pobre.

As ruas estreitas estavam cheias de sem-abrigo, vendedores ambulantes e crianças a brincar entre o lixo acumulado. No entanto, o meu filho soltou-se com força surpreendente e correu para as crianças, ignorando os meus protestos. Segui-o, preocupado não só com a miséria que via de perto, mas também com os perigos daquela zona. Roubos, drogas e violência eram comuns.

As nossas roupas caras e o relógio de ouro no meu pulso faziam de nós alvos fáceis. Pedro ajoelhou-se ao lado do colchão imundo e observou os rostos adormecidos daquelas crianças. Uma tinha cabelo castanho-claro, ondulado e brilhante apesar da poeira, igual ao dele, e a outra era morena com pele ligeiramente mais escura. Mas ambos tinham traços faciais idênticos aos do Pedro: as sobrancelhas arqueadas, o rosto oval delicado, até o covinho no queixo que ele herdou da falecida mãe.

Aproximei-me devagar, mas a inquietação transformou-se em algo próximo do pânico. Havia algo profundamente perturbador naquela semelhança, algo que ia além de uma mera coincidência. Era como ver três versões da mesma pessoa em tempos diferentes. “Pedro, vamos embora. Não podemos ficar aqui,” disse, tentando levantá-lo, mas sem conseguir desviar os olhos daquela visão impossível.

“Eles são iguais a mim, Pai. Olha para os olhos deles,” insistiu Pedro quando um dos pequenos se mexeu e abriu os olhos com dificuldade. Revelou dois olhos verdes idênticos aos do meu filho, não só na cor, mas também no formato amendoado, na intensidade do olhar e no brilho natural que eu conhecia tão bem. O miúdo assustou-se ao ver-nos e acordou o irmão com pancadas suaves mas urgentes no ombro.

Os dois levantaram-se, abraçando-se, visivelmente a tremer, não só de frio mas de medo puro. Reparei que ambos tinham os mesmos caracóis que o Pedro, só que em tons diferentes, a mesma postura, a mesma forma de se mover, até a maneira de respirar quando estavam nervosos. “Não nos magoem, por favor,” disse o de cabelo castanho, pondo-se à frente do irmão mais novo num gesto protetor que reconheci de imediato. Era exatamente como o Pedro protegia os colegas na escola quando um valentão os ameaçava.

As minhas pernas tremeram violentamente e tive de me apoiar na parede de tijolo para não cair. A semelhança entre as três crianças era impressionante, assustadora, impossível de atribuir ao acaso. Cada gesto, cada expressão, cada movimento era igual. O moreno abriu os olhos e eu quase desmaiei no local. Eram os olhos verdes penetrantes do Pedro, mas havia algo ainda mais perturbador neles. A expressão de curiosidade misturada com cautela, a forma particular de franzir a testa quando estava confuso ou com medo, até o modo como se encolhia ligeiramente quando se sentia assustado.

Os três tinham a mesma altura, o mesmo físico magro, e juntos pareciam reflexos perfeitos num espelho partido. Apertei-me contra a parede, sentindo o mundo a girar à minha volta.

“Como se chamam?” perguntou o Pedro com a inocência dos seus cinco anos, sentando-se no passeio sujo sem se preocupar em sujar o uniforme escolar caro. “Sou o Lucas,” respondeu o de cabelo castanho, relaxando ao perceber que o Pedro não era uma ameaça, ao contrário dos adultos que costumavam expulsá-los dos lugares públicos. “E este é o Mateus, meu irmão mais novo,” acrescentou, apontando com carinho para o moreno ao seu lado.

O mundo girou ainda mais rápido à minha volta, como se o chão tivesse desaparecido debaixo dos meus pés. Eram exatamente os nomes que eu e a Patrícia tínhamos escolhido para os outros dois filhos, caso a complicada gravidez resultasse em trigémeos—nomes anotados num papel guardado com amor na gaveta do criado-mudo, discutidos durante noites sem dormir, nomes que eu nunca mencionara ao Pedro nem a ninguém após a morte da minha mulher.

Era uma coincidência absolutamente impossível e terrível, que desafiava toda a lógica e razão. “Vocês vivem aqui na rua,” continuou o Pedro, conversando com as crianças como se fosse a coisa mais natural do mundo, tocando na mão suja do Lucas com uma familiaridade que me perturbou ainda mais. “Não temos uma casa de verdade,” disse o Mateus com uma voz fraca e rouca, provavelmente de tanto chorar ou pedir ajuda.

“A tia que cuidava de nós disse que já não tinha dinheiro para nos sustentar e trouxe-nos aqui no meio da noite. Disse que alguém apareceria para nos ajudar.”

Aproximei-me mais devagar, tentando desesperadamente processar o que estava a ver e a ouvir sem perder a sanidade. Os três não só pareciam ter a mesma idade e traços físicos, mas também partilhavam gestos automáticos e inconscientes. Todos os três coçavam a cabeça atrás da orelha direita quando estavam nervosos. Todos mordiam o lábio inferior no mesmo sítio quando hesitavam antes de falar. Piscavam os olhos da mesma forma quando se concentravam. Eram pequenos detalhes, impercetíveis para a maioria, mas devastadores para um pai que conhecia cada gesto do filho.

“Quantos dias estão sozinhos na rua?” perguntei, com a voz completamente partida, ajoelhando-me ao lado do Pedro no passeio sujo, sem me importar com o fato caro que vestia. “Três dias e três noites,” respondeu o Lucas, contando cuidadosamente com os dedos pequenos e sujos, mas com uma precisão que revelava inteligência. “A tia Marcia trouxe-nos aqui ao amanhecer e disse que voltaria no dia seguinte com comida e roupa limpa. Mas não voltou.”

O sangue gelou nas minhas veias. *Marcia*. Esse nome ressoou na minha mente como um trovão. Era o nome da irmã mais nova da Patrícia, uma mulher problemática e instável que desaparecera completamente da nossa vida logo após o parto traumático e a morte da irmã. A Patrícia falara dela muitas vezes, descrevendo como sofria de problemas financeiros, vícios e relacionamentos abusivos. Pedira dinheiro emprestado inúmeras vezes durante a gravidez, sempre com desculpas diferentes, e depois desaparecera sem deixar rasto.

Uma mulher que estivera presente no hospital durante todo o parto, fazendo perguntas estranhas sobre procedimentos médicos e sobre o que aconteceria aos bebés em caso de complicações. O Pedro olhou para mim com os olhos verdes cheios de lágrimas genuínas, tocando suavemente no braço do Lucas. “Pai, eles estão com tanta fome. Olha como são magros e fracos. Não podemos deixá-los aqui sozinhos.”

Olhei com mais atenção para as duas crianças na luz que começava a desaparecer e vi que estavam realmente desnutridas. As roupas rotas pendiam dos corpos frOs três irmãos cresceram juntos, formando uma família unida pelo amor que ultrapassou todas as barreiras do destino.

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