Tudo Estava Perdido Até Que uma Jovem Devolveu o Que Podia Salvá-lo

3 min de leitura

Capítulo 1: O Peso do Vazio
O silêncio no escritório de Artur Gonçalves, no 72º andar, pesava como concreto. Era uma manta fria que ecoava o céu de inverno de Lisboa além das janelas de vidro. O gabinete, outrora o centro de um império imobiliário que moldara a cidade, agora parecia um mausoléu. As estantes de mogno estavam vazias, as paredes nuas, as cadeiras de couro—exceto a em que ele se sentava—haviam sumido.

Artur, de 72 anos, era um fantasma na própria vida.

Um ano atrás, Leonor estava ali. Entrava com pressa, cheirando a ar fresco e ao perfume caro que ele lhe dera em cinquenta Natais. Deixava a velha pasta de couro sobre a mesa de milhões, ignorava os protestos dos assistentes e dizia que ele trabalhava demais.

Um ano atrás, Leonor morrera. Um aneurisma repentino, sem sentido, levando-a em menos de doze horas. E com ela, levou a cor do mundo de Artur.

Agora, os jornais alardeavam que ele “perdia tudo”. Mas estavam errados. Ele não perdia—dava. Liquidava a obra de uma vida. A Torre Gonçalves, os condomínios, a coleção de arte e, mais doloroso, a casa da família à beira-mar. Apagava-se, porque sem ela, nada fazia sentido.

“Pai, precisamos terminar.”

Artur ergueu os olhos. O filho, Ricardo, estava diante da mesa, sua silhueta nítida contra o céu plúmbeo. Ricardo, aos 45, era tudo que Artur fora: pragmático, implacável, alérgico a sentimentalismos. Via aquele processo não como tragédia, mas como loucura—um desmonte do legado da família.

“O leilão dos ativos corporativos começa às duas”, insistiu Ricardo, batendo a caneta no tablet. “Os documentos de dissolução só precisam da sua assinatura. Aqui.”

Deslizou uma pilha de papéis pela vastidão vazia da mesa.

Artur pegou a caneta dourada—um presente de um ex-presidente da Câmara. Sua mão, sempre firme, tremia. Cada assinatura era uma pá de terra sobre um caixão. O seu.

“Isto é um erro, pai”, disse Ricardo, tenso. “O luto está a turvar o seu juízo. Está a destruir o que nós—o que você—construiu.”

“O que eu construí, Ricardo”, Artur respondeu, a voz um rasgar de papel. “É vidro e aço. Não significa nada.”

“Significa tudo!” Ricardo andava de um lado para outro, os sapatos caros silenciosos no tapete. “É o nosso nome. E você está a queimá-lo porque está triste.”

Triste. A palavra era um insulto. Como chamar um maremoto de “aguaceiro”. Artur não estava triste. Estava esvaziado. Como um prédio sem revestimento, à espera do demolidor.

Assinou outra página. *Gonçalves Propriedades, S.A., Dissolvida.*

“Ela não teria querido isto”, tentou Ricardo, mudando de tática.

“Não ouses dizer-me o que ela teria querido”, Artur rosnou, a primeira centelha de fogo em meses. “Não fazes ideia.”

Ricardo estremeceu, depois cerrou os dentes. “Tudo bem. Faça como quiser. Mas dentro de uma hora, está feito. Este é o último ato.”

Artur ignorou-o, a mente a vagar de volta ao hospital. O cheiro a desinfetante. Os aparelhos a apitar sem propósito. O momento em que os desligaram. O caos. E no meio daquilo tudo, percebera que as coisas dela sumiram. O casaco, a carteira, a velha pasta de arquiteta.

Aquela pasta.

Fora o primeiro presente que lhe dera. Ele era um desenhador júnior; ela, a arquiteta estrela do escritório rival. Era de couro gasto, e ela a usara por cinquenta anos, muito depois de poder ter as melhores malas do mundo. Era ela.

Desaparecera do quarto do hospital. Roubada, supôs. Mais um pequeno roubo num universo que lhe levara tudo. Nunca soubera o que havia dentro. Só sabia que era a última coisa que ela tocara.

“Pai. Os papéis.”

Artur olhou para baixo. Uma assinatura faltava. Estava a ponto de carimbar sua própria aniquilação quando o intercomunicador, um dos poucos objetos restantes, buzou.

Ricardo atendeu. “O quê? Eu disse sem interrupções!”

A voz da assistente Marta, hesitante: “Desculpe, Sr. Gonçalves… ambos. Há… uma criança aqui. No lobby. Diz que tem algo para o Sr. Gonçalves. Diz que… pertenceu à Sra. Gonçalves.”

RicardoA menina, de mãos trémulas, entregou-lhe a velha pasta de couro, e nesse momento, sob o céu de Lisboa, Artur Gonçalves encontrou o caminho de volta a si mesmo.

Leave a Comment