Às oito da manhã, Beatriz Silva estava a limpar a mesa de vidro da sala quando avistou cinco carros luxuosos a parar no portão. Depois de quatro meses a trabalhar na mansão dos Almeida, percebeu imediatamente que este dia seria diferente.
Lá em cima, Rodrigo Almeida apontava pela janela para o filho de oito anos, Martim.
“Filho, as cinco mulheres de quem falámos chegaram. Vão ficar connosco trinta dias.”
Martim observou as mulheres elegantes a saírem dos carros.
“No final, tenho de escolher uma para ser a minha nova mãe, não é, pai?”
“Exatamente. Todas são cultas e vêm de famílias influentes. Tenho a certeza que vais gostar delas.”
“E se não gostar de nenhuma?”
“Vais gostar. Podem dar-te uma educação excelente e levar-te pelo mundo.”
De repente, o som de vidro a partir ecoou pela casa, seguido por uma voz furiosa.
“Empregada inútil! Partiste o meu copo de cristal caríssimo!”
Rodrigo e Martim trocaram olhares surpresos.
“O que foi isso?” perguntou Martim.
“Não sei. Vamos ver.”
Desceram as escadas a correr e encontraram Beatriz de joelhos no chão, a juntar os estilhaços, o dedo a sangrar. Uma morena alta olhava para ela, de braços cruzados.
“Este copo era cristal importado. Custou mais do que ela ganha num ano.”
“Foi um acidente,” murmurou Beatriz, olhos baixos.
“Um acidente?” a mulher riu-se. “Pessoas como tu não deviam tocar em coisas valiosas.”
“Com licença,” disse Rodrigo com firmeza. “O que se passa?”
A morena virou-se com um sorriso estudado. “Rodrigo, sou a Vanessa Monteiro. Acabei de chegar e a tua empregada partiu o meu copo.”
As outras quatro mulheres aproximaram-se, observando Beatriz no chão.
“Que situação desagradável,” comentou uma loira magra.
“Sou a Joana Castro,” acrescentou com frieza.
“Os acidentes acontecem,” tentou acalmar Rodrigo.
“Acontecem com pessoas sem classe,” disse Joana, fixando Beatriz. “Gente refinada sabe evitar.”
Martim passou pelo pai e correu para Beatriz.
“Bia, magoaste-te?”
Beatriz levantou os olhos, forçando um sorriso.
“Não é nada, anjinho. Só um arranhão.”
Vanessa franziu a testa. “Que intimidade estranha.”
Rodrigo interveio. “Já que estão todos aqui, deixem-me esclarecer. Esta é a Beatriz, a nossa empregada. E vocês são as candidatas.”
As mulheres apresentaram-se com orgulho: Vanessa, de uma família aristocrata de Lisboa; Joana, modelo e influencer que vivera em Paris; Catarina Rei, advogada corporativa; Dra. Mafalda Gonçalves, dermatologista com clínica privada; e Leonor Barros, arquiteta.
Durante tudo, trataram Beatriz como se não existisse.
“Ficarão aqui trinta dias,” explicou Rodrigo. “No final, o Martim decidirá com quem quero casar.”
“E a empregada?” perguntou Vanessa.
“Ela fica,” respondeu Rodrigo. “A Beatriz trabalha aqui há meses.”
Joana trocou um olhar com Catarina. “Esperamos que ela saiba o seu lugar.”
Martim agarrou a mão de Beatriz. “Bia, vem ver o desenho que fiz.”
“Ela tem de limpar a sujidade primeiro,” ralhou Mafalda.
“Não faz mal,” disse Beatriz suavemente. “Eu venho depois.”
Vanessa observou atentamente. “Interessante.”
Naquela tarde, as mulheres reuniram-se no pátio, a comparar presentes—tablets, viagens luxuosas, colégios de elite, remodelações do quarto.
Martim apareceu educadamente, agradecendo sem entusiasmo.
Depois, Beatriz chegou com sumo e bolinhos de canela. O rosto de Martim iluminou-se.
“Fizeste estes?”
“Fiz. E trouxe papel para origami.”
As mulheres observaram em silêncio enquanto a sua alegria era inconfundível.
Noite adentro, reuniram-se de novo.
“Isto com a empregada é inaceitável,” sussurrou Vanessa.
“Ele está demasiado apegado,” concordou Leonor.
“É inapropriado,” disse Catarina.
“Precisa de aprender hierarquia,” acrescentou Mafalda.
“E ela precisa de uma lição,” concluiu Vanessa.
Rodrigo, entretanto, não ignorou a mudança no filho. Martim voltou a rir, a comer, a viver.
Mais tarde, Martim mostrou-lhe um pássaro de origami.
“Ela é paciente,” disse. “Nunca grita.”
“Gostaste das senhoras?” perguntou Rodrigo.
“São simpáticas… mas a Bia é melhor.”
“Porquê?”
“Porque é verdadeira.”
“Vais despedi-la?” Martim perguntou, ansioso.
“Não,” prometeu Rodrigo. “Ela fica.”
O assédio começou dias depois—sujidade intencional, objetos escondidos, culpa atirada a Beatriz. Rodrigo instalou câmaras ocultas.
O que viu enfureceu-o.
Quando Martim a defendeu, Vanessa ameaçou-o.
“Se continuas a escolhê-la, terás de decidir.”
“Já decidi,” respondeu Martim. “Eu escolho a Bia.”
Rodrigo descobriu acusações falsas e investigações forjadas, ordenadas por Vanessa.
Na festa final, convencidas de que tinham vencido, as mulheres gabaram-se—sem saber que estavam a ser gravadas.
Rodrigo revelou tudo publicamente.
A verdade destruiu-as.
“Estas mulheres tentaram destruir uma pessoa bondosa porque o meu filho a amava,” disse Rodrigo.
“Quero que a Bia seja a minha mãe,” Martim disse baixinho.
Rodrigo pediu Beatriz em casamento à frente de todos.
Ela disse que sim, entre lágrimas.
As mulheres fugiram em desgraça.
Meses depois, Rodrigo e Beatriz se casaram com simplicidade. Martim chamava-lhe “Mãe”.
Mais tarde, nasceu a filha deles.
Recordando, Beatriz disse suavemente, “Cada dificuldade trouxe-me até aqui.”
E juntos, provaram que o amor não se define pelo estatuto, mas pela bondade, verdade e coragem.