Duarte Mendes parou no limiar da sala de terapia, o corpo a reagir antes que a mente conseguisse formar um único pensamento coerente. A pasta escorregou-lhe da mão e caiu contra a parede com um som baixo que mal registou.
As cadeiras de rodas, que normalmente enquadravam o espaço como sentinelas silenciosas, estavam vazias junto à janela, empurradas para o lado como se já não pertencessem ali.
No chão acolchoado, os seus filhos gémeos estavam sentados de pernas cruzadas, as pernas magras estendidas à frente, enquanto Leonor Nogueira se ajoelhava ao lado deles, as mãos pousadas levemente nas suas panturrilhas enquanto lhes falava com uma voz tão calma que parecia quase irreal.
Por um momento, Duarte não conseguiu respirar. A imagem foi suficiente para desencadear uma onda afiada de medo dentro dele, o tipo que nasce de meses de avisos, relatórios médicos e limites cuidadosamente ensaiados, martelados na sua cabeça desde o acidente.
—O que se passa aqui? —perguntou, embora as palavras tenham saído tensas e desiguais.
Leonor ergueu o olhar devagar, claramente surpresa por vê-lo, mas não retirou as mãos.
—Eles pediram para se sentar no chão —disse com serenidade.—As costas estavam rígidas, e eu quis ajudar a alongar um pouco.
—Não tinha o direito —Duarte respondeu, avançando apesar de si mesmo. O coração batia-lhe forte no peito enquanto apontava para as cadeiras de rodas vazias.—Eles não deviam sair dessas cadeiras. Sabe disso.
—Eles deviam estar confortáveis —Leonor respondeu, firme mas sem desafio.—E deviam sentir-se como crianças, não como pacientes.
Os gémeos sentiram a tensão imediatamente. Os dedos de Tiago crisparam-se no tapete, o sorriso anterior a desvanecer-se em incerteza, enquanto Martim olhava alternadamente para o pai e para Leonor, como se não soubesse qual reação era esperada dele.
Duarte sentiu algo agudo a torcer-lhe o peito.
—Coloque-os de volta —ordenou, num tom baixo.—Agora.
Leonor hesitou, estudando-lhe o rosto por um longo momento, antes de anuir. Ajudou Martim primeiro, levantando-o com cuidado, murmurando palavras tranquilizadoras enquanto o acomodava na cadeira.
Tiago seguiu-se, agarrando-se à manga dela com uma força surpreendente antes de finalmente soltar. Nenhum dos dois estendeu os braços para Duarte, e a perceção atingiu-o com mais força do que esperava.
Quando terminou, Leonor levantou-se.
—Eles riram-se hoje —disse suavemente.—Isso não acontecia há muito tempo.
Duarte não conseguiu responder.
—Devia ir —disse após uma pausa, a voz vazia. Leonor anuiu brevemente e saiu sem outra palavra, a porta fechando-se atrás dela com uma finalidade que ecoou pela sala.
Ajoelhou-se diante dos filhos, tentando puxá-los para perto.
—Está tudo bem —sussurrou, embora a voz lhe falhasse. Tiago virou o rosto para o lado.
Martim fitava as próprias mãos. Duarte ficou ali mais tempo do que percebeu, envolto pelo peso de uma decisão que não compreendia por completo.
Dezoito meses antes, tudo se tinha desfeito num instante.
A mulher levava os miúdos a caminho de casa, depois da pré-escola, as mochilas ainda decoradas com pinturas e autocolantes, quando um camião em excesso de velocidade ignorou um sinal vermelho e embateu no lado do condutor do seu carro.
Ela morreu antes da chegada dos paramédicos. Os miúdos sobreviveram, mas um traumatismo espinhal severo deixou-lhes lesões que os médicos descreviam em tons cuidados e medidos, sem espaço para esperança.
Duarte enterrou-a numa manhã encharcada de chuva, prometendo junto à campa que protegeria os filhos a qualquer custo. Cumpriu essa promessa da única forma que sabia.
Contratou especialistas, instalou equipamento, seguiu cada recomendação à risca. A segurança tornou-se controlo, e o controlo tornou-se uma jaula da qual nenhum deles sabia escapar.
Leonor Nogueira chegou meses depois, contratada para gerir a casa e trazer alguma calor a um lar que se tornara frio e silencioso. Não era terapeuta.
Nunca dissera ser. Mas falava com os miúdos como se ainda fossem inteiros, ainda capazes, e de algum modo, eles respondiam.
Naquela noite, incapaz de dormir, Duarte puxou as gravações de segurança do dia. Observou Leonor sentada no chão com os miúdos, guiando-lhes as pernas em movimentos suaves, cantarolando baixinho.
Inclinou-se para a frente quando viu: os dedos dos pés de Tiago a flexionar, quase impercetivelmente. Repetiu o momento vezes sem conta, a respiração a falhar-lhe a cada vez.
Outras imagens mostravam Martim a estender a mão para Leonor, o rosto a iluminar-se com um sorriso que Duarte não via desde antes do acidente.
Viu-a a sussurrar palavras de encorajamento, a voz cheia de paciência e convicção.
—Tentar não é inútil —disse num dos clips.—Tentar é onde as coisas começam.
Duarte cobriu o rosto com as mãos, o peso do medo a desabar sobre ele. Tinha parado a única coisa que fizera os filhos sorrir.
Ao amanhecer, encontrou Leonor adormecida no chão, fora do quarto dos miúdos, envolvida num cobertor, tendo ficado apesar de lhe ter mandado ir embora. Algo dentro dele mudou.
—Eu estava errado —disse-lhe mais tarde, a voz mal firme.—Devia ter ouvido.
Ela estudou-o com atenção.
—Eles precisam que esteja presente —disse.—Não apenas que os proteja.
Dias depois, novos exames confirmaram o que as imagens sugeriam. Havia atividade nervosa, mínima mas inegável.
A Dra. Beatriz Sousa reviu os resultados duas vezes antes de erguer o olhar, a surpresa estampada no rosto.
—Algo está a responder —disse.—Ainda não consigo explicar, mas é real.
Nem todos aceitaram a mudança. A mãe de Duarte, Isabel Mendes, apareceu sem aviso, a preocupação a endurecer em suspeita quando soube que Leonor trabalhava com os miúdos.
—Isto é irresponsável —disse num tom cortante.—Está a deixar que o desespero nuble o seu juízo.
A certeza dela vacilou apenas quando Martim, apoiado pelas mãos de Leonor, conseguiu ficar de pé por uns segundos trémulos.
Estendeu os braços para a avó, com esforço e intenção. Isabel não disse nada enquanto as lágrimas lhe enchiam os olhos, virando-se antes que alguém as visse cair.
Na manhã seguinte, Leonor tinha partido. Um bilhete esperava no balcão da cozinha, agradecendo a Duarte por confiar nela, pedindo-lhe para não parar de trabalhar com os miúdos.
Quando Duarte encontrou Tiago e Martim a chorar baixinho na sala de terapia, a verdade atingiu-o com toda a força.
—Onde está a Dona Leonor? —perguntou Tiago, a voz a tremer, mas clara. Era a primeira frase completa que proferia em mais de um ano.
Duarte não hesitou. Encontrou-a nessa tarde num apartamento modesto do outro lado da cidade, a chuva a encharcar-lhe o casaco enquanto batia à porta.
—O meu filho falou hoje —disse quando ela abriu, a emoção a transbordar em cada palavra.—Perguntou por si.
Ela fitou-o, as lEla abraçou-o, e naquele instante, sob a chuva que teimava em cair, Duarte entendeu que o milagre nunca tinha sido sobre andar, mas sim sobre aprender a confiar novamente.